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Poeta feminista Angélica Freitas lança livro e passa pandemia em Berlim

Angélica Freitas - Divulgação
Angélica Freitas Imagem: Divulgação

Caio Delcolli

Colaboração para Universa

18/10/2020 04h00Atualizada em 19/10/2020 15h49

A gaúcha Angélica Freitas, uma das poetas brasileiras mais ativas e proeminentes da atualidade, acaba de lançar seu quarto livro. Reconhecida por abordar, principalmente, o universo feminino e lésbico, ela agora faz uma espécie de colagem de temas em "Canções de Atormentar", publicado pela Companhia das Letras. Estão lá poemas sobre memórias de infância no Rio Grande do Sul, indignação com a situação política no Brasil, machismo, entre outros.

Em "Laranjal", por exemplo, ela rememora o pé de araçá plantado pelo avô. Já em "Abelhas", aborda suas frustrações com o país. Há também um texto ("Ana C.") dedicado ao impacto que a poeta e crítica literária Ana Cristina César (1952-1983) teve em sua adolescência e outro ("An introduction to mate") sobre um gringo que é apresentado ao mate. O poema que dá título ao livro foi apresentado por Angélica e a esposa, a cantora Juliana Perdigão, durante o evento Zapoeta, em 2017, em São Paulo.

O lançamento da poeta gaúcha - Divulgação - Divulgação
O lançamento da poeta gaúcha
Imagem: Divulgação

"?Canções...? amarra a minha poética até agora. Essas são as coisas com as quais me ocupei: minha relação com a literatura, com o meio, com os meus questionamentos sobre o que é ser mulher", conta a escritora, que é autora de "Um útero é do Tamanho de um Punho" (lançado em 2012 pela Cosac Naif e em 2017, pela Companhia das Letras), em que investiga, em poesia, o que é ser mulher.

Além de crítica e contundente, a obra de Angélica é bem humorada. O título de "Rilk Shake", por exemplo, é uma piada com o nome do poeta tcheco Rainer Maria Rilke. O livro foi editado pela Cosac Naify em 2007 e uma nova edição está prevista para 2021, pela Companhia das Letras. Em um dos poemas do livro, ela descreve a poetisa americana Gertrude Stein soltando gases. Já no road movie em quadrinhos em "Guadalupe" (2012, Quadrinhos na Cia.), criado com o ilustrador Odyr, uma jovem mulher cruza o México para cumprir o último desejo da avó recém-morta.

"Em termos de linguagem e poética, o novo livro vai até mais adiante do que os anteriores; ele é mais experimental e, de certa maneira, uma síntese da minha poesia", diz.

Uma antena que conecta o mundo pela escrita

Em entrevista a Universa, Angélica disse que se vê como uma "antena". "Acho que escrever é um gesto. Você abre o caderno, se senta com uma caneta ou lápis diante da página em branco, encosta esse lápis no papel e começa a escrever. "É como se você ligasse uma coisa ? eu penso na imagem de uma antena que se conecta com coisas que estão passando".

Entretanto, embora a inspiração seja importante, ser apenas uma "antena" é não é suficiente. Para a escritora, é importante aprender a escrever para ser uma "antena melhor". "Eu me vejo como uma poeta disposta a fazer uma troca com o que está acontecendo ao redor e transformar esses impulsos em escrita." Esta é, certamente, uma das características que fazem de Angélica uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

"Ela consegue falar sobre coisas muito sérias e profundas de um jeito bem humorado e afiado", comenta Alice Sant?Anna, também poeta e editora de Angélica Freitas na Companhia das Letras. "O segundo livro dela, ?Um útero é do tamanho de um punho?, foi lançado às vésperas da quarta onda feminista, em 2012, e segue fazendo muito sentido. Ele é profundo e tem um impacto enorme sem ser panfletário. É pioneiro nesse debate e trouxe muitos novos leitores para a poesia, além de muitas novas poetas."

"Um útero..." é um caso atípico e bem sucedido no mercado editorial brasileiro, sobretudo em se tratando de um livro de poesia. Lançado originalmente pela editora Cosac Naify, que encerrou atividades em 2012, vendeu mais de seis mil exemplares. Em 2017, com contrato assinado com a Companhia, "Um útero" voltou às lojas e uma nova reimpressão está prevista.

Escrevendo em cafés

De repente, no meio da entrevista, uma gata mia. Angélica tem duas: Felinto — em homenagem à escritora Marilene Felinto —, de 9 anos, e Cinza, de 6, que tem esse nome porque? Bem, ela é cinza. Ambas vivem com a poeta e a esposa em Berlim. "Elas odiaram a viagem de Pelotas para cá, mas eu pensei que é melhor para passarem por doze horas de terror no voo do que um ano longe da gente", conta.

A poeta está na capital germânica como artista residente do DAAD, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. Uma das colegas de turma dela é ninguém mais, ninguém menos que Svetlana Alexievich, a vencedora do Nobel de literatura em 2015. A residência é, sem dúvida, disputada.

A boa recepção de "Rilke Shake" fora do Brasil (foi traduzido para o inglês por Hilary Kaplan, venceu dois prêmios internacionais e figurou entre os finalistas do prestigiado prêmio PEN) a ajudou a ter projeção internacional e a conseguir a bolsa, conta a poeta.

É um bom momento para ela, mesmo com a pandemia, que, revela, pouco afetou sua rotina. Ela continua a frequentar aulas, mesmo que usando máscara, e, às vezes, escreve em cafés, levando um de seus vários cadernos de anotações.

"Ser poeta é algo nada capitalista. Quando eu larguei o jornalismo, em 2006, não fazia ideia do que ia acontecer. Passei por momentos sem dinheiro algum. Algumas pessoas já me perguntaram: ?dá para pagar os boletos??. Às vezes, a gente quer fazer uma coisa e os caminhos vão se abrindo. De uns tempos para cá, tenho me virado bem. Tenho conseguido pagar meus boletos."

Angélica não é a única a viver um grande momento em Berlim. Felinto e Cinza também estão na mesma onda. "Nas primeiras semanas, eu ia ao mercado e ficava comprando sachês diferentes de comida para gatos — truta com ervas, ensopado de coelho e tal. Acho que elas gostaram. Agora moram na Europa, são chiquérrimas", ri a poeta.

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