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"Ela voltou a sorrir", diz médico sobre menina de 10 anos após aborto em PE

Olímpio Moraes diz que assistente social informou que garota de 10 anos voltou a sorrir - Teresa Maia/UOL
Olímpio Moraes diz que assistente social informou que garota de 10 anos voltou a sorrir Imagem: Teresa Maia/UOL

De Universa, em São Paulo*

18/08/2020 11h15

A menina de 10 anos que engravidou após ser estuprada pelo tio, no Espírito Santo, voltou a sorrir pela primeira vez desde a descoberta da gravidez, que foi interrompida no domingo após o aborto ter sido autorizado pela Justiça. A informação foi dada pelo médico Olímpio Moraes, obstetra e diretor da maternidade que atendeu a menina no Recife.

"Ela está bem. E o melhor é que ela voltou a sorrir. Segundo a assistente social que veio com ela, foi a primeira vez que ela sorriu desde o momento que está acompanhando", disse ele em entrevista à GloboNews na manhã de hoje.

O boletim divulgado na manhã de hoje pelo Centro Integrado Amaury de Medeiros da Universidade de Pernambuco (Cisam/UPE) informa que "a paciente passa bem".

"Ela está passando bem, está calma, tranquila. Passou a noite muito bem e agora vem evoluindo bem. Estamos aguardando as decisões judiciais sobre o regresso dela ao Espírito Santo. Pela delicadeza do caso, pelo tumulto, temos de ter toda precaução para que ela retorne com segurança e protegida emocionalmente, pois ela já foi muito massacrada.", disse a coordenadora da enfermagem do Cisam, Benita Spinelli.

O local foi alvo de manifestações de grupos radicais e religiosos que protestaram contra a decisão pelo aborto. Manifestantes tentaram invadir o hospital derrubando a porta principal e foi preciso a intervenção da segurança do local. Como medida de segurança, Moraes disse que a data de alta da menina não será divulgada.

"A gente terá que montar um esquema não só aqui em Pernambuco, mas também no Espírito Santo para que não aconteça nada com ela parecido com o que quase aconteceu aqui", disse o médico.

Moraes contou que, no domingo, desceu para falar com os manifestantes ao notar que a menina estava chegando ao hospital. "Achei melhor sair para atrair a atenção deles, já que eles sabiam que o carro estava vindo porque anotaram a placa. Eles estavam lá no aeroporto. Foi o momento que eu trouxe a atenção deles, eles se descuidaram e ela pode entrar".

Para evitar novos problemas, está sendo mantido em sigilo informações sobre a alta da garota e também sobre o esquema de segurança.

"Embora nos deixe entristecidos constatar um caso desses, mas nos deixa aliviados porque ela conseguiu ser bem acolhida no lugar certo. Ela está acompanhada, além da nossa equipe multidisciplinar, pela assistente social que veio do Espírito Santo e a avó. Não vamos deixar que nada abale emocionalmente esta criança nesse período pós-procedimento", destacou Benita.

Desde que o caso foi tornado público, pessoas e líderes religiosos que são contra o aborto se manifestaram contra o procedimento. O presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), arcebispo dom Walmor, classificou o caso como "crime hediondo" e o arcebispo da arquidiocese de Olinda e Recife, dom Antonio Fernando Saburido, afirmou que "Recife está com fama de capital do aborto". Ambos criticaram o trabalho do Cisam em atender mulheres vítimas de violência sexual desde 1996.

Apesar das manifestações contrárias, a equipe do Cisam e a criança assistida estão recebendo apoio de diversos setores da sociedade, como OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), seccional Pernambuco, e também presentes, cartas e homenagens de pessoas que se solidarizaram com o caso.

"Tanto ela, quanto nossa equipe, estamos recebendo muitas homenagens. Flores, chocolates, cartas, estamos recebendo tudo com muito carinho e isso nos dá a firmeza que fizemos o certo, que estamos no caminho certo. Somos uma universidade, referência no atendimento a mulher e cumprimos o que foi determinado pela Justiça e pela nossa ética", afirmou Benita.

O tio da menina, que estava foragido, foi preso na madrugada de hoje pela Polícia Civil do Espírito Santo na região metropolitana de Belo Horizonte.

* Colaborou Aliny Gama, colaboração para Universa, no Recife