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Egnalda Côrtes: dizendo não, ela mudou mercado para influenciadores negros

Egnalda Côrtes - Fábio Audi/Divulgação
Egnalda Côrtes Imagem: Fábio Audi/Divulgação

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

09/10/2020 04h00

Gabi Oliveira, Nataly Néri, Tia Má e Murilo Araújo - além de milhares de seguidores, esses influenciadores têm em comum uma articuladora essencial por trás de suas carreiras: Egnalda Côrtes. A comunicadora, que há cinco anos atua como gerenciadora de carreira de criadores negros, é responsável não só por alavancar os nomes que passaram pela agência Côrtes e Companhia, mas por subir a régua do mercado da internet para os que vieram depois.

Egnalda teve como primeiro cliente o filho, PH Côrtes, à época com 14 anos, e viu nos outros jovens negros que apareciam no YouTube uma potência que deveria ser fomentada - e com dinheiro.

"Em 2015, 2016, eu sabia que o que eles estavam fazendo era politicamente muito relevante, e que, se não fosse potencializado, morreria. Quando a barriga ronca, a boca se cala. Mas quando partimos para um movimento de pagar bem por esse conteúdo, tornamos sonhos possíveis e isso reverbera como uma onda", disse a Universa. "Eu comecei pensando: 'Se eu fizer um trabalho bem feito com essas três pessoas aqui, eu garanto a sustentabilidade deste nicho de mercado'".

Não à toa, ela ganhou fama de ser cara no mercado: os oito criadores de conteúdo hoje ligados à sua agência não aceitam permutas nem fecham negócios por valor abaixo do que ela estipula, depois de negociações que chegam a durar meses. Gabi Oliveira, uma das influenciadoras mais bem pagas da carteira de Egnalda, contou a Universa que diz mais "não" do que "sim" às propostas que recebe.

Em entrevista, Egnalda explica porque os "nãos" são tão valiosos, compartilha o maior conselho que dá aos criadores com quem trabalha - ter uma carreira fora da internet! - e fala sobre como o racismo recai sobre os influenciadores em ascensão.

UNIVERSA: Como você constrói grandes carreiras dizendo mais "não" do que "sim"? E por que prefere dizer tanto "não"?

EGNALDA CÔRTES: Os "nãos" que eu digo são sempre muito fundamentados, faço quase o papel de uma educadora. É um 'não' transformado. Eu não vou pensar que a pessoa tem obrigação de saber porque eu estou dizendo não àquela proposta. A gente vive num país com uma herança muito perversa e pessoas brancas não aprendem na escola o que é ser branco, o que é ter privilégios. Então eu explico porque estou dizendo não.

Não é sobre inclusão, sobre dar um título de embaixadora de marca para uma pessoa negra, para dar visibilidade, mas sobre o impacto que aquela ação, seja uma campanha, um publi, vai ter no outro. Não adianta ter um discurso sobre valorização da diversidade, mas por trás fechar contratos de R$ 200, R$ 500. Eu não posso compactuar.

Agora, quando você explica para o outro lado a importância de financiar, dar autonomia a mulheres negras, funciona. As marcas que me procuram querem isso.

Mas como falar em dizer "não" para um influenciador que está no começo da carreira, recebendo oferta para a primeira parceria, precisando ganhar dinheiro?

O primeiro passinho é entender o objetivo. Se o seu objetivo é que o mercado publicitário te conheça e te torne popular, é uma lógica, mas é uma lógica que sucateia, dura um ano. Eu não consigo trabalhar com influenciadores que chegam com esse objetivo. Eu venho de uma lógica de mercado em que a prioridade é construir uma marca. Mas isso leva tempo.

Um criador que está ali fazendo conteúdo para a internet ao mesmo tempo em que trabalha como Uber ou atendente numa agência de publicidade, por exemplo, garante o boleto e consegue construir sua marca sem ficar vulnerável a atender qualquer tipo de oferta. Mesmo quando a coisa deslancha, ele precisa ter outras alternativas, voltar para o mercado ao qual pertencia antes. Ser um criador de conteúdo, um influenciador, não pode definir a existência de ninguém.

Egnalda Côrtes - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Egnalda Côrtes - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Esse é um conselho que você dá aos criadores com quem trabalha: manter uma carreira paralela à internet?

Sim, essa é minha principal orientação. Eu pergunto "Fulana, qual é sua formação? Então vamos traçar aqui quais profissões você pode executar se isso acabar, a gente vai construir sua autoridade dentro da sua formação". E os influenciadores que não estudaram? Vão estudar. É preciso ter algum tipo de especialidade, a gente não sabe o dia de amanhã. A fama é efêmera. Não estou dizendo que a carreira de criador não vai dar certo, estou dizendo que vamos construir uma marca tão sólida que você vai poder trabalhar na sua área com ou sem a fama.

E hoje quais são os maiores desafios para um influenciador negro continuar no mercado, se mantendo?

Não ser incoerente. Pregar uma coisa na internet e outra na vida. O racismo vai fazer com que ele seja investigado e, se ele errar, o racismo fará sua ação perversa de exterminá-lo das redes. Se ele melhorar de vida, não precisa vender só miséria, mas existe o questionamento: "Será que as pessoas vão aceitar o meu crescimento?" Nós estamos num país racista, mesmo que você tenha dinheiro, há que se ter cuidado de como mostrar isso, que discurso vai usar para mostrar isso, porque, ao mesmo tempo em que alguns celebram, outros começam a odiar. Lembra quando a Taís Araújo fez a Helena, do Manoel Carlos? Era uma mulher negra, rica, bem sucedida, no papel de protagonista, mas perdeu espaço na novela mudou totalmente a trama dela, porque as pessoas não entenderam aquilo.

Por outro lado, ele não pode ficar na favela para sempre.

No primeiro momento, é cool o influenciador de favela, mas depois o seguidor começa a buscar o cenário clássico, a casa bonita. Começa a se avaliar, não é gostoso ver um pé direito alto, um janelão? Por que você acha que influenciador negro não aparece no TikTok? Olha o cenário.

Isso é algoritmo. Algum tipo de progresso ele tem que mostrar, o que é perverso. Se ele sai da favela, vira o traíra, se ele não sai, vai ficando defasado.

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