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"Após uma bariátrica, perdi o movimento das pernas e passei anos sem andar"

Raquel Guimarães passou quase cinco anos sem andar - Acervo pessoal
Raquel Guimarães passou quase cinco anos sem andar Imagem: Acervo pessoal

Ana Bardella

De Universa

29/09/2020 04h00

Quando estava com apenas 20 anos e pesando 120 kg, a carioca Raquel Guimarães se submeteu a uma cirurgia bariátrica. Cheia de expectativas sobre como seria sua vida dali para frente, ela assistiu ao sonho se tornar um pesadelo. Após um mês do procedimento, começou a ter câimbras e formigamento nas pernas. Pouco tempo depois, tentou se levantar da cama e caiu no chão. Foi hospitalizada, ficou um mês sob cuidados intensivos e, quando voltou para casa, não conseguia mais fazer movimentos simples, como o de levar um copo ou talher até a boca. Hoje, após quase cinco anos, duas cirurgias reparatórias e incontáveis sessões de fisioterapia, a jovem, que não se adaptou à muleta, ainda precisa de auxílio para conseguir se locomover.

Raquel e sua família entraram com um processo contra o médico e contra o hospital onde realizou a bariátrica, alegando negligência por parte de ambos. Segundo ela, uma sequência de erros teriam sido cometidos, que levaram às complicações. Um deles teria sido a falta de orientação sobre a necessidade de suplementação de vitaminas, o que teria ocasionado a maior parte das suas complicações neurológicas. Hoje, aos 26 anos, após ter contrariado a opinião de sete ortopedistas que garantiram que ela não voltaria a andar, Raquel conta sua história:

"Achei que mudaria de vida"

"A obesidade me acompanhava desde criança. Quando cheguei a adolescência, comecei a ganhar ainda mais peso. Naquela época, tinha poucas referências na internet e na televisão de mulheres gordas em quem pudesse me inspirar. Eu era infeliz com meu corpo: não gostava de ir à praia e, se chegava a ir, permanecia o tempo todo de blusa larga e shorts de cintura alta. Comprar roupas também era um problema, porque tinha preconceito com as lojas de tamanho plus size. Não ia de jeito nenhum. Eu queria poder comprar nas mesmas que as minhas amigas iam e acabava levando para casa sempre a peça que cabia em mim, nunca a que era realmente do meu gosto.

Eu sofria oscilações no peso porque fazia acompanhamento com um personal trainer e uma nutricionista, então, em alguns períodos conseguia emagrecer. No entanto, aos 20 anos, machuquei o tornozelo. Parei com a academia e voltei a engordar. Quando cheguei a 120 kg, comecei a conversar com meus pais sobre a possibilidade de fazer uma cirurgia bariátrica. Uma conhecida minha tinha passado pelo procedimento e relatava o quanto sua vida tinha mudado para melhor. Fiz pesquisas na internet e conversei sobre o assunto com uma nutricionista, que me indicou um médico. Tudo caminhou bem e decidimos marcar a data da minha cirurgia".

"Fui levantar da cama e caí"

Minhas expectativas para o procedimento eram as maiores possíveis. Fui animada para o centro cirúrgico e tive um pós operatório relativamente tranquilo: só podia me alimentar de água, suco, gelatina e sopa batida. No entanto, com o passar dos dias, comecei a estranhar o fato de que estava perdendo peso muito rapidamente. Não sabia se realmente funcionava assim, mas ao final do primeiro mês já estava com menos 20 kg. Além disso, após esses primeiros 30 dias, comecei a apresentar câimbras e formigamentos nas pernas. Minha memória também começou a falhar, e repetia as mesmas coisas sem perceber ao conversar com a minha mãe.

Minhas queixas não receberam a devida importância e, em casa, piorei. Um dia, fui tentar levantar da cama e caí. A partir de então, não consegui mais andar: fui levada ao hospital e passei um mês na CTI. Meu cabelo caiu em grandes quantidades e fiquei praticamente careca. Minha autoestima, que já não era boa, foi para o chão. As poucas vezes que conseguia me olhar no espelho, sentia vontade de chorar, mas não conseguia, de tão fraca que estava. Não sabia mais como segurar um copo ou levar um talher à boca".

"Os médicos diziam que eu não voltaria a andar"

"Aos poucos, com diversas e cansativas sessões de fisioterapia, recuperei parte dos movimentos. Consegui esticar as pernas, mas sentia como se elas estivessem pesadas demais para que eu conseguisse andar. Então começou a minha saga com os ortopedistas. Os sete primeiros com quem me consultei garantiram que a condição era irreversível. Mas eu nunca tomei essa afirmação como verdadeira. Sempre tive a certeza, dentro de mim, de que retomaria com os movimentos. Até que cheguei ao oitavo médico, especialista em joelhos, que não desistiu de mim. Ele me disse que meu caso era cirúrgico.

Fui tratada por uma equipe multidisciplinar e, pela primeira vez, me senti acolhida. Então me informaram de que eu iria colocar um fixador externo nas duas pernas. Eu, que estava fazendo faculdade de fisioterapia, fiquei com medo porque já havia atendido uma paciente que usava o fixador e sentia muitas dores. Mas depois de algumas conversas, entendi que seria necessário. Operei uma perna de cada vez, com uma diferença de um ano entre as cirurgias. Continuei frequentando as aulas, na cadeira de rodas. Enquanto isso, seguia firme com a fisioterapia e pedi aos meus pais que não adaptassem nada na casa, porque queria ter incentivos para continuar progredindo. Não queria me acomodar. Finalmente, neste ano, me senti segura o suficiente para devolver a cadeira de rodas.

Hoje, por não ter me adaptado bem à muleta, peço o braço de alguém para me apoiar sempre que preciso sair de casa. Meu psicológico também ficou abalado: desenvolvi crises de pânico e depressão no período em que fiquei no hospital e por isso tenho problemas para dormir. No entanto, estou feliz com os resultados e comemoro cada uma das minhas novas conquistas".

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