PUBLICIDADE

Topo

Sexo

Látex, cetim, couro: entenda a hifefilia, fetiche por usar certos tecidos

Couro e látex são alguns dos materiais associados às práticas do universo BDSM  - iStock
Couro e látex são alguns dos materiais associados às práticas do universo BDSM Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

03/10/2020 04h00

Látex, cetim, couro: por que o fetiche por certos materiais é o mais comum? Sabe aquela sensação gostosa que você experimenta ao cheirar um casaco novo de couro ou ao passar os dedos em um lençol de seda ou cetim? Muitas pessoas dão uma conotação sexual a essa percepção. O nome correto do desejo, excitação, preferência ou prazer relativos a tecidos variados é hifefilia, mas é comumente adotado no meio clínico e acadêmico. Em termos gerais, é a palavra fetichismo a mais adotada.

O significado erótico de tecidos como cetim, látex e até lã, entre outros, vem das vivências táteis, olfativas ou visuais percebidas como excitantes para os adeptos do fetiche - homens, em sua grande maioria. Isso ocorre, conforme o psicólogo Marcos Santos, especialista em sexualidade da plataforma Sexo Sem Dúvida, porque as teorias mais conhecidas sobre o tema vêm dos estudos do psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), focada nos homens. "Mas isso não quer dizer que mulheres não os possuam. Elas foram reprimidas ao longo da História pelos homens e, em consequência, não desenvolveram os mesmos fetiches em igual proporção", fala o sexólogo.

Já Carlos Eduardo Carrion, psiquiatra especializado em sexualidade, de Porto Alegre (RS), opina, embasado por sua experiência em consultório, que os homens costumam ter mais fetiches provavelmente pela insegurança de conseguir ou não uma boa ereção e/ou ainda por conta do medo de não satisfazer a parceira. "Alguns atribuem o gosto por fetiches à maior carga de testosterona, que levaria a um aumento dos impulsos e, com esses, à uma maior necessidade de resultados imediatos", diz.
Ainda segundo Carrion, muitas escolhas de objeto ou de situações que o envolvam podem ter ligação com vivências, lembranças ou até mesmo falsas memórias atribuídas a um prazer sexual mais intenso. "Para ser considerado fetiche, é preciso que o material seja usado repetidamente e com a finalidade de obter satisfação com a prática.

E isso pode começar a partir da infância, sabia? Não de modo consciente, é claro. "Em alguns casos é provável que exista um contexto nos primeiros anos de vida da pessoa em que um tecido especial se associe ao comportamento da mãe e que seja compreendido e memorizado como prazeiroso ou associado a sentimentos sexuais. Muitas vezes o couro é associado a vivências infantis junto a circunstâncias, aparentemente não sexuais, como andar a cavalo", conta o terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade (Inpasex) e autor do livro "Parafilias -Das Perversões às Variações Sexuais" (Zagodoni Editora).

De acordo com Marcos, que lembra as pesquisas de Freud novamente, alguns fetiches envolvem partes do corpo ou vestuário da mãe e se relacionam com a desconexão-superação do vínculo infantil mãe-filho, além de proibições e regras transmitidas em cada fase. Exemplos: fim da etapa do colo, amamentação, mimos, repressão da nudez, experiência com o primeiro cobertor, etc. "O importante é reconhecermos que o ser humano tem a capacidade de fantasiar situações eróticas sem nenhum tipo de restrição em pensamento em qualquer fase da vida, o que facilita algumas associações com objetos ao longo da vida sexual", afirma o psicólogo.

De uniforme de guerra a Madonna

O couro e o látex são alguns dos materiais associados às práticas do universo BDSM e essa ligação, segundo Oswaldo, vem das épocas de guerra (Primeira e Segunda, entre 1914-1918 e 1939-1945, respectivamente). Uma das razões é o uso desses materiais para fabricar botas ou equipamentos de proteção. "Ao mesmo tempo, os locais de diversão nas guerras eram as boates e os bordéis, nos quais as roupas relacionadas ao erotismo levavam cetim, o substituto mais barato da seda. Em situações de maior medo e necessidades de comportamentos de fuga, novos e inusitados materiais ganharam a conexão com o sexo, uma vez que este traz relaxamento e calma, contrastando com as emoções exigidas no enfrentamento de situações difíceis", observa.

