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Elas faliram: empreendedoras contam por que não resistiram à pandemia

Mijung Kim, do Nuna, que transformou o bar e restaurante em delivery antes de decidir fechar - Divulgação
Mijung Kim, do Nuna, que transformou o bar e restaurante em delivery antes de decidir fechar
Imagem: Divulgação

Lika Almeida

Colaboração para Universa

27/08/2020 04h00

Muito suor, muito trabalho e noites sem dormir. A pandemia tem sido assim para parte das 688 mil empreendedoras que tiveram que fechar definitivamente as portas de suas empresas desde março pelo país.

Dados do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) colhidos em julho mostram que 4% das mulheres empreendedoras decidiram fechar definitivamente seus negócios durante a crise. Outras 48% interromperam o funcionamento temporariamente, mas pretendem reabrir, e as demais afirmam não ter sofrido impacto ou conseguido mudar o formato de atendimento.

Nove em cada dez empreendedoras relatam que tiveram redução no faturamento mensal com a Covid-19 -e não foi uma queda pequena: 66%, em média. A pesquisa mostra ainda que as mulheres demitiram menos do que os homens e buscaram mais do que eles a venda pela internet como saída para a manutenção da empresa.

Encerrar um negócio é viver um luto

Luna - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Maria de Luna, que fechou sua loja dedicada a produtos infantis
Imagem: Arquivo Pessoal

Entre fraldas, roupinhas e cheirinho de bebê, Maria de Luna Bregantin vislumbrou em sua paixão pela maternidade uma chance de ter seu próprio negócio. Há dois anos, após abandonar a carreira de jornalista para dedicar mais tempo aos três filhos, investiu R$ 260 mil em sua franquia de roupas para bebês e crianças em um shopping da capital paulista. Apesar de não estar muito preparada para abrir uma empresa, alcançava um crescimento de 5% a 15% ao mês, até a chegada da pandemia.

"A ficha caiu quando tivemos a primeira retomada para abertura do comércio. Mesmo com aluguel, condomínio e despesas reduzidos, que fizeram os gastos caírem de R$ 12 mil para R$ 5.000, o shopping continuava vazio, ninguém tinha coragem para ir às compras, o dinheiro não entrou mais. Tive que demitir seis funcionárias", conta Maria.

Foi, então, que tentou vender seu estoque de 6.000 peças apenas por Whatsapp, para pessoas próximas, pois o contrato com a franquia não permite e-commerce, o que dificultou ainda mais o retorno do investimento nos produtos.

Após ver o faturamento despencar e os gastos voltarem ao patamar anterior, decidiu que era hora de fechar a loja.

A pergunta que eu me faço todos os dias é 'e agora?'. Por que não é só com a questão financeira ou material que tenho que lidar, mas a emocional. Há uma sensação de fracasso desesperadora, a gente vive um luto. Maria de Luna Bregantin

A questão financeira, claro, pesa. "Não vou recuperar nem metade do dinheiro que investi, além de ser mais burocrático e caro desmontar um negócio do que montá-lo", desabafa.

Ela não pensa mais em ter outro comércio. "O próximo passo é me adequar à nova situação e me reencontrar", diz. Enquanto lutava para manter seu negócio, Maria viu a necessidade de cortar os gastos em casa, a começar pela redução de 70% na mensalidade escolar das filhas.

Dona de escola viu os alunos desistirem um a um

marli - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Marli Pereira, da escola Planeta Azul
Imagem: Arquivo Pessoal

Cenário esse que Marli Pereira conhece bem. Desde 2003, ela era a dona da escola infantil Planeta Azul, em São Paulo, onde trabalhava havia 33 anos. Nem mesmo a experiência de décadas a poupou da crise. Acompanhou, desde março, a saída da escola de seus 130 alunos, um a um, dia após dia.

No início, a diretora tentou negociar com as famílias, oferecendo de 10% a 25% de desconto, benefício que chegou a 40% no mês seguinte. "Continuei com meu trabalho, confeccionando lembrancinhas de Dia das Mães e Páscoa, e enviando às crianças. Ainda tinha esperança de que as coisas melhorassem. Tentei algumas aulas por vídeo, mas não deram certo por causa da idade delas, de 0 a 6 anos", conta.

De acordo com a Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), estima-se que foram cancelados 1,3 milhão de contratos anuais e 300 mil empregos na educação infantil em todo o país -movimento que obrigou a Planeta Azul a fechar as portas.

Parte da renda da escola também vinha de uniforme, hotelzinho, alimentação, banhos, acampamento de outono e o aluguel do espaço anexo para festas. "Desde quando me tornei proprietária, implementei minhas ideias, consegui fazer exatamente o que eu queria. Foram os melhores anos da minha vida. Gerações passaram por lá. Mães que deixavam seus filhos, tornaram-se avós das novas crianças que entravam", relembra Marli, com a voz embargada.

