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Pelos muros do país: conheça 3 mulheres da nova geração de artistas urbanas

Painel feito pela engenheira mecânica Carla Duncan - Divulgação
Painel feito pela engenheira mecânica Carla Duncan Imagem: Divulgação

Aline Takashima

Colaboração para Universa

04/10/2020 04h00

Desde que Marina Bortoluzzi, 37, começou a trabalhar como curadora e produtora de arte urbana encontrou muito mais artistas homens do que mulheres. Ela circula há nove anos nas ruas, galerias e museus do país, em constante contato com artistas e instituições. "No mercado de arte urbana tem uma predominância de artistas homens. Eu sentia falta de conhecer mais mulheres", lamenta. É por isso que em março criou o projeto WOW (Women On Walls), um programa internacional gratuito para mulheres que produzem arte urbana, organizado pela Instagrafite, uma plataforma de divulgação artística da qual Marina é sócia.

A curadora planejou 24 aulas presenciais em São Paulo. Mas, por conta da pandemia, adotou as videoconferências. "Transformar o programa em uma experiência remota possibilitou acolher mais artistas de diferentes partes do Brasil." No total, foram selecionadas 86 artistas com base no portfólio e em textos sobre a vida e carreira delas.

O programa de aulas é variado. Cobre desde temas técnicos de estêncil e lambe-lambe até assuntos mais amplos como política e feminismo. Conta com 32 professoras e artistas renomadas na arte urbana e contemporânea como Rosana Paulino, Criola e Panmela Castro. Marina comemora os frutos do projeto. "A gente criou um grupo de apoio e fortalecimento. Evitamos a cobrança e a competição. E criamos uma base sólida a estas artistas, mostrando que elas não estão sozinhas e que juntas podemos conquistar mais espaços de trabalho e visibilidade", afirma.

Universa conversou com três artistas que fazem parte do programa WOW. São mulheres de diferentes partes do Brasil, que possuem um estilo próprio e questionam o papel da mulher como artista.

Mônica Barbosa, 31, cresceu no interior do Piauí e Ceará. Ela se inspira nas camponesas nordestinas e nas inquietações de ser mulher. Por retratar o corpo nu feminino, sofreu censura nas redes sociais e até em uma galeria de arte.

Soberana Ziza, 31, é uma grafiteira da zona norte de São Paulo, do Jardim Peri Alto. Já levou a sua arte para os Estados Unidos e Alemanha. É influenciada pelo movimento afrofuturista e por questões de pertencimento da cultura negra.

Carla Duncan, 26, pinta retratos realistas e impressionistas. A artista se inspira na fotografia documental feita em Belém, sua cidade natal. Prefere pintar mais nas ruas do que em ateliês. Mas enfrenta situações machistas nos espaços públicos, como assédio e a falta de credibilidade por ser mulher.

monica barbosa - Divulgação - Divulgação
Monica Barbosa em frente ao seu mural
Imagem: Divulgação

"Devemos ocupar espaços nas galerias e nas ruas, onde deveríamos estar"

Mônica Barbosa, 31, cresceu em meio às paisagens do sertão. Foi criada em estradas de terra escutando as músicas que o pai tocava no violão e observando a mãe costurar e pintar em tecidos e panos. "O interior com todo o seu mistério, encanto e resiliência sempre me interessou." Em 2014, Mônica se mudou para Fortaleza e se tornou artista autodidata.

Antes de se dedicar inteiramente à arte, Mônica trabalhou em uma ONG organizando conversas com as mulheres do campo, no ano de 2015. "Em cada pedacinho do meu trabalho trago sentimentos e aprendizados que tive com essas mulheres. Durante cinco anos eu escutei as suas histórias. Conheci as suas angústias, opressões e violências."

Além de se inspirar nas camponesas nordestinas, a artista aborda a ancestralidade feminina e as inquietações de ser mulher. Um dos temas presentes no seu trabalho são as relações homoafetivas, principalmente com a artista Larissa Gonçalves, poeta e bordadeira que conheceu em São Paulo. "Eu sempre represento a minha relação com mulheres. Em muitas obras falo da minha companheira e da relação que a gente tem, desse lugar espiritual, encontro de almas."

As suas obras e representações com diferentes formas do corpo feminino nem sempre são aceitas. Mônica já foi bloqueada diversas vezes no Instagram e em outras redes sociais. As plataformas alegam que a artista mostra conteúdo de nudez. "O nosso corpo feminino é reprimido em várias situações", lamenta.

