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Mistério, isolamento e sarcasmo na obra da americana Ottessa Moshfegh

Ottessa Moshfegh, escritora americana - Krystal Griffiths
Ottessa Moshfegh, escritora americana Imagem: Krystal Griffiths

Caio Delcolli

Colaboração para Universa

13/10/2020 04h00

Uma viúva de 72 anos caminha pela floresta quando encontra um bilhete dizendo: "O nome dela era Magda. Ninguém vai saber quem a matou. Não fui eu. Aqui está o cadáver dela". Não há corpo algum no local, mas a mulher parte para uma investigação para saber quem é responsável pela morte. É assim que começa a história de Vesta Gul, protagonista do novo livro da americana Ottessa Moshfegh, 39, "Death in her hands" ("A morte nas mãos dela", em tradução livre para o português), ainda sem previsão de lançamento no Brasil.

Mas não se trata exatamente de um policial. "Se você estiver buscando uma história de investigação e escolher meu livro, pode ficar um pouco desapontado. Ele é muito mais centrado na imaginação de Vesta. Ela explora as possibilidades do que talvez tenha acontecido e processa suas próprias experiências por meio dessa 'investigação'", diz Ottessa, que conversou com Universa por uma chama de vídeo a partir de sua casa em Pasadena, na Califórnia (EUA).

A narradora tem traços semelhantes aos das outras personagens da autora. É um tanto excêntrica, esquisitona, aborrecida e solitária. O isolamento ? assim como o sarcasmo ?, aliás, é um tema recorrente na obra da americana. A diferença entre Vesta e as outras protagonistas, além da idade (ela é mais velha), avisa a autora, é que ela não está ciente das injustiças do mundo.

Em "Eileen", o primeiro romance de Moshfegh, previsto para ser lançado no Brasil no próximo ano, pela Todavia, a personagem que dá nome ao livro supre o pai alcoólatra com bebidas. Os dois vivem juntos desde a morte da mãe da personagem, que, embora não queira fazer mal ao homem, deseja mantê-lo bêbado enquanto ela se refugia na própria imaginação. Até que se envolve em um crime com uma colega do centro de detenção juvenil onde trabalha.

Já, em "Meu Ano de Descanso e Relaxamento", a personagem principal dorme por quase um ano todo, sob efeito de centenas de comprimidos. O livro foi publicado no Brasil em 2019, também pela Todavia, um ano depois dos Estados Unidos. Na época, os leitores americanos interpretaram a história como uma crítica ao abismo econômico em que o país ainda se encontra.

Depois da pandemia do novo coronavírus, no entanto, ele tem sido lido como "uma profecia que deu errado", segundo palavras da própria Moshfegh em artigo publicado no Guardian em abril. No romance, porém, o isolamento é escolha da protagonista. "É meramente uma coincidência que a pandemia tenha vindo alguns anos depois de o livro ter sido lançado. Parece que as pessoas estão se identificando com o enredo. Talvez elas tenham algum conforto lendo-o enquanto estão em casa, o que me deixa feliz", diz.

"Se Trump for reeleito, país assume ser fascista"

Embora tenha conseguido se manter criativamente produtiva enquanto pratica o isolamento social em casa ? ela tem trabalhado em roteiros de adaptações de seus livros para o cinema ?, Moshfegh diz que está ansiosa, brava e triste, sobretudo com a situação americana e a eleição que pode tirar Donald Trump da presidência se aproxima, a pandemia do novo coronavírus avança ? já são mais de 210 mil mortos no país.

"Se ele for reeleito, o país assume ser fascista. Então, votar em qualquer um, qualquer um menos ele seria melhor, seja você democrata ou republicano. Sou nenhum dos dois, não tenho filiação partidária", diz.

Ela conta que está insegura a respeito do futuro do país e horrorizada com a maneira como o atual presidente tem lidado com a pandemia. "Estou aterrorizada pelo governo dos EUA. O que está acontecendo é indesculpável. Espero que tenhamos aprendido que sistemas de autoridade não são confiáveis em qualquer circunstância e que devemos cuidar de nós mesmos."

Entram para a conta de preocupações de Moshfegh ainda os protestos do movimento Black Lives Matter, que chegam ao quarto mês, e os incêndios que têm destruído milhares de quilômetros de áreas florestais, inclusive algumas próximas à casa dela.

"Aqui no meu bairro tem o aviso de evacuação, mas não há ordem, então podemos permanecer", diz. As queimadas na Califórnia têm superado com folga os números de anos anteriores.

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