Mesmo diante da impotência que os acontecimentos trouxeram, ela entendeu que seria melhor encerrar as atividades antes que o prejuízo se tornasse maior. Após três meses e o aconselhamento de seu advogado, Marli deu baixa no CNPJ e encerrou o sonho tão planejado.

No total, eram 16 funcionário fixos e cinco extras. O planejamento foi fundamental para que ela terminasse sem débitos ou pendências trabalhistas.

Doeu, mas doeu muito mesmo, fiquei doente, não aceitava, não dormia mais, só fazia contas Marli Pereira

A vontade de empreender, entretanto, permanece. "Eu não queria perder uma escola de 33 anos por causa de uma pandemia. Não sei o que será, mas tenho tudo guardado, pode ser que um dia eu volte", conta.

Restaurante tentou delivery e congelados

kim - Divulgação - Divulgação
Mijung Kim, do Nuna
Imagem: Divulgação

Voltar também é o objetivo de Mijung Kim. Mas, no caso dela, é para sua terra natal, a Coreia do Sul. Em um pequeno e aconchegante espaço no bairro de Pinheiros, São Paulo, a empresária de Seul reúne copos, talheres e móveis destinados a um bazar. Após várias tentativas de resistência, ela lamenta o fechamento de seu bar e restaurante coreano Nuna.

Quando chegou no Brasil há quatro anos para ser embaixadora de uma marca de whisky, percebeu um nicho ainda não explorado no mercado voltado à cultura coreana. Foi aí que abriu seu próprio bar, inaugurado em março de 2019. Antes de começar, estudou o ramo e investiu R$ 250 mil entre mercadorias e reformas.

Cresceu rapidamente e, com a alta demanda, faturava em torno de R$ 30 mil mensais, o que a fez querer ampliar e incluir um restaurante em seu negócio. Formada em engenharia de alimentos, desenvolveu um cardápio coreano adaptado ao paladar brasileiro e, já com dois funcionários, a empresária de 32 anos tinha planos bem traçados para o futuro. Até que chegou a quarentena.

Tentou o sistema delivery, que até então não existia, e em duas semanas seu faturamento foi maior do que com almoços em dias normais. Mas ela conta que a concorrência também identificou esse nicho e, em duas semanas, as vendas caíram vertiginosamente. Tentou se reinventar mais uma vez e passou a vender marmitas com cardápio fixo mas, trabalhando sozinha, Mijung chegou ao seu limite físico e passou a fornecer apenas comida congelada.

Desde quando começou a pandemia, em março, 70% do faturamento do negócio vem destas duas iniciativas. "Mas o maior faturamento vinha do bar, espaço que não será reavivado tão cedo, então eu levaria muito tempo para me recuperar do prejuízo", conta.

O gasto de energia e dinheiro não valeriam a pena Mijung Kim

A pandemia também a assusta por causa do número de infectados no Brasil. "Estou preocupada pois os casos não diminuem. Fico muito triste com essa situação, penso que se não morrer de fome, poderá ser por causa do coronavírus. A diferença nas ações do governo, tanto do meu país quanto aqui, contam muito na minha decisão. Acredito que lá estarei melhor por enquanto", confia a coreana.

Como prever uma pandemia?

De acordo com Camila Ribeiro, analista de negócios do Sebrae-SP, é de suma importância que haja um planejamento antes de investir naquele sonho ou na oportunidade que parece imperdível. "Mesmo antes da pandemia, nunca foi possível garantir 100% que uma empresa que está nascendo terá sucesso. Por isso, é tão importante o estudo de tudo que envolverá o seu negócio, como novos comportamentos e hábitos do consumidor, aspectos econômicos, sociais, culturais e jurídicos."

Mas (quase) ninguém poderia vislumbrar num plano de negócios o risco de uma pandemia que asfixiaria por meses boa parte dos negócios do país. Para Camila, nesses casos, a criatividade é uma alternativa. "Outro olhar que não podemos deixar de ter é o criativo e inovador. A sua empresa sempre terá concorrentes, como você fará para se diferenciar deles?", explica Camila.

Mas com tudo isso feito, como foi para as entrevistadas dessa reportagem, o sentimento de fracasso é mais comum do que se imagina, mesmo que as empreendedoras tenham dado o melhor de si.

"Reforço para que essa mulher não se cobre tanto e não se culpe por a empresa ter fechado. É muito importante que tenhamos claro que o fracasso não é ela, é um acontecimento", afirma Camila.

"Agora é o momento de analisar o que deu errado e os motivos que fizeram a empresa fechar, buscar conhecimento e estudar novas possibilidades, analisar necessidades do consumidor e novas oportunidades de mercado. Também vale buscar redes de apoio, mentorias e, sobretudo, entender que ela é capaz de se reinventar e não ter medo", incentiva.

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