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Leandra Leal faz documentário afetivo com mãe, Ângela, em plena quarentena

As atrizes Ângela e Leandra Leal - Guilherme Burgos/Divulgação
As atrizes Ângela e Leandra Leal Imagem: Guilherme Burgos/Divulgação

Luciana Ackermann

Colaboração para Universa

20/09/2020 04h00

Durante três meses do período da pandemia as atrizes Ângela Leal, 73 anos, e Leandra Leal, 38, mãe e filha, ficaram isoladas, em Búzios, onde juntas mergulharam no ofício de fazer arte e em suas relações para a realização de um documentário longa-metragem autoral e intimista, com o sugestivo título "Nada a Fazer".

Era um sonho antigo de Leandra contracenar com a mãe, que decidiu se aposentar da carreira de atriz devido a problemas de saúde. Ainda no Rio, Leandra falou sobre esse desejo com o namorado, Guilherme Burgos, e os dois criaram o argumento do filme, em que mãe e filha tentam montar a peça "Esperando Godot", de Samuel Beckett, sem saber quando poderão levá-la aos palcos.

Burgos conseguiu uma câmera e, com todos os cuidados necessários, o casal viajou ao encontro de Ângela. "Essa situação extrema me provocou a realizar essa ideia. Às vezes, a condição adversa favorece a força criadora", diz Leandra em entrevista com a mãe para Universa. No filme, em fase de montagem e capação de recursos, dramas familiares e questões existenciais misturam-se ao teatro do absurdo de Beckett.

A atriz lembra que "o começo da pandemia foi muito assustador para todos, uma mistura de medo, insegurança e tristeza", mas o desejo de "sair do estado de espanto e paralisia" falou mais alto.

"Quando decidi realizar o documentário, consegui dar o primeiro passo para elaborar o que estava vivendo através da investigação de uma das minhas principais relações de afeto. Ouvi outras pessoas relatando experiências parecidas, uma vontade de voltar o olhar para a sua família, resolver questões e aproveitar o máximo da vida com amor", diz a atriz, produtora e diretora.

"A finitude pode provocar um questionamento positivo sobre o que estamos fazendo com a nossa vida. Esse processo me encheu da coragem necessária para enfrentar os desafios desse período."

Sem a menor ideia da dimensão do projeto de Leandra, para Ângela, estar com a filha já seria algo maravilhoso. A correria da vida antes da pandemia não permitia o convívio mais próximo e prolongado como gostariam. Sempre algo meio rápido, como os almoços de domingo.

"O ficar juntas numa situação dessas foi muito forte porque a gente rediscute a vida e sente um valor tão grande na outra pessoa. De poder estar juntas e criando. Foi tão intensa a aproximação com minha neta [Julia, de seis anos] e minha filha que eu só posso dizer que foi uma benção diante de tanta tristeza e tanto sofrimento que víamos", diz Ângela.

Leais em cena

Leandra - No início, a minha mãe resistiu, disse que não conseguiria, estava com a cabeça cheia por causa do Rival Refit [teatro da família que completa 86 anos], mas aos poucos foi entendendo que a própria crise do Rival entraria no filme, que podíamos, através do nosso encontro como atrizes, resolver questões do nosso teatro. Era um grande sonho meu trabalhar com ela, criar junto, foi emocionante. Eu cresci vendo minha mãe atuar, passando textos, minha mãe é uma grande atriz. Depois do câncer [Ângela passou por tratamento para um câncer no fígado], ela dizia que estava aposentada dos palcos. Acredito que esse filme mostrou pra ela que ainda tem muito para viver e criar. Eu, pessoalmente, acredito que o artista não se aposenta.

Ângela - Na minha cabeça era para fazer um filmete, uma coisa familiar, falando bobagem, com uma câmera de celular. Fiquei muito espantada quando Leandra chegou com aparato para fazer um filme de verdade, um equipamento grandioso, que o cinema pede. Mas, eu gostei bastante, eu não pensava em retornar à carreira, que considero ter encerrado muito bem quando fiz "Dona Xepa" [novela da Record, exibida em 2013. Tive grandes percalços de doenças e acho que não deveria mais atuar porque um ator tem que estar totalmente pronto: corpo, voz, fôlego... E não me vejo mais assim. Eu me vejo com muita sede de vida, mas não pronta como gostaria de estar para poder atuar com tudo que eu tenho para dar. Não pretendo voltar, não. Só se for uma coisa muito especial e que eu me sinta pronta para fazer. Se eu achar que vou ter alguma dificuldade para me enquadrar num personagem, num projeto, eu não farei.

