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Em encontro, homens abrem o coração e dividem dores: "Masculino nos adoece"

Participei, como ouvinte, de um encontro de homens que existe desde 2018 para falar sobre masculinidade - Getty Images/iStockphoto
Participei, como ouvinte, de um encontro de homens que existe desde 2018 para falar sobre masculinidade Imagem: Getty Images/iStockphoto

Camila Brandalise

De Universa

06/10/2020 04h00

Faz cinco anos que, como jornalista, me dedico a escrever sobre violência contra a mulher. Por muito tempo, meu entendimento do assunto se dava a partir da perspectiva da vítima. Depois de diversas entrevistas com pesquisadoras do tema, entendi que essa violência só vai acabar se olharmos, também, para o efeito da opressão de gênero nos homens.

Não é que ao ouvir o lado de um machista ele será eximido de culpa. Não é sobre ter pena. Mas sobre perceber que constrangimentos causados pelo machismo também os têm como alvo quando escutam, desde pequenos, que não devem demonstrar sentimentos —aquela coisa de "falar de emoções é coisa de mulher".

Por isso, várias iniciativas surgiram, de uns poucos anos para cá, para que homens possam se encontrar e falar sobre o que sentem. Existem os grupos de reflexão para agressores, em que a Justiça os obriga a frequentar aulas para que entendam porque não podem bater numa mulher. Mas há também encontros informais, em que homens sem nenhum tipo de relação com processos criminais se juntam para falar sobre suas dores e sobre como a chamada "masculinidade tóxica" os afeta.

Participei, como ouvinte, de uma dessas rodas de conversas informais, o Círculo de Homens, no dia 24 de setembro. Havia nove participantes, todos sabiam que eu estava lá. A iniciativa, organizada no Rio de Janeiro, existe desde 2018. Antes do coronavírus estar solto por aí, eles se encontravam presencialmente e se posicionavam em um círculo para falar, semanalmente, sobre algum tema. Por causa da pandemia, adotou o formato virtual. No dia em que estive presente, o assunto foi trabalho.

"Energia masculina" é incômodo no ambiente de trabalho

Depois que os nove nomes que confirmaram a participação no evento chegam à sala virtual, o criador do Círculo de Homens, o educador Leandro Uchoas, dá boa noite e conduz uma breve meditação, pedindo aos participantes que deixem as preocupações do dia para trás. Então, lança a pergunta: "O ambiente de trabalho de vocês é completamente sadio? E por quê?"

Três deles têm falas que me chamam a atenção. Relatam terem passado por ambientes "extremamente masculinos", associando esse masculino a características como pressão, cobrança, rispidez no trato interpessoal, tensão, competição e assédio moral. "Era um ambiente tóxico", diz um participante sobre o lugar em que o trabalhava, afirmando ser um ambiente que adoece.

Os participantes tinham entre 30 e 50 anos, em sua maioria profissionais liberais, como advogados, jornalistas e engenheiros.

Outro participante fala sobre ter vivido um período de assédio moral, em 2019, e que as colegas mulheres sofriam ainda mais. "Tinha 40 anos e ainda assim foi violento", diz. Quando questionado sobre como se sentiu nessa época, respondeu: "Quebrado emocionalmente" —e pontuou que foi o pior ano de sua vida.

Outro comenta que se sentiu sufocado em um trabalho antigo, por haver "um macho alfa" que "subjugava mulheres em torno dele". Todos disseram perceber que mulheres são: 1) mais interrompidas e negligenciadas que eles; e 2) não ocupam os postos de liderança das empresas em que trabalham e trabalharam. Apesar de se incomodarem, ele dizem que não agem diretamente para que isso mude.

De espiritualidade a relação com o pênis

"Já realizamos mais de 70 círculos, falamos de muita coisa", diz Uchoas. Os principais temas, ele conta, foram raiva e agressividade, paternidade, relações afetivas, relacionamento sexual, traumas de infância e de adolescência, homem provedor e "broderagem".

"Tratamos de temas ternos, como afetividade e compaixão, e de temas engraçados, como nossa relação com o pênis. E todos esses temas são surpreendentes —não dá para saber o que vai sair", conta.