Nos países em que não ocorreram conflitos as práticas se disseminaram por transmissão cultural, pelas históricas contadas e por imagens (filmes ou vídeos) ensinando o que deve ser utilizado para a erotização. "É por isso que nem todos os estudiosos concordam com o surgimento de um fetiche na infância. O apelo sexual e a sensualização de certos tecidos e roupas foi trabalhada e divulgada culturalmente como eróticos.

Um bom exemplo é o da Mulher Gato, cuja imagem vestida de couro ou de látex se fixou no imaginário popular como uma mulher dominadora e sexy", fala Arlete Girello Gavranic, terapeuta sexual e coordenadora do curso de pós-graduação em Terapia Sexual da Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo).

Assim, as sensações podem ser associadas ao histórico de aprendizados (simbolismos culturais) como também fruto de uma descoberta tardia de gosto/desejo pessoal estimulado por filmes, novelas, revistas. A moda, por sua vez, numa atitude que mescla apropriação e encorajamento, também teve um papel fundamental na disseminação do fetiche por certos tecidos, principalmente através de criações de estilistas como Thierry Mugler, Gianni Versace (1946-1997) e Jean-Paul Gaultier entre os anos 1970 e 1990. A popstar Madonna, ao lançar seu célebre livro "Sex" (1992) com fotos de Steven Meisel, aguçou ainda mais a curiosidade das massas sobre os fetiches envolvendo couro, renda, seda, látex e afins.

E no sexo, como é?

A excitação por tocar tecidos ou peças de roupa feitas de determinados materiais é da ordem subjetiva de cada fetichista, independentemente de ser desejo consciente o não. No geral, há uma preferência por algo particular e exclusivo, seja relacionado a sensações sutis (lã, seda), seja relacionado a sensações intensas de contato (látex, vinil, couro).

Geralmente, as pessoas adeptas da hifefilia gostam de usar ou querem que o(a) parceiro(a) use roupas feitas do material para que o sexo aconteça e satisfaça por completo. "Para alguns praticantes, o ideal são aquelas roupas que cobrem o corpo todo, apenas com aberturas nos genitais. É comum encontrarmos esse fetiche relacionado com outros e também com algumas práticas. A hifefilia faz parte, por exemplo, do universo BDSM, principalmente no que diz respeito à parte de bondage, em que um dos dois do casal pode ser amarrado com lã ou enquanto usa trajes feitos do material de sua preferência. Essa pode ser outra forma de iniciar o sexo tendo atendidas suas necessidades de sentir o tipo de material que mais gera estimulação", pontua Marcos, da plataforma Sexo sem Dúvida.

O cheiro e o toque dos materiais podem ser suficientes para causar excitação - ou seja, experiências a sós também fazem parte do fetiche. Além da aproximação e do contato direto com a própria pele, o fetichista normalmente pede para que o parceiro use o objeto durante as relações ou pode ter uma relação especial com tal item, como se masturbar enquanto o segura, esfregá-lo ou cheirá-lo. São diferentes formas então de se excitar e de alcançar satisfação sexual.

A ideia de que o fetiche possa gerar algum problema na vida da pessoa normalmente se associa às limitações ou dificuldades reconhecidas pela própria pessoa ou sua parceria, conforme Marcos. Na prática, o objeto do fetiche existe para acabar com uma angústia e ou atender a um desejo. "O fetiche pode ser problemático quando ele deixa de ser uma fantasia ou preferência sexual e passa a ser a única forma da pessoa sentir prazer. Nesse último caso, é possível ter dificuldade para manter um relacionamento afetivo-sexual de longo prazo com outra pessoa que não apresente essa característica. O importante é que toda atividade sexual, com ou sem objetos, seja realizada com consentimento e entre adultos e possa ser uma grande fonte de prazer e satisfação pessoal", atesta Marcos.

Sexo