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"A Força do Querer": pessoas trans contam como novela de 2017 os impactou

A atriz Carol Duarte no papel de Ivan, na novela "A Força do Querer", exibida pela Globo em 2017 - Globo/Estevam Avellar
A atriz Carol Duarte no papel de Ivan, na novela "A Força do Querer", exibida pela Globo em 2017 Imagem: Globo/Estevam Avellar

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

02/10/2020 04h00

A novela "A Força do Querer", que a Globo voltou a transmitir em horário nobre na semana passada, apresenta personagens inesquecíveis — a Ritinha de Isis Valverde, a Bibi Perigosa de Juliana Paes, a major Jeiza de Paolla Oliveira, mas nenhuma delas marcou tanto a vida dos telespectadores quanto Ivan, interpretado por Carol Duarte.

Na trama, ele surge como Ivana e, ao longo dos 172 capítulos, cruza uma longa jornada até entender que é um homem trans, passando pela rejeição ao próprio corpo, conflitos com os familiares, especialmente a mãe, terapia de harmonização e cirurgia de mastectomia. Em duas das cenas mais marcantes, Ivan se revolta com o próprio corpo em frente ao espelho, e, capítulos mais tarde, já no final da novela, consegue finalmente ir à praia sem camiseta.

Universa ouviu com três pessoas trans que tiveram suas histórias atravessadas por "A Força do Querer" quando ela foi ao ar pela primeira vez, em 2017, seja porque descobriram por meio da história que são transexuais, seja porque a trama ajudou a família a acolhê-los. E elas contam como a vida mudou desde então.

"Disse a meu pai: 'É exatamente isso que acontece comigo'"

O policial militar Henrique Lunardi, 25, foi o primeiro policial da PM paulista a passar por transição de gênero dentro da instituição. Quando "A Força do Querer" foi ao ar, ele sabia que era um homem trans e estava prestes a começar a terapia hormonal, mas conta que a novela ajudou — e muito! — que os pais entendessem pelo que ele estava passando.

Henrique 1 - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Henrique 2 - Neto Lucon/Arquivo pessoal - Neto Lucon/Arquivo pessoal
Imagem: Neto Lucon/Arquivo pessoal

"Quando a novela começou, eu já frequentava a psicóloga, mas ainda não tinha começado a transição. Foi durante a novela que eu comecei a terapia hormonal. Eu sabia que haveria um personagem trans e pedi que a minha mãe visse a novela. Achei que, se assistisse, ela entenderia do assunto. E eu via muito de mim na história, em vários momentos.

A mãe e a prima faziam de tudo para que a Ivana usasse roupas femininas, maquiagem, assim como minha mãe e minha irmã fizeram comigo, me tratavam como uma boneca. A mãe do Ivan também sempre dizia que queria ter uma filha, era o que a minha mãe dizia, que queria ter duas filhas, e por isso me sentia culpado por não ser quem ela queria que eu fosse.

Eu não vi todos os capítulos por conta do trabalho, mas minha mãe acompanhava e teve várias situações em que ela me mandou mensagem contando que tinha se identificado, às vezes até rindo da situação. A faixa nos seios, por exemplo, que a Ivana usava, eu tive uma fase de usar também, viver todo aquele desconforto.

Quando minha mãe viu aquilo, ela me escreveu na hora. Para ela, ver essas cenas ajudavam a normalizar o meu processo de transição. Ela estava se adaptando àquilo e, com a novela, se reconhecia, me reconhecia e via de forma mais concreta o meu sofrimento.

A Ivana vai muito à praia, mas não gosta de tirar a camiseta, usar biquíni. Eu também não gostava de tirar a roupa, e quando ia à praia ficava de top e camiseta, mas tinha uma pressão para usar biquíni. Tem uma outra cena em que o Ivan fica de frente ao espelho se questionando se tem algo errado, quem ele é de verdade, sofrendo diante do próprio corpo. Eu vivi isso. É muito chocante ver uma novela reproduzir com muita semelhança uma coisa que você viveu. Era tão real que parecia estar reproduzindo a minha vida.

Eu só contei para o meu pai, que é separado da minha mãe, depois que eu comecei a transição hormonal. Mandei mensagem para ele, perguntei se estava vendo a novela, se sabia do personagem. Eu falei 'tá vendo o Ivan? É exatamente isso que acontece comigo, é exatamente como eu me sinto'.

Expliquei que meu físico ia mudar, minha voz também, e disse: 'Se você quiser entender, continua assistindo à novela e vê o que acontece com o personagem'. Ele ouviu, me disse que talvez não entendesse de primeira, mas que eu seria sempre o filho dele — e falou filho assim, no masculino. O mesmo aconteceu no meu trabalho: quando pedi para passar pela psicóloga da PM, um superior me perguntou se eu estava passando pelo que a novela mostrava, e eu disse que sim.

