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Viúva de Marielle, Monica Benicio será candidata a vereadora: A dor me move

Monica Benicio é pré-candidata à vereadora do Rio - Camila Fontenele/Divulgação
Monica Benicio é pré-candidata à vereadora do Rio Imagem: Camila Fontenele/Divulgação

Luiza Souto

De Universa

31/08/2020 04h00

Dois anos e cinco meses após o assassinato de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, Monica Benicio, que foi companheira da vereadora, decidiu continuar seu legado e levar as próprias ideias para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Vai ser candidata a vereadora nas eleições de novembro.

"Acho importante que essa percepção de legado de Marielle seja colocada como algo coletivo. A Marielle se torna símbolo de representatividade, de resistência e de esperança porque mulheres e a sociedade se aliaram às pautas dela", diz a arquiteta de 34 anos, pré-candidata a vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, mesmo partido que elegeu Marielle.

Nascida no Complexo da Maré, na zona norte do Rio, Monica diz, em conversa com a reportagem de Universa, que não teme eventuais ameaças contra a sua vida e que sua candidatura também é uma afronta ao que chama de fascismo que ronda o cenário político atual. Ela, que tem medidas de proteção concedidas após pedido na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão vinculado à Organização dos Estados Americanos, afirma que o que a move, na verdade, é a dor. O pedido foi feito por meio de uma medida cautelar internacional para garantir sua integridade física, e seu descumprimento pode gerar sanções diplomáticas ao Brasil.

Sem ter pensado antes em entrar para a política institucional —ela só se filiou ao PSOL 300 dias após a execução de Marielle, segundo suas contas—, Monica indica que brigará na Câmara "de forma incisiva" contra o racismo, o discurso de ódio, o bolsonarismo, "e tudo que e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) representa". E também terá como uma de suas bandeiras reduzir a violência contra as mulheres.

O que a levou a se pré-candidatar como vereadora?

Confesso que essa foi uma virada de chave não desejada nem projetada por mim. Estou há dois anos e cinco meses num processo de luta, num luto muito duro, e pensava que não conseguiria avançar justamente por ficar o tempo inteiro revirando histórias e memórias, seja para pedir justiça, seja para não deixar o assunto morrer. Confesso que, no campo pessoal, não é uma tarefa fácil, porque tem muito gatilho. Mas fui conversando com algumas pessoas, e toda solidariedade veio me compondo. Eu me senti quase com a responsabilidade de assumir esse meu lugar. Já fazia o debate político desde sempre e fui percebendo o quão importante é a gente ter hoje corpos que sofrem opressões estruturais inseridos no debate político que expulsa os corpos como o que o da Marielle simbolizava.

Quais propostas quer levar para a Câmara Municipal do Rio?

A gente precisa falar da favela como cidade. Da violência contra as mulheres, contra a população LGBTQI. Minha relação propositiva para a cidade vai além da minha vida acadêmica. Ela vem da minha experiência enquanto mulher favelada. O principal projeto de qualquer pessoa que se torne parlamentar deve ser o de uma cidade inclusiva, para que todos os corpos possam experimentar de forma plena, segura e igualitária, para que as mulheres sejam tratadas com segurança. Que elas tenham acesso às creches, à saúde, à vida. Uma política que seja fundamental para reduzir a violência contra as mulheres, e isso e já era meu compromisso na militância.

E como se combate a violência contra a mulher?

É preciso romper com os marcadores estruturais, para fazer uma transformação na sociedade, que é profundamente racista, machista, lgbtifóbica. O próprio enfrentamento da violência tem que ir além do debate punitivista. A gente precisa criar uma política pública que trabalhe prevenção, conscientização, acolhimento para as mulheres, com acesso à renda. É uma pré-candidatura que vai brigar de forma incisiva contra o racismo, o discurso de ódio, o bolsonarismo, e tudo que ele representa. E, pra gente poder fazer essa disputa, precisa começar fazendo pelo campo municipal, discutir isso dentro da cidade.

Você continuará com o legado de Marielle?

É importante essa percepção do legado de Marielle ser colocada de forma coletiva. Ela se torna símbolo de representatividade e esperança porque mulheres e a sociedade se aliaram às pautas dela. Não aceitam a barbárie e estão lutando pela democracia. Ela tinha no seu corpo e história de vida todas as pautas que defendia: da mulher negra, da favela, que foi mãe jovem e estava em um relacionamento lésbico. Sou uma mulher branca, favelada, tenho as minhas questões, mas não falo desse lugar da mulher negra, que é uma pauta muito cara pra gente, por ser a mais vulnerável dentro da sociedade. E se a gente ocupar aquela Casa, a ideia é levar esse debate.