Até em uma galeria de arte sofreu censura. Um artista virou a sua obra para ninguém ver a tela. A pintura retratava uma mulher com as pernas abertas e a vulva em destaque. "Cada vez mais a gente precisa romper com esses apagamentos. Devemos ocupar espaços nas galerias e nas ruas e trazer de volta o que nos foi tirado, em lugares que a gente deveria estar há muito tempo", defende.

monica barbosa 2 - Divulgação - Divulgação
Monica Barbosa: ocupando espaços
Imagem: Divulgação

Apesar de mulheres artistas sempre terem existido, elas foram excluídas dos registros da história da arte. Os seus trabalhos foram caracterizados como artesanato em vez de artes plásticas, e eram privados ao ambiente doméstico e familiar. Daniela Labra, doutora em História e Crítica da Arte e mentora do projeto WOW explica sobre o passado. "Havia todo um sistema que louvava o mestre, o gênio, o homem. As mulheres sempre foram apagadas."

As artistas só foram aceitas na conceituada Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro no ano de 1892. Apesar de conquistarem um estudo formal, elas não tinham as mesmas oportunidades que os homens. O estudo de modelo vivo, importante para conhecimento em anatomia, era vetado às artistas na maioria das vezes. Em alguns casos, quando elas tinham esse tipo de aula, os modelos masculinos usavam um tapa-sexo para não comprometer a moral e os bons costumes das damas.

As obras de Mônica são marcadas pela desconstrução estética e assimetria. Nos desenhos, ela utiliza lápis, carvão, caneta e pastel. Em julho foi uma das 16 convidadas do projeto WOW para participar do West Side Gallery, um festival de arte urbana em Itapevi, São Paulo. A ideia é inspirada na East Side Gallery, uma galeria de arte ao ar livre que revitalizou uma região em Berlim. Ao lado de outras artistas, Mônica pintou 435 metros de muros em Itapevi, em um dos maiores corredores de arte urbana do estado de São Paulo.

Pintar na rua é sempre uma descoberta. "A rua é escutar outras vozes que permeiam o espaço. Eu fico atenta com cada pessoa que passa, cada comentário que é feito. É experienciar a troca humana, corpo a corpo. A rua é o estado mais presente quanto artista."

ziza - Divulgação - Divulgação
Soberana Ziza trabalha em seu painel
Imagem: Divulgação

"Eu sou um exemplo para as mulheres da comunidade"

A artista Regina Elias da Costa, 31, conhecida como Soberana Ziza, cresceu na zona norte de São Paulo, no Jardim Peri Alto. Lá conheceu grafiteiras e mulheres MC's do hip-hop. "O movimento hip-hop é machista. Mas foi ali que eu me empoderei como mulher negra. A gente se organizou entre as mulheres porque temos esse olhar delicado das nossas vivências. A gente se potencializa ao lado de outras mulheres."

Soberana Ziza acumula diplomas. É formada em Design de Moda e Licenciatura em Artes e possui uma especialização em Gestão Pública. Em 2011, foi para Berlim divulgar a cultura do hip-hop como um movimento de arte e educação. Pintou em alguns murais e participou de uma exposição. No ano seguinte, foi para Washington a convite do museu Afro Brasil. E ouviu sobre afrofuturismo, movimento estético que definiu o seu trabalho a partir de então.

"O afrofuturismo está presente na música, na dança, na moda e nas artes. Uma das ideias é que a gente observe o nosso passado e crie um futuro através da autonomia e do protagonismo negro", explica Ziza. O movimento estético, cultural e social criado em 1960 possui elementos de ficção científica. Um dos expoentes do afrofuturismo é o filme Pantera Negra e, mais recentemente, o álbum visual de Beyoncé, Black is King. Uma questão muito importante para o afrofuturismo e também para o trabalho de Ziza é o protagonismo da cultura negra.

Atualmente, a grafiteira pesquisa os tecidos africanos. As técnicas das tecelagens abrem caminhos para compreender as histórias milenares. "Cada tecido vem de uma região. Pesquisando sobre isso a gente descobre a nossa própria história." Ziza notou que os pigmentos dos tecidos bogolan, uma técnica de tingimento do oeste da África, são da cor da argila e da terra. "É por isso que todas as minhas personagens são laranjas", explica.

painel de Ziza - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Ziza também participou do festival West Side Gallery. Em julho, pintou ao lado de Mônica Barbosa e outras 14 mulheres, um muro na região.