Acredito que o preconceito vem de pessoas que não conhecem, não entendem, e a novela ajuda a mostrar que a gente é humano, que em sentimento e que tem direito de ser feliz dentro do próprio corpo, mesmo que esse corpo tenha que passar por algumas mudanças".

"Consegui entender quem eu era: sou transgênero'"

Depois de se casar, ter uma filha e se divorciar sem entender muito bem o motivo da separação, Ana Carolina Apocalypse passou pela transição de gênero — aos 59 anos. Ela conta que sempre se sentiu uma menina, mas foi perto de completar seis décadas de vida, quando "A Força do Querer" foi transmitida pela primeira vez, que ela entendeu que não era "nem travesti, nem viado", palavras que conhecia até então, mas uma mulher trans.

Apocalypse 1 - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Apocalypse 2 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

"Desde pequena eu me via como menina, e escuto as pessoas falando "ah, depois de velho virou gay, virou viado". Eu nasci em 1958 e nos anos 1970, quando era mais mocinha, tinha que fazer o papel de menino, me vestir como menino. Mas eu simpatizava com os meninos, gostava de beijar, namorar. Até que me casei com uma mulher, tive uma filha e, quando me divorciei, não sabia muito bem o motivo do meu divórcio, mas não conseguia fazer o papel de marido exemplar. Procurei ajuda de uma psiquiatra que me orientou, mas eu nem sabia o que significava ser transexual.

É aí que entra 'A Força do Querer'. Nessa época, de 2016 para 2017, comecei a assistir à novela e entender do que se tratava.

Enquanto a personagem da Carol Duarte, a Ivana, que se identificava como Ivan, faz mastectomia e sonha em poder nadar sem camiseta na praia, eu sentia o oposto, sentia falta dos seios que eu não tinha.

Ela tinha repugnância de se ver com seios, eu tinha repugnância da ausência deles e me perguntava 'onde estão meus seios?". Eu consegui entender quem eu era e falar "caramba, eu sou transgênero'.

A vida inteira eu não me enxergava como travesti, nem como viado, que eram as palavras que eu conhecia. O que tinha dentro de mim era uma mulher presa num corpo masculino. Eu não sabia como me libertar, e a novela me passou esse conhecimento. Eu fui começando a entrar nesse universo, mas ainda tinha medo, porque sempre fui muito reprimida. Mas depois que a gente dá um pequeno passo, que no meu caso foi sair usando vestido, a coisa se torna natural.

Quando eu conto isso, as pessoas pensam 'ah, a novela fez a Ana virar gay'. Não. Eu me sinto menina desde que eu nasci, mas como nasci em 1958, não tinha informação nenhuma. Em 2017 as pessoas já conheciam o termo. Quem nasceu em 2000 e era adolescente na época pensou 'que legal, vai ter um homem trans na novela'. Eu nem sabia o que era isso."

"Eu me sentia perdido, confuso, tinha atos inconsequentes"

Nathan Ribeiro de Azevedo, 31, é formado em psicologia e, por isso, conhecia na teoria termos como "transexual" e "identidade de gênero". Mesmo assim, foi só diante das cenas de Carol Duarte rejeitando o próprio corpo na trama global que ele entendeu que essas palavras que aprendeu na graduação diziam respeito à sua vida fora das salas de aula.

Nathan 1 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Nathan 2 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu não sabia que era trans, mas me sentia muito tocado com as cenas da Ivana, aquilo mexia muito comigo. Mas mexia de uma forma que nada nunca tinha mexido antes. Eu me identificava com aquilo mesmo sem saber, me via através da Ivana, principalmente com os sentimentos em relação ao próprio corpo. Eu vivi isso, de uma forma bem menos agressiva — a novela mostra ela socando os peitos, por exemplo — mas o sentimento de que aquele corpo não me pertencia era o mesmo.

A novela foi o que me abriu os olhos. Antes disso eu era uma menina, mas sempre me senti diferente, nunca me senti normal. Não tinha nenhum tipo de vaidade, não gostava do meu corpo, nunca me enxerguei, eu me olhava no espelho e não reconhecia a pessoa que eu era. Eu me vi representado nas frustrações, no medo da família não aceitar.

A partir daí, tudo começou a se encaixar. E o primeiro passo foi procurar uma terapia para entender o que estava acontecendo comigo.

A novela trouxe essa visibilidade, que é muito importante, até porque é comum que uma pessoa trans, antes de entender que é trans, pense que é gay ou lésbica, e são coisas diferentes. A novela traz esse conhecimento.

Eu sou formado em psicologia, então a parte teórica eu sabia, mas nunca tinha me encaixado nessa situação. Eu nunca tinha entrado no assunto, acho que não estava preparado psicologicamente para lidar com aquilo.

Antes da novela eu me sentia muito perdido, muito confuso, tinha atos inconsequentes. Antes de entender, a gente não vive, só existe, sobrevive do jeito que dá, empurrando com a barriga. Eu não era feliz. Depois que começou a transição, eu comecei a me enxergar de verdade."

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