Ajuda na quarentena

Ângela Leal - Vou confessar, primeiramente, eu fiz o filme mais para fazer a vontade da filha. Mas, depois, a filmagem foi rendendo e fui gostando, porque era tão encantador contracenar com a minha filha, ter esse projeto junto com ela, com a minha neta participando. Fiquei inebriada e isso ajudou bastante a passar um pedaço dessa quarentena.

Leandra Leal - Foi um cinema feito em família, eu e minha mãe atuando, o Guilherme, meu namorado, filmando. Foi muito trabalho, estávamos no meio da pandemia, minha filha em casa, escola online... O tempo de filmagem por dia chegava a no máximo quatro horas. Algo muito saudável e divertido também. Encontramos uma forma de criar e continuar ativos, de nos conhecermos mais e eternizarmos esse momento.

O convívio prolongado

Leandra Leal - Reconhecer onde estamos agora, minha mãe com 73 e eu com 38, foi um processo intenso e bonito de paciência, entrega e confiança.

Ângela Leal - A mãe, a filha e a neta convivendo no dia a dia... Se descobrem muitas coisas, muitas qualidades, muitos defeitos, mas acima de tudo, se descobre o amor, um amor enorme, estupendamente grande, se é que existe essa palavra [risos].

A força das Leais

Ângela - São três mulheres. Acho bonito. Eu me lembro de que a expectativa da minha família era de um menino. Quando soube que era menina, saí do médico, fui tomar um banho e olhei os meus olhos no espelho e de alguma maneira acho que me comuniquei com ela, porque eu entendi o que era a continuidade. A continuidade de amor, a continuidade de laços, a continuidade de posicionamento... E penso que a Julia já nasceu pronta. É cheia de atitude, sabe o que quer, é muito gregária, está sempre ajudando, mas também é braba pra danar. Acho que a força das mulheres Leais é a força do trabalho. É a força de acreditar no trabalho não só como meio de ganhar a vida, mas como um meio de vida, de se manter viva. Através do trabalho, mostrar seus posicionamentos, tentar ser exemplo, tentar de alguma maneira passar coisas boas para as pessoas. Eu acho que essa é a saga das Leais, e acho que essa saga já está no nome, né? Leal.

Lição de resistência

Leandra - Depois do filme com a minha mãe, eu o Guilherme fizemos outro documentário, "Por Trás da Máscara", que acompanha os profissionais de saúde que trabalham no hospital de campanha Lagoa-Barra, no Rio. Foi uma segunda etapa da pandemia pra mim. Depois de olhar para dentro com o "Nada a Fazer", fui fazer um filme na trincheira da guerra que estamos vivendo, testemunhando e registrando o que está acontecendo. Então, agora eu quero terminar esses dois filmes que fiz nesse período, compartilhar com o mundo o que eu aprendi, e espero que, em breve, possa voltar a trabalhar como atriz.

Ângela - Minha vida no teatro Rival contribui muito para eu matar a sede da atriz, a cultura abrange tudo isso. É bom por exemplo, lançar um cantor, vê-lo crescer e saber que os primeiros passos dele foram dados no Rival. Eu luto pela cultura, principalmente pela cultura popular, pela cultura brasileira. Como é que se faz com um negócio que, de repente, não tem mais receita e você olha e tem quase 40 funcionários diretos, sem contar os indiretos? Por isso, resolvemos entrar no mundo das lives, do qual acho que não vamos mais sair, pois de alguma maneira contribui para a divulgação da nossa cultura no mundo. Futuramente, vai ter que ter o show presencial e live. Cuidamos de todas as necessidades para que a casa fique em total segurança para receber técnicos, músicos e artistas. Temos hoje um patrocinador. Somos privilegiados. Não é à toa que o Rival tem 86 anos. Pra mim, é quase um espaço mágico porque sobreviveu a tantas coisas.


Aprendizados da pandemia

Ângela - Sinceramente ainda não consigo avaliar o que aprendi nesse momento. Eu sei o que senti. E senti muito, muito um pouquinho de tudo, um tsunami de emoções. Agora, o que isso me trouxe de aprendizado para que eu possa aplicar na vida, ainda não sei definir. Estou isolada, mas refletindo muito sobre o que está acontecendo, vendo o quanto nós contribuímos para que tudo isso esteja acontecendo. Agora, é hora da reviravolta, de buscarmos uma nova forma de vida. Nós fazemos parte da Terra, nós não somos donos da Terra. Talvez esse seja o maior ensinamento que eu consiga perceber dentro desse tsunami.

Leandra - Muitas coisas, mas acho que talvez a maior lição seja a importância dos laços afetivos. Viver o presente na companhia de quem se ama e fazendo o que se gosta é essencial.

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