Além do que aconteceu com Marielle, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) recebeu ameaças contra a sua vida, e a pré-candidata à prefeitura e deputada estadual (PSOL-RJ) Renata Souza teve uma live invadida por hackers. Quais cuidados tem com a sua segurança?

Fiz modificações na rotina. Eu acho pouquíssimo provável que alguém consiga fazer alguma forma de violência contra mim que seja maior do que a que sofri. As pessoas que me cercam estão profundamente preocupadas com minha segurança. Não sou a principal delas. Tenho uma medida cautelar da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. É um instrumento internacional utilizado como ferramenta, para tomarmos devidas medidas de segurança. Obviamente estou sujeita a sofrer algum tipo de violência. Mas o pior que podia me acontecer ocorreu em 14 de março de 2018. E justamente para que não aconteça mais nada parecido, estou me colocando à disposição dessa luta que hoje, para mim, é muito maior que qualquer outra coisa.

Você tem medo?

Acho que o medo é legítimo e pode ser utilizado como forma de sobrevivência, avanço e transformação. Só não podemos permitir que ele nos paralise. Numa conversa com a [escritora mineira] Conceição Evaristo, ela me disse: "Você não tem que ter vergonha de dizer que a dor te move". Foi um momento terapêutico porque nunca tinha me dado conta disso, de que a dor me move. Vou precisar ter uma outra conversa com ela sobre o medo. A princípio, o único medo que tenho é a gente continuar do jeito que está e não conseguir fazer uma transformação efetiva.

Como enxerga os ataques às mulheres no campo político?

No mesmo ano em que Bolsonaro virou presidente, [as deputadas] Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro entraram na Alerj como três mulheres negras, junto com o cara que rasgou a placa da Marielle sendo mais votado [o deputado estadual pelo PSL Rodrigo Amorim foi eleito com 140 mil votos. Ele quebrou uma réplica de placa de rua no Rio de Janeiro onde estava escrito rua Marielle Franco]. Isso fala muito sobre o que é o Rio de Janeiro, sobre o que é a política brasileira. Só que as mulheres, diante da execução, da barbárie, resolveram dizer: "Chega, não seremos interrompidas", como a Marielle colocou em plenário. A gente tinha tudo para ter medo. E esse movimento do avanço do fascismo é uma resposta à nossa força de resistência, que está crescendo e se articulando. Obviamente isso gera preocupação no outro lado. Nada mais perigoso para o fascismo que o povo com esperança. E me colocar nessa disputa é uma resposta afrontosa a isso tudo.

Quando Marielle decidiu se candidatar a vereadora, você disse que não tinha gostado da ideia porque iria acabar com a vida dela. Você avaliou que sua vida também pode acabar?

Quando falamos sobre isso, eu disse que ela não teria tempo pra vida dela, de forma geral. E eu, como pessoa que a amava, estava dizendo que não. Mas, enquanto uma mulher carioca, ficava animada com a candidatura porque ela precisava estar naquele espaço, e a apoiaria na decisão dela. E foi o que fiz. Não tenho arrependimento. Embora tenha acabado de maneira trágica, o processo em si fez muito bem a ela. Ela gostava muito do que fazia. Tudo se transformava numa festa. Ela era muito solar. Foi um ano e três meses de um mandato que deveria ter durado quatro anos, mas que foi de muito trabalho em que ela cresceu muito, não só como figura política. A Marielle se transformou em outra mulher com relação ao corpo, à própria identidade. Foi muito bonito. A vida e a morte não foram em vão.

O Rio nunca teve tantas pré-candidaturas de mulheres para a prefeitura. São seis no total e, mesmo assim, pesquisas de intenções de voto colocam dois homens, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), na frente da disputa. Qual a sua análise desse cenário?

Acredito que a gente precisa, enquanto esquerda, furar a bolha. Quando a gente tem esse dois homens brancos na frente das pesquisas, a gente está falando que eles dialogam com uma cidade em que a gente não dialoga de forma plena. O Rio de Janeiro está profundamente contaminado pelas milícias. A gente tem um prefeito que não sabe guiar a cidade. Nesse sentido, é fundamental ver mais mulheres ocupando esses lugares na política. Porque aí a gente vai falar de representatividade e referências, e isso vai incentivar novas mulheres a se colocar à disposição de fazer política institucional.

Acha que estamos mais perto de desvendar o crime contra Marielle e Anderson?

Estou num país onde não precisa de provas, basta convicção. Minha convicção diz que, a cada dia que acordo, estamos mais perto de chegar a esse resultado, que é uma pequena parte do todo. O Estado brasileiro deve respostas sobre quem mandou matar Marielle e por que, não só à sociedade, mas ao mundo.

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