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Por que muitos estrangeiros veem a mulher brasileira como objeto sexual?

"Você é brasileira? Ah, eu amo as mulheres brasileiras", diz obra em inglês de Santarosa Barreto feita a partir do desconforto da artista com a visão estrangeira - Santarosa Barreto/Divulgação
"Você é brasileira? Ah, eu amo as mulheres brasileiras", diz obra em inglês de Santarosa Barreto feita a partir do desconforto da artista com a visão estrangeira
Imagem: Santarosa Barreto/Divulgação

Aline Takashima

Colaboração para Universa

12/08/2020 04h00Atualizada em 12/08/2020 11h59

Em um letreiro rosa-choque, um texto em inglês contornado em neon diz: "Você é brasileira? Ah, eu amo mulher brasileira". A obra instagramável da artista plástica Santarosa Barreto, 34, fez sucesso na exposição "Histórias feministas: artistas depois de 2000", no Museu de Arte de São Paulo, o MASP, no ano passado. A frase muito conhecida pelas mulheres brasileiras que moram no exterior ou que já viajaram para fora do país até soa como uma espécie de flerte. Mas é mais que um jogo de sedução.

A ideia da obra surgiu quando Santarosa fazia uma residência artística em Paris, em 2016. Sendo a única mulher brasileira do grupo, percebeu como os homens reagiam quando ela contava a sua nacionalidade. "As reações eram bem parecidas, a maioria deles falava 'Ah, eu amo mulheres brasileiras'. E, por mais que eu já tivesse presenciado esse tipo de resposta em outras situações fora do Brasil, aquilo passou a me incomodar profundamente. Era visível como todos os homens diziam como se fosse um elogio."

Se a imagem dos brasileiros fora do país é de um povo alegre e simpático, a das mulheres ganha contornos eróticos, relacionados, muitas vezes, ao mercado do sexo. É por isso que a artista plástica escolheu usar neon, uma luz muito utilizada nas fachadas de casas de prostituição em Paris.

"Frequentemente, mulheres brasileiras são vistas como prostitutas por estrangeiros. Exercer o trabalho sexual é exercer um trabalho, disso não tenho dúvidas, e respeito bastante as trabalhadoras sexuais. Mas vejo que essa associação feita por homens de fora do Brasil é carregada de preconceitos, generalizações e muito machismo." Já a cor rosa foi escolhida para fazer menção ao tom elogioso, quase carinhoso, que contamina essas situações de assédio. "É um rosa, digamos, irônico", resume.

Para Beatriz Padilla, doutora em sociologia, professora da Universidade do Sul da Flórida e especialista em imigração e gênero, as mulheres brasileiras muitas vezes são vistas e tratadas como sendo totalmente disponíveis para os homens no exterior. "Alguns homens nem sequer consideram que as brasileiras não lhes pertencem."

Universa tratou do tema ao noticiar que um grupo de brasileiras em Portugal havia se unido para denunciar episódios de assédio moral e sexual no exterior. Depois disso, a reportagem decidiu se debruçar sobre o tema em busca das raízes desse estereótipo.

revista - Reprodução/Kelly Akemi Kajihara  - Reprodução/Kelly Akemi Kajihara
Revista com propaganda turística da Embratur exibe brasileira de biquíni
Imagem: Reprodução/Kelly Akemi Kajihara

Mulher como produto turístico

Entre as décadas de 1960 e 1980, o próprio governo brasileiro disseminou a figura da mulher sensual como um produto turístico nacional. Em estudo com base nas campanhas publicitárias da Embratur, órgão federal responsável pelo turismo, a pesquisadora Kelly Akemi Kajihara indica que o governo contribuiu para um imaginário coletivo da brasileira sexualizada.

Pôsteres e cartões-postais mostravam mulheres com corpos torneados, de biquíni na praia ou seminuas sambando no Carnaval. Nem sempre as imagens acompanhavam os rostos das modelos. Muitas vezes apenