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Violência contra a mulher

Pastora cria lista de "apalpamento espiritual" para denunciar religiosos

Rute Noemi Souza é advogada, pastora e assistente social - Arquivo pessoal
Rute Noemi Souza é advogada, pastora e assistente social Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

04/10/2020 04h00

"Se o seu pastor te aperta na hora do abraço, se põe a mão na sua cintura querendo demonstrar intimidade e se põe a mão no seu peito na hora de orar por você, se liga, você está sendo assediada." Essa é parte de uma lista de recomendações para religiosas, criada pela advogada, pastora e assistente social Rute Noemi Souza, 61 anos, e que ainda conta com mais cinco tópicos.

Se liga, abençoada!

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A baiana que mora no Rio de Janeiro desde os 10 anos de idade vem publicando vídeos e dicas nas suas redes sociais em que orienta mulheres a perceber a violência de gênero em espaços religiosos. Numa live que promoveu com vítimas de violência sexual, na última semana de setembro, a lista foi apelidada por amigas que acompanhavam a conversa de "apalpamento espiritual".

"É uma brincadeira irônica e cabível. Afinal, como diz Lima Barreto, a ironia vem da dor", ela justifica. E continua. "Fiz essa lista a partir de situações pelas quais eu mesma passei e das que soube por outras mulheres. Já teve pastor roçando o braço em mim sem necessidade. Isso é assédio, é um jogo pesado. Mas as mulheres estão se fortalecendo e tendo mais coragem de denunciar", explica Rute. Ela é voluntária no projeto Justiceiras, criado pela promotora de Justiça de São Paulo Gabriela Manssur, que reúne mulheres com o objetivo de oferecer apoio emocional, jurídico e psicológico a vítimas de violência doméstica.

"Não é normal tocar no peito para orar"

Experiente em casos de vítimas violentadas por líderes religiosos, a advogada criminalista Adriana D'Urso afirma que já ouviu vários dos exemplos listados por Rute, em relatos de mulheres. Adriana explica que o agressor vai usando toques e carinhos para estabelecer uma relação de confiança com a mulher, e assim, nas palavras dela, fazer o que bem entender:

"Quando seu pai e sua mãe tentam te dar um beijo, você não foge, porque confia neles. Diferente de quando é com um estranho. Aí você se afasta. E essa barreira é quebrada quando o agressor estabelece uma relação de confiança com a pessoa. Talvez seja importante esse tipo de alerta [a lista de Rute] para as pessoas ao redor dessas vítimas, que já estão numa situação de vulnerabilidade e, por isso, não enxergam o que está acontecendo. É importante que todos saibam que não é normal tocar no peito para orar".

Primeiro assédio aos 15

O pai de Rute também era pastor, mas de mente aberta, frisa. E, desde cedo, ela passou a questionar situações de machismo já dentro de casa, como o fato de ela e de mais três irmãs serem obrigadas a lavar a calcinha enquanto os dois irmãos homens não tinham de lavar as cuecas. Também estranhava o fato de ver poucas mulheres e pastoras ocupando espaços de poder dentro da igreja, desde a década de 1970: "Esse tipo de coisa me incomodava".

Aos 15, sofreu o primeiro episódio de violência: um pastor a chamou no canto e lhe disse coisas que ela nunca tinha ouvido. "Foi um estupro auditivo", ela diz, num vídeo publicado em sua página no YouTube.

"Não falei para ninguém porque duvidei de que meu pai fosse ficar do meu lado. Somente na faculdade de direito, aos 19 anos, quando comecei a ler sobre o feminismo, foi que percebi atitudes erradas", ela explica a Universa.

A partir daí, a pastora fala que começou a prestar mais atenção na forma como os líderes religiosos agiam. Hoje, conta que é constantemente procurada por mulheres que sofrem agressões nesses espaços. Incluindo pastoras. Ela não advoga pelas vítimas, mas diz que, quando acionada por mulheres, orienta sobre os direitos delas.

"Recebo muita mensagem de texto nas redes, porque ao vivo ninguém fala, como esposas de pastores contando situações críticas do casamento. A religião, pelo menos a evangélica, coloca a mulher numa posição de silenciamento. Não querendo generalizar, mas pastores e espaços religiosos são muito cruéis para as mulheres, com seu poder intimidatório e ameaças de maldição. E fazem um jogo de atacar a autoestima delas", diz.

Rute fala que, por causa da sua iniciativa em denunciar a violência de gênero e se assumir feminista dentro de espaços religiosos, sofre perseguição por parte de uma liderança da Igreja, e que no ano passado foi afastada pelo bispo do seu ministério pastoral (quando a pessoa fica sem uma igreja fixa para atuar) depois de seis anos atuando como pastora, nas palavras dela, porque fala o que fala e também porque a Igreja não aceita as diferenças. Hoje, recorre da decisão numa comissão de justiça que existe dentro da Igreja, formada por pastores e membros eleitos.

"Estou nessa luta porque é preciso denunciar que a Igreja é machista, masculina e branca", ela afirma, para concluir. "A Igreja opta por se proteger. Esses pastores não sabem lidar com o tema. Eu conheci uma mulher estuprada por um pastor no Paraná. Ela denunciou, já tem data de audiência na Justiça, e o bispo da igreja deu licença para ele fazer tratamento de saúde", exemplifica.

A influenciadora Kênya de Oliveira Machado, 42, denunciou pastor

Pastor deu banho em vítima no hospital

A mulher a que Rute se refere é a influenciadora digital Kênya de Oliveira Machado, 42. Em outubro de 2019, ela, que é formada em direito, estava internada num hospital em Santo Antônio da Platina, a 362 quilômetros de Curitiba, com infecção nos rins, quando recebeu a visita do pastor José Fabrício Bahls. Na época, ele era líder da Igreja Metodista da cidade. Kênya não era membro do templo nem conhecia Bahls, mas diz que ele costumava visitar doentes em hospitais.

Ao ouvir Kênya relatar que estava aguardando exames para saber que tipo de infecção tinha, o homem resolveu dar banho na paciente:

"Ele sentou ao lado da minha cama e falou que eu estava suja, que precisava tomar banho. E me pegou no colo, me levou para o banheiro, tirou minha roupa e começou ali a me limpar, inclusive nas partes íntimas. Estava muito debilitada. E ele dizia: 'Fica tranquila que estou te dando banho, mas não sou eu, é Jesus'. Até que uma amiga passou no quarto e viu a cena. Ele rapidamente foi embora".

Kênya procurou a polícia para relatar o crime seis meses depois. O homem foi denunciado pelo Ministério Público do Paraná por estupro de vulnerável.

O advogado do pastor, Guilherme Ress Barboza, disse à reportagem que vai conseguir provar que o relato de Kênya à polícia não condiz com os fatos apurados. Mas não deu mais detalhes porque, justifica, o caso segue em segredo de Justiça. Disse ainda que o pastor está muito abalado, fazendo tratamento médico e que não é mais líder da Igreja.

Kênya, que não acredita na instituição religiosa, "apenas em Deus", fala que sofreu preconceito e perseguição após a denúncia, mas incentiva as mulheres a não terem medo de procurar a Justiça.

"Não tive medo porque não dependo de ninguém, e a verdade prevalece. Mas, no começo, ninguém acreditou em mim. As pessoas me olhavam bravas e me chamavam de tudo quanto era nome."

Rute endossa, e atenta para a importância de respeitar o tempo que a vítima leva para denunciar uma agressão. Kênya precisou de seis meses para tomar coragem. Outras vítimas levam anos.

"Não é um processo rápido. É assustador, doloroso e deixa a mulher com sentimento de muita culpa, mas se ficarmos caladas não mudamos a história."

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