O tipo de arte e pesquisa de Ziza está alinhado com o momento atual, explica Carollina Lauriano, curadora e professora do projeto WOW. "As artistas têm olhado mais para a questão racial e de identidade de gênero. Quando as mulheres olham para a sua subjetividade começam a refletir sua posição na sociedade e a lutar pelos seus direitos. Elas pensam: 'eu não quero mais ser vista ou representada por um olhar estrangeiro'. Essas discussões são fundamentais para promover possibilidades de futuro."

Soberana Ziza enxerga muitas possibilidades. Conectada com a sua própria ancestralidade e história, ela não permite que os julgamentos definam quem ela é. Por ser "negra, gorda e periférica", como se descreve, sofre diversos preconceitos. Mas não se abala com as críticas. "Eu sou um exemplo e uma representante para as mulheres da comunidade."

É por isso que em março criou o movimento Mulheres Emergentes, um grupo de artistas do grafite e da arte urbana. "Ser mulher grafiteira é ser protagonista e é ter a responsabilidade de realizar um trabalho que não é só para mim. É muito importante também para as mulheres e meninas da comunidade, do lugar de onde venho."

Carla Duncan - Divulgação - Divulgação
Carla Duncan em frente a um de seus painéis
Imagem: Divulgação

"Meu trabalho está sendo reconhecido; machismo não me diminui"

Carla Duncan, 26, fazia uns traços e rabiscos descompromissados enquanto criava logos e maquetes eletrônicas. Ela é engenharia mecânica, mas sempre trabalhou com design gráfico. Em 2018 comprou tintas e decidiu desenhar. Começou a fazer retratos de mulheres. Primeiro treinou em papéis quadriculados, até sentir segurança em desenhar à mão livre. "Encontrei fotos de mulheres na internet, sem direitos autorais, o que me permitiu testar. Foi uma forma de estudar o rosto. Eu gostava da expressão, do olhar delas", explica. Desde então se dedica exclusivamente à arte.

Ela se inspira na fotografia documental feita na sua cidade natal, Belém. "Os turistas têm uma imagem de uma Belém muito exótica. Há um preconceito de achar que vivemos no meio do mato. Mas a cidade não é um folclore, um clichê. Ela é real com ônibus, calçadas." E completa: "Belém me inspira muito. É onde eu pude viver toda a minha trajetória e onde eu cheguei com a minha pintura".

Carla parte de situações reais para compor pinturas realistas e impressionistas. "Gosto do enquadramento de uma cena. Às vezes são coisas singelas como a expressão de alguém parado no ponto de ônibus. Outras vezes são composições envolvendo luzes dramáticas." Apesar do ímpeto em transformar uma cena em arte, ela é muito autocrítica. "Até hoje eu tenho medo de não conseguir fazer uma paisagem ou uma árvore, por exemplo."

Sentir medo de errar não é uma particularidade da artista. Marina Bortoluzzi, idealizadora do projeto WOW, explica que quase todas as alunas se identificam com a questão. "A mulher artista é mais autocrítica do que os homens. Tem receio em mostrar um trabalho e fazer um projeto na rua. Eu mesma sou muito autocrítica no que faço", revela.

Mesmo com os seus medos e receios, Carla é perseverante no ofício. Costuma pintar tanto no ateliê quanto na rua. Mas prefere o espaço público. "Eu me sinto mais conectada na rua. Me envolvo com tudo ao meu redor e com o que está acontecendo". "

Ocupar a rua e fazer arte urbana traz muitos desafios. Muitas vezes, as artistas se sentem em perigo e ficam vulneráveis. "As mulheres têm medo de ir para rua sozinhas. O corpo da mulher é visto como um objeto. Elas têm medo de diversas questões, como o estupro, por exemplo. Por isso tem precauções de segurança, avisam um amigo, convidam outras pessoas, há uma rede de apoio quando saem de casa", explica a curadora Marina Bortoluzzi.

Carla conta que já sofreu inúmeras situações de machismo enquanto pintava. "O meu trabalho está sendo reconhecido e tem muita gente querendo construir junto comigo. Essas situações não me diminuem."

O trabalho de Carla e de outras artistas na rua é um ato político, de resistência, explica Daniela Labra, curadora de artes visuais. "Toda atuação de uma artista mulher se expressando em um lugar público sempre será político porque temos ainda muitos espaços para conquistar", defende.

A curadora explica que as mulheres que produzem arte na rua não precisam necessariamente pintar uma obra sobre causas feministas, por exemplo, para o trabalho ser considerado político. "A sua atuação na rua é política simplesmente pela sua presença."

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