PUBLICIDADE

Topo

Retratos

Instantâneos de realidade do Brasil e do mundo


Retratos

Ela roubou um banco com o marido e lutou por 21 anos para tirá-lo da prisão

Cena do documentário "Time", da Amazon - Divulgação
Cena do documentário "Time", da Amazon Imagem: Divulgação

Mariane Morisawa

Colaboração para Universa, de Los Angeles

21/10/2020 04h00

Para Fox Rich, moradora de Shreveport, Louisiana, nos Estados Unidos, o sonho americano parecia real. Depois de dez anos de idas e vindas, ela tinha se casado com seu namorado do ensino médio, Robert Richardson, virado mãe de três meninos, comprado uma casa e aberto uma loja de moda hip hop.

Só que o dinheiro prometido para o negócio não veio. No desespero, os dois cometeram um erro: decidiram roubar um banco. Era 1997. Fox seria a motorista, e Rob e um primo fariam o assalto. Não deu certo. Eles foram pegos, os US$ 5.134,95 levados foram recuperados pela polícia, e Rob acabou condenado a 60 anos de prisão sem possibilidade de liberdade condicional. Depois de dar à luz mais dois meninos, Fox também passou três anos e meio na prisão por tentar influenciar dois membros do júri popular.

Ao sair da cadeia, Fox tinha virado uma ativista pela reforma do sistema prisional, ao mesmo tempo em que lutava para sustentar a casa, tocar o próprio negócio e criar os cinco filhos - um dos meninos nasceria já com Rob encarcerado.

"De cara, eu entrei no modo luta pela sobrevivência", diz ela em entrevista a Universa. "Por causa de US$ 5.000 [aproximadamente R$ 28 mil], nós fomos condenados à prisão perpétua. Fazemos piada de outros países que executam pessoas por crimes similares. Nos Estados Unidos, estão fazendo a mesma coisa: só que, em vez de fazer publicamente, promovem um linchamento secreto de seres humanos usando o tempo em vez de armas." Sua batalha para libertar o marido está no documentário "Time", premiado no festival Sundance, que acaba de entrar no ar na Amazon Prime Video.

A diretora do filme, Garrett Bradley, conheceu Fox quando estava fazendo um curta-metragem, "Alone", sobre uma jovem que enfrentava a decisão de se casar ou não com o namorado, que tinha acabado de ser preso. "Queria promover conversas de mulheres de gerações diferentes, navegando o sistema e enfrentando de maneiras diversas o encarceramento", diz Garrett.

Encarceramento em massa sob o ponto de vista feminista

Sua ideia é falar do encarceramento em massa, que afeta homens negros e hispânicos nos Estados Unidos de maneira desproporcional, de um ponto de vista feminista e especificamente da mulher negra. É uma inversão do retrato mais tradicional do problema, que costuma focar em quem vai para a prisão. No filme, não há cenas dentro do presídio, nem de tribunal. O foco é na mulher que ficou para trás, nos seis meninos, na família que tenta não virar estatística -um em cada três filhos de pessoas presas termina na cadeia também.

O ângulo, diz Garrett, é o do amor, reconhecendo também a tentativa de destruição da unidade familiar negra. Como Fox gosta de definir, essa é uma experiência de amor radical -e de resiliência. "Rob e eu esperamos que esse filme seja uma demonstração de amor pelos outros, para todos que estão batalhando para virar seres humanos melhores e tornar o mundo em que vivem melhor", diz Fox.

Sexo pós-libertação

A ideia inicial de Garrett era fazer outro curta-metragem, focado nas infindáveis ligações de Fox para saber o andamento do caso do marido. Mas, no último dia de filmagem, Fox deu à cineasta uma sacola cheia de fitas caseiras de vídeo. Nas mais de cem horas gravadas, havia de tudo: desabafos de Fox, os meninos no carro, brincando, passando roupa e, acima de tudo, crescendo -sem a presença do pai.

Em essência, há uma resolução dela e de Rob, que aparece apenas em telefonemas, de não deixar que sua tragédia destrua a família. A diretora então viu que ali não havia um curta, mas sim um longa-metragem. "As gravações ofereceram oportunidades reais de entender Fox e a história da família, de uma maneira que eu jamais poderia ter feito, já que captam sua juventude, seu espírito livre e a gênese de sua vida antes de eu conhecê-la."

Em "Time", a jovem Fox vai dando lugar a uma mulher madura, de tailleur, comandando sua concessionária de carros de um escritório elegante. Foram 21 anos de luta, até a libertação de Rob, em 2018. A vida reunida tem sido mais do que boa. "Olha, o sexo está ótimo", diz Fox, com seu sotaque do sul dos Estados Unidos e uma gostosa gargalhada.

"Realmente, é uma coisa linda ter intimidade de forma regular." Mas não só. Os filhos também estão mais felizes e com orgulho de Rob. "Ter o pai em casa é tudo o que eles imaginavam e um pouco mais", diz ela. Até a mãe de Fox, que fala numa das gravações que não conhece o genro, rendeu-se a Rob. "Ela faz bolo fresquinho para o genro quando passamos por lá. E fica feliz quando Rob liga para saber como ela está e perguntar das novidades. Em geral, são coisas simples, como o jardim que floresceu. Mudou muita coisa."

Questionando o sistema judiciário

O filme coloca rostos no drama das mais de 2 milhões de pessoas encarceradas só nos Estados Unidos. O casal nunca negou sua culpa, nem a dor causada às pessoas assaltadas e à família deles. Mas espera que, depois de assistir ao filme, as pessoas pensem duas vezes antes de dizer que quem comete um crime precisa cumprir a sentença recebida.

"Muitas pessoas afirmam isso porque acreditam que o sistema judiciário é justo. Eu não acho que há como assistir a 'Time' e chegar à conclusão de que eu deveria ter cumprido os 60 anos", diz Rob.

Retratos