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Sorte e misoginia: por que mulheres viraram símbolo de protestos na Belarus

Maria Kalesnikava - Sergei Gapon/AFP
Maria Kalesnikava Imagem: Sergei Gapon/AFP

Cláudia de Castro Lima

Colaboração para Universa

09/09/2020 04h00

Há um mês, o governo da Belarus anunciou que Aleksandr Lukachenko foi reeleito para seu sexto mandato como presidente com incríveis 80% dos votos. Desde então, o mundo assiste com preocupação à brutalidade policial contra a onda de protestos populares antiditadura que vem deixando as ruas da capital, Minsk, apinhadas com milhares de pessoas quase diariamente.

Esse capítulo crítico da história da ex-república soviética tem um comando feminino. Vestindo branco e levando flores, elas pedem a saída do presidente após as eleições, que alegam terem sido fraudadas, e exigem também um pleito livre e justo, além do fim da repressão.

"Acidente de sorte"

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31.jul.2020 - Svetlana Tikhanovskaya em campanha para a Presidência em Minsk, em Belarus
Imagem: 31.jul.2020 - Sergei Gabon/AFP

"O rosto feminino dos protestos é um acidente de sorte", afirma a professora assistente de ciência política do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Volha Charnysh. Segundo ela, antes das eleições na Belarus, havia candidatos promissores da oposição: Viktar Babaryka, Sergei Tikhanovski e Valery Tsepkalo. Todos homens.

"No entanto, o regime bielorrusso prendeu Tikhanovski e Babaryka e se recusou a registrar os três como candidatos ao cargo de presidente", afirma Volha. "Em um gesto ousado, Svetlana Tikhanovskaia, esposa de Sergei Tikhanovski, decidiu se registrar no lugar de seu marido. Seu registro foi aprovado, o que lhe permitiu realizar comícios legais em massa antes das eleições."

Ela ganhou o reforço nesses comícios de Veronika Tsepkalo, mulher de Valery Tsepkalo, que havia fugido do país e levado os filhos, e pela coordenadora de campanha de Viktar Babaryka. "De repente, a oposição bielorrussa se uniu em torno da candidatura de Svetlana", conta Volha.

A liderança feminina foi possível, segundo a especialista do MIT, devido à "tendência do presidente bielorrusso de subestimar as mulheres". "Aleksandr Lukachenko é conhecido por sua política misógina e não esperava que Svetlana, uma professora de inglês que se tornou dona de casa, fosse uma concorrente séria. Ele esperava poder reivindicar seus 80% como uma vitória esmagadora e que as pessoas aceitariam esse resultado."


Candidata pouco convencional

Para a professora assistente do MIT, Svetlana pode ter unido a oposição e conseguido tamanho apoio justamente porque "era uma mulher e uma candidata pouco convencional". "Ela prometeu novas eleições se vencesse, o que a tornava palatável para o resto da oposição", afirma Volha.

"Ela também afetou os bielorrussos apolíticos comuns ao afirmar que preferia cozinhar para sua família a concorrer às eleições, mas que tomou essa posição após a prisão de seu marido porque estava preocupada com o futuro de seus filhos", diz Volha. "Ela fez o 'papel da mulher', por assim dizer, o que funcionou bem no ambiente bielorrusso."

Quem comanda os protestos?

belarus - Dimitar Dilkoff/AFP - Dimitar Dilkoff/AFP
Protestos eclodem em Belarus em dia de reeleição de líder
Imagem: Dimitar Dilkoff/AFP

À frente da organização dos protestos está a principal organização a ser observada no momento: o Conselho de Coordenação, formado pela oposição. "O conselho inclui Svetlana Aleksiévitch, uma escritora que recentemente ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, Pavel Latushko, ex-ministro da Cultura da Belarus, e muitos outros", afirma a professora.

O Conselho de Coordenação tem um milhão de apoiadores, além do corpo diretivo principal. "Os protestos também são coordenados pelo canal do Telegram NEXTA Live, que hoje conta com 2,15 milhões de seguidores. O fundador do canal é Stepan Svetlov, de 22 anos, um bielorrusso que mora em Varsóvia", diz Volha.

"As principais demandas dos manifestantes são a realização de novas eleições livres e justas e a libertação de presos políticos. O conselho está atualmente tentando levar Lukachenko à mesa de negociações."

As vantagens de um protesto feminino

Para Volha Charnysh, a participação das mulheres na linha de frente das manifestações tem vantagens estratégicas. "Ela faz com que a oposição ao regime pareça mais pacífica e ordeira, especialmente em um país com normas tradicionais de gênero como a Belarus", explica.

O ativismo feminino também é um gesto simbólico poderoso, ampliado pela decisão de usar branco e carregar flores.

"Para as forças de segurança pró-regime, é muito mais prejudicial politicamente atacar mulheres em marcha do que atacar homens em marcha, o que os torna menos capazes de conter protestos", diz a especialista em ciência política. "Para a propaganda estatal, é mais difícil afirmar que os manifestantes são hooligans quando são mulheres."

Tropas policiais e homens mascarados

Isso não impediu, no entanto, que as forças repressoras do governo agissem duramente contra os protestos, que já duram um mês. Tropas do Exército, policiais da Omon (tropa de elite) e homens mascarados, que não carregam insígnia alguma, bloqueiam as marchas, espancam manifestantes e os detêm.

Até agora, quase 7.000 pessoas foram presas, pelo menos cinco manifestantes foram mortos e há 450 casos de tortura documentados, segundo a relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos na Belarus, Anaïs Marin.

O recrudescimento do regime diante das manifestações populares fez Svletana Tikhanovskaia e outras lideranças opositoras ao regime se exilarem. A ex-candidata à presidência seguiu para a Lituânia dias após as eleições.

Veronika Tsepkalo também foi embora do país. Ela tinha ido para a Rússia ainda antes das eleições, encontrar-se com o marido e os filhos. Hoje, a família acompanha o que acontece em seu país do exílio na Polônia.

O estranho caso de Maria Kalesnikava

kolesnikava - VASILY FEDOSENKO/REUTERS - VASILY FEDOSENKO/REUTERS
Maria Kalesnikava, líder da oposição ao governo de Aleksandr Lukashenko, em Belarus
Imagem: VASILY FEDOSENKO/REUTERS

Maria Kalesnikava, membro do Conselho de Coordenação, organismo criado pela oposição para preparar terreno para a transição política no país, era uma das poucas opositoras que permaneciam na Belarus. Testemunhas disseram que ela tinha sido levada na segunda-feira (7) por homens em um furgão, que a agarraram na rua, e desaparecera. O governo negava que estivesse com ela.

Apenas na terça-feira (8) o paradeiro de Maria foi desvendado. Um agente de fronteira informou que ela havia sido detida pelas autoridades da Belarus perto da divisa com a Ucrânia. Segundo um ministro ucraniano, a prisão teria acontecido após Maria conseguir frustrar uma tentativa de expulsá-la do país.

A agência de notícias Interfax Ukraine informou que a ativista rasgou seu passaporte de propósito para que as autoridades de fronteira ucranianas não pudessem lhe dar passagem. A versão do governo é outra: Maria teria sido presa quando ela própria tentava deixar o país irregularmente.

Os opositores do regime de Lukachenko e a família de Maria Kalesnikava não acreditam na versão oficial. Segundo eles, a ativista disse que nunca deixaria a Belarus, independentemente do que acontecesse com ela.

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