"Tem dia que a pessoa está contando uma história e começa a chorar. Às vezes, chora forte. É uma catarse. Está colocando coisa para fora. Às vezes, a pessoa não queria contar uma parte mais forte daquela história, mas acaba contando. É um processo de cura mesmo", diz Uchoas. "A gente escuta e tenta não julgar. Presencialmente, abraçamos a pessoa. Quando percebemos que alguém está em uma catarse dessas, damos mais tempo, pedimos para falar mais."


"Não existe homem feminista"

Me surpreendi positivamente quando ouvi um homem corrigindo o outro ao dizer que não existe homem feminista, ao conversarem sobre como eles podem ajudar mulheres que sofrem alguma opressão no ambiente de trabalho. E a explicação foi tão boa que até eu, que sou feminista e não vejo problema quando um homem diz ser também, repensei a questão.

"O homem sempre se beneficia com o machismo, não tem como dizer que é feminista. O feminismo fala de opressões que nós não vivemos. O que dá para ser é simpatizante. Mesmo assim, sei que tenho posturas machistas", disse o advogado na faixa dos 30 anos.

O mediador reforçou: "A melhor terminologia é 'homem antimachista' e 'homem pró-feminismo'." Uchoas conta que sua formação no tema tem como base palestras e leituras feitas por conta própria. "Não fiz curso, mas acabo reproduzindo o que o movimento feminista está acumulando."

Ouvir sem julgamento

No Círculo, três homens pontuam que mulheres também podem ser assediadoras, tanto no trabalho quanto nos relacionamentos, e que é importante falar sobre isso. Um contou que, mesmo sendo gay e casado com outro homem, ouve comentários constrangedores de mulheres com as quais trabalha, que dão em cima dele. Outro também comentou que as pessoas mais difíceis com quem já trabalhou são mulheres.

Achei que alguém fosse falar que esse não era o foco da conversa. Que as mulheres, ainda que assediem, são minoria nos espaços de poder. Mas não, eles foram apenas ouvidos.

Depois, Leandro me conta que esse é um ponto fundamental do encontro: ouvir sem julgamento. Fácil não é, mas é o caminho que ele acredita que leva a mudanças reais.

"Vejo alguns superando traumas pessoais profundos dos quais sequer tinham noção, e isso é bastante acolhedor. Ao mesmo tempo, percebo algumas pessoas caminhando de forma mais lenta, e acho que isso é totalmente aceitável. Porque, para alguns companheiros, é muito doloroso enfrentar seus fantasmas. É assim mesmo, cada um tem seu tempo", diz.

Ele mesmo afirma ter evoluído muito com os encontros. "Percebo uma espécie de 'freio', como se, de repente, surgisse uma voz dizendo: 'Não responda isso para ela. Sei que você sempre respondeu, mas agora você tem que mudar'. Também sinto surgir em mim uma noção de paciência, de saber que os processos sociais de mudança de paradigma são lentos, e às vezes a gente vai ver pessoas progredindo, e outras avançando em velocidade mais lenta", diz.

Acredita que assim, com paciência, respeito e acolhimento, consegue levar a iniciativa cada vez mais longe. Como quando conheceu um homem evangélico neopentecostal que havia sido condenado na Justiça pela Lei Maria da Penha. "Ele ficou tão convencido pelo debate que me levou para dar uma palestra sobre masculinidade tóxica na igreja neopentecostal dele."

O encontro é finalizado com cada participante dizendo como se sente naquele momento. "Saio do encontro feliz", diz um. "Saio reflexivo", comenta outro. "Saio satisfeito, como há muito tempo não me sentia. Como é bom encontrar vocês", fala um terceiro.

Para o seguinte, Uchoas pediu a amigas mulheres que escrevessem um texto sobre momentos de constrangimento, assédio e machismo pelos quais passaram para que os homens lessem em voz alta e contassem o que tinham sentido ao ler esses depoimentos.

"Esse movimento de homens está se construindo com muito vigor e solidez no Brasil, o que nos mobiliza e incentiva. Noções deturpadas de masculinidade ainda são fonte de muita violência social."

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