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Briga de irmãs viraliza: como ajudar crianças a lidar com as emoções?

Crianças são naturalmente mais impulsivas do que os adultos - Getty Images
Crianças são naturalmente mais impulsivas do que os adultos Imagem: Getty Images

Ana Bardella

De Universa

21/10/2020 19h16

O que era para ser apenas de uma comemoração de aniversário se tornou assunto no Brasil inteiro. Maria Eduarda, de Pato Branco (PR), completou três anos — e o momento de soprar a vela do bolo entrou para a história da família, uma vez que se tornou uma cena inesquecível de briga. A irmã mais velha da menina se colocou na frente e apagou a chama primeiro. Então a aniversariante se irritou e as duas começaram a brigar. O momento foi registrado pela madrinha da menina, que postou o vídeo nas redes sociais. Não demorou até que a gravação fosse assistida por milhões de pessoas e virasse motivo de riso e debate no ambiente digital.

Muitos escolheram um time: aniversariante versus irmã. Outros relembraram as brigas que tiveram na infância com irmãos, primos e parentes. Já alguns pais e responsáveis assistiram a cena com cautela e passaram a se questionar sobre como podem ensinar seus filhos a lidarem com emoções negativas, tais como o ciúme e a raiva, de uma maneira saudável.

Impulsos incontroláveis

Ana Cecilia Prado Souza, psicóloga infantil especialista em neuropsicologia, relembra que até os 4 anos, crianças não têm controle inibitório, ou seja, são incapazes de controlar seus impulsos. "Elas têm um cérebro ainda imaturo e com poucas estratégias para responder a agentes estressantes, ameaçadores ou inesperados. Logo, a resposta aos sentimentos é motora, já que a resposta cognitiva demora quase a infância toda para se desenvolver", diz.

Também é interessante observar que, até esta idade, as crianças respondem aos sentimentos, sejam eles positivos ou negativos, com o corpo inteiro. "Quando ficam animadas, pulam, gritam, agitam os braços. O mesmo acontece quando estão diante de outras emoções. No caso do vídeo, a reação a uma situação inesperada foi uma puxada de cabelo, mas poderia ter sido, por exemplo, um grito ou um choro", afirma Ana Cecilia.

Riso de deboche?

Nas redes sociais, muitos categorizaram a irmã de Maria Eduarda como "debochada", já que sua reação ao ter os cabelos puxados foi dar risada. A especialista discorda do adjetivo. "Esse é o olhar de um adulto sobre a situação. No fundo, a criança que passa por uma situação do tipo, usa o riso como uma ferramenta para driblar a vergonha", opina. Com o passar dos anos, o processamento das emoções vai se tornando mais elaborado e as crianças tomam consciência de que estão sendo observadas e de que seu comportamento está sendo avaliado. "Por isso é importante que haja um direcionamento claro dos adultos sobre como elas devem agir, principalmente quando estão diante de uma situação nova, para que se sintam seguras", indica a psicóloga.

Ciúme, raiva e controle sobre as próprias emoções

Já que as crianças são naturalmente mais impulsivas do que os adultos, como ajudá-las a canalizar suas emoções de forma saudável? O primeiro passo, segundo a especialista, é compreender as fases do desenvolvimento infantil. "Um adulto atento sempre pode ajudar uma criança a retornar ao seu equilíbrio nos seus momentos mais intensos. Até os 4 anos de vida, elas são pequenas demais para dar conta de tudo o que sentem. Permitir que elas chorem, oferecer um abraço e ajudá-las a nomear as emoções apontando que estão sentindo raiva, tristeza, frustração ou medo são ferramentas eficazes para que se sintam acolhidas, respeitadas e amadas", diz.

A partir dessa idade, conforme o repertório da fala se torna mais extenso, elas próprias sinalizam suas emoções. "Para ajudar, os adultos podem utilizar estratégias cognitivas como, por exemplo, perguntar se o que estão sentindo é grande ou pequeno. 'Se fosse um monstro, como seria? E se fosse um bicho?'. Ajudar a colocar em palavras as sensações é muito benéfico", indica Ana Cecilia.

Outra estratégia é ofertar exercícios de respiração para que elas consigam se acalmar nos momentos mais tensos. "Então, com o passar dos anos, elas mesmas vão desenvolvendo métodos de lidarem com as frustrações. Por exemplo: algumas, diante de uma situação do tipo, demonstram que preferem ficar sozinhas. É muito útil para o processo de educação que o adulto observe essas reações e incentive desde cedo o processo de autoconhecimento dos filhos", afirma.

A profissional relembra, no entanto, que é impossível ter cem por cento de controle sobre as emoções, uma vez que nem os mais velhos são capazes de fazer isso. "Por esse motivo é necessário manter uma postura de menos julgamento e mais sensibilidade ao longo de todo o processo de educação", conclui.

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