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"Cabelo cresce": influencer ensina o que não dizer para pessoas com câncer

Duda Riedel já produzia conteúdo para a internet quando descobriu uma leucemia - Reprodução / Instagram
Duda Riedel já produzia conteúdo para a internet quando descobriu uma leucemia Imagem: Reprodução / Instagram

Ana Bardella

De Universa

20/08/2020 04h00

Quando recebeu o diagnóstico de leucemia, em maio do ano passado, Duda Riedel já produzia conteúdo para as redes sociais. Com 150 mil seguidores, a jornalista e atriz, que na época estava com 24 anos, usava o Instagram para tratar de forma bem-humorada sobre relacionamentos amorosos. No entanto, o problema de saúde fez com que precisasse modificar o foco das postagens. "Sabia que iria passar dias no hospital, raspar o cabelo, fazer quimioterapia. Não tinha como esconder isso de tanta gente", relembra. Então decidiu que falaria também sobre o tratamento, da forma mais autêntica possível: usando o espaço para desabafar e conscientizar, através do humor, mais pessoas sobre o problema.

A atriz e jornalista passou por um transplante de medula em novembro do ano passado - Reprodução / Instagram - Reprodução / Instagram
A atriz e jornalista passou por um transplante de medula em novembro do ano passado
Imagem: Reprodução / Instagram
De lá para cá, muita coisa aconteceu. Apenas um dia após o diagnóstico, já foi internada. "Por ser uma leucemia de um tipo bastante agressivo, vivi uma corrida contra o tempo", conta. No hospital, Duda tratou uma infecção e começou as primeiras sessões de quimioterapia. Um mês depois, iniciou a busca por um doador de medula, já que teria que se submeter a um transplante. Em outubro, encontrou um doador cem por cento compatível e em novembro o procedimento foi realizado com sucesso. Hoje, sem traços da doença no corpo, tem mais de 700 mil seguidores no Instagram, onde intercala posts sobre diferentes assuntos.

"Se a doença voltar você morre?"

Recentemente, Duda postou nas redes sociais um vídeo com o título "o que não dizer pra quem tem câncer", elencando as frases mais comuns que costumava escutar durante o tratamento. "Sentia que esses preconceitos precisavam ser solucionados, então pensei em um vídeo que pudesse educar as pessoas de forma cômica", resume.

Uma das frases é "Se a doença voltar, você morre?", com a qual já teve que lidar algumas vezes. "Entendo a preocupação das pessoas e a vontade de estar por dentro das possibilidades. Tem chances de voltar? Claro que tem. Assim como existem chances de qualquer um de nós atravessar a rua e ser atropelado. Mas a gente não fica pensando nisso, se não vive", diz.

Outro comentário comum é com relação ao cabelo. "As pessoas olham você careca e dizem: 'Ah, cabelo cresce'. Sim, sabemos que cresce, mas não adianta alguém com aquele rabo de cavalo imenso dizer isso. Se quiser ajudar, vale a pena assistir alguns tutoriais de amarrações com lenços ou procurar uma peruca da qual a pessoa goste para elevar a sua autoestima", opina.

No seu caso, Duda conta que o momento de raspar a cabeça não foi uma grande questão, porque estava preocupada com outras coisas. "Agora que está crescendo, tem dias que me olho e não me sinto tão bonita ou vejo algumas falhas no couro cabeludo. Mas respeito meu corpo e busco ressignificar o jeito como lido com isso".

Duda ressalta ainda outras frases que não são elegantes de dizer a um paciente oncológico: "Pelo menos você emagreceu"; "Um parente meu morreu disso que você tem"; "Acho que você precisa mudar seu estilo de vida" nem ainda recomendar chás e tratamentos alternativos que prometem a cura da doença.

"Guerreira, eu?"

Duda não acredita que seu crescimento na internet veio em decorrência do problema, mas graças a sua personalidade. "Claro que a minha forma de lidar com a doença pode ter inspirado outras pessoas, mas nunca foi o câncer o protagonista", diz. No entanto, ela concorda que sua produção de conteúdo vai na contramão do que estamos acostumados a ver em filmes, novelas e até na própria imprensa. Isso porque geralmente pacientes oncológicos são chamados de guerreiros e frequentemente a sociedade se refere a eles como se estivessem travando uma luta em prol da saúde.

O problema, dessa lógica, é pensar que quem sobrevive é um vencedor e, automaticamente, quem morre em decorrência dela é um perdedor. "A pessoa que lutou até o fim pela própria vida também é vencedora. Quando escuto a palavra guerreira, reajo de maneiras diferentes dependendo do dia. Às vezes dou um sorriso, às vezes só quero que a pessoa que disse isso desapareça da minha frente, porque tudo bem ter os seus momentos de vulnerabilidade". Além disso, ela garante que o tratamento não se aproxima em nada da maneira romantizada como é retratada na televisão. "Os sentimentos que surgem são difíceis, complexos. Tento desmistificar um pouco o assunto e mostrar que não é bem como a gente vê na Netflix. Parece que usando o humor como aliado, fica mais fácil de todo mundo entender".

E os contatinhos, hein, Duda?

Em nenhum momento a influencer deixou de postar vídeos sobre seu tema preferido, os relacionamentos. "No início, tinha muitos materiais gravados e ia soltando conforme fazia os procedimentos no hospital. Depois, voltei a criá-los"

Mas como seu foco era tratar a doença, receber perguntas sobre a vida amorosa naquele momento soava muito estranho para Duda. "Nunca perdi a inspiração para falar disso, mas confesso que, durante o tratamento, é difícil focar em romances. Eu pensava que já estava sofrendo tanto, não queria sofrer também por boy embuste. Já pensou que horrível? E agora que estou melhor, estamos passando por uma pandemia, então não tenho muito como movimentar a vida nesse quesito. Mas sempre fui apaixonada pelas relações humanas e nunca perdi o interesse de falar sobre isso", conta.

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