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Crianças negras dizem por que são fãs do Pantera Negra: 'parece a gente'

Bento, de 3 anos, é fã do Pantera Negra - Arquivo pessoal/Claudiane Gomes
Bento, de 3 anos, é fã do Pantera Negra Imagem: Arquivo pessoal/Claudiane Gomes

Anelise Gonçalves

Colaboração para o UOL, do Rio

02/09/2020 04h00Atualizada em 02/09/2020 10h14

Superpoderes, enredo fantástico e um mundo em que magia e alta tecnologia se misturam. Poderia ser só mais um filme de super-herói, se não fosse por um detalhe: o protagonista é negro. A notícia sobre a morte aos 43 anos de Chadwick Boseman, ator que deu vida a T'Challa, rei de Wakanda e Pantera Negra, atingiu em cheio o público mirim.

Fã do personagem, Aisha, 6, dorme ao lado da máscara do Pantera Negra e olha todas as noites pela janela do quarto na esperança de ver nave do super-herói. Isaac, de mesma idade, pediu a sua madrinha que o herói fosse a temática da festa de seu aniversário. Já os irmãos Bento, 3, e Davi, 7, disparam: "Gostamos do Pantera Negra porque ele se parece com a gente".

Mãe da dupla, a pedagoga negra Claudiane Gomes, 35, diz que a luta antirracista sempre foi importante para ela. Quando os meninos nasceram, ela usou livros de literatura infantil que tratassem de histórias com personagens parecidos com os filhos, para ajudar a construir a identidade deles. Neste processo, o lançamento do filme foi fundamental.

Lançado em 2018, Pantera Negra levou uma onda de jovens negros aos cinemas. Com bilheteria de US$ 1,3 bilhão, foi o longa de maior arrecadação daquele ano e até hoje está na lista das 15 produções mais rentáveis da história.

Na época, Bento ainda era muito novo para entender, mas fiquei muito feliz porque o Davi põde finalmente dizer 'Olha, mãe, esse herói se parece comigo'. Quem sempre pode escolher o herói que quer ser não entende a relação dos pretos com Pantera Negra. É sobre se ver e se reconhecer
Claudiane Gomes, pedagoga e mãe de Bento e Davi

Ela afirma que as crianças têm necessidade de se verem nas obras que consomem, o que é fundamental para o crescimento. Os irmãos, que comentam suas leituras em uma página no Instagram seguida pelo humorista Fábio Porchat, descrevem as qualidades e a importância de T'Challa para eles.

Eu gosto do Pantera Negra porque a aparência dele é muito bonita e ele também é forte e ágil. Todo mundo no filme é parecido comigo e com o meu irmão. É bom ter um herói assim
Davi, 7

Durante a conversa com Universa, Bento avisa: "Eu sou o Pantera Negra".

A mãe conta ainda que o mais velho escolheu um papel de parede com heróis negros para seu quarto. Além do Pantera Negra, estão lá Tempestade, dos X-Men, Super-Choque e Lanterna Verde. Para este último, a mãe faz uma ressalva: trata-se do herói do desenho, não o do filme. "Ele não entendeu por que no cinema o Lanterna Verde é branco."

pantera - Arquivo pessoal/Claudiane Gomes - Arquivo pessoal/Claudiane Gomes
Os irmãos Davi, de 7 anos, e Bento, de 3 anos, dormem em quarto com papel de parede estampado apenas com heróis negros
Imagem: Arquivo pessoal/Claudiane Gomes

Assim como Claudiane, o engenheiro de software Samuel Cavalieri, 30, também investe em literatura infantil negra para fortalecer a identidade da filha, Aisha. Vivendo em Lisboa por causa do trabalho, ele diz ter sempre buscado "construir uma representatividade de acordo com a fase dela".

Depois dos livros, começou a mostrar a ela filmes de ficção, caso de Pantera Negra, que caiu no gosto da menina. "Quando estreou, ela assistiu, mas era bem nova para entender. Agora que ela viu novamente, não consegue parar."

pantera - Arquivo Pessoal/Samuel Cavalieri - Arquivo Pessoal/Samuel Cavalieri
Aisha, de 6 anos, gosta de Pantera Negra, mas é fascinada por Shuri, irmã cientista do Rei de Wakanda
Imagem: Arquivo Pessoal/Samuel Cavalieri

Cavalieri conta que Aisha se identificou muito com Shuri, a princesa de Wakanda. O fascínio da menina pela irmã cientista do rei T'challa nasceu porque ela mesma gosta de construir e inventar coisas.

"Ela brinca com a coleção de Lego e está tentando reproduzir a nave do filme. Ela também pediu para que trançássemos seu cabelo como o da Shuri e diz que quer ser como a cientista quando crescer", diz o pai.

Com sotaque lusitano, a pequena Aisha justifica sua adoração.

A Shuri é muito giro [legal]. Ela é incrível porque mexe em todos os computadores Aisha

Madrinha de Isaac, a educadora popular Juliana Garrido, 20, acredita que ver um rei negro na televisão faz as crianças se enxergarem e se identificarem. Isso, acrescenta, faz com que elas pensem que podem "salvar o dia". "A representatividade muda muitas coisas na vida de uma pessoa negra. Estimula a coragem e a força."

Representatividade importa

Quando Pantera Negra foi lançado, porém, nem todas as crianças que poderiam se ver nas telonas tiveram a oportunidade de assistir ao filme nos cinemas. Levantamento do IBGE em 2018 mostrou que o acesso ao cinema ainda é muito restrito. Naquele ano, quase 40% da população morava em municípios sem, ao menos, um cinema. Dentre essas, 44% eram pretas ou pardas, ao passo que 34,8% eram brancas.

pantera - Arquivo Pessoal/Juliana Garrido - Arquivo Pessoal/Juliana Garrido
Isaac pediu que o tema de sua festa fosse o Pantera Negra
Imagem: Arquivo Pessoal/Juliana Garrido

Remando contra a maré estatística, o empresário Rafael Vitorino, 31, levou 40 crianças de favelas na cidade de Duque de Caxias, Baixada Fluminense do Rio, para assistir o filme em março de 2018.

"A ideia surgiu quando vi uma ação feita nos Estados Unidos em que várias crianças foram levadas ao cinema pela primeira vez. Então pensei: por que não fazer o mesmo na comunidade onde moro?. Com o apoio de dois amigos, consegui arrecadações, até mesmo de outro estado, e levei os baixinhos", diz.

Dono de uma loja virtual de bijuteria, ele explica que teve de lidar com a resistência de alguns pais e outros até chegaram a proibir. Ainda assim, ficou muito satisfeito e até se emociona ao relembrar da experiência.

Muitas delas nunca tinham ido ao cinema ou sequer entrado em um shopping. Na minha época, não havia um filme como esse para que eu me sentisse representado. Fico muito feliz que haja essa referência
Rafael Vitorino, empresário

Apesar da esperança trazida por produções estrangeiras como Pantera Negra, no cinema nacional a representatividade ainda é distante. De acordo com o Informe Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016, publicado da Agência Nacional do Cinema (Ancine), atores negros correspondiam a apenas a 13,3% dos elencos dos 142 longas-metragens daquele ano

Dos 97 filmes de ficção, 44 documentários e uma animação, 42,2% não tinham sequer um ator ou atriz negro. Na direção, 97,2% eram pessoas brancas. Em 2016, segundo a Ancine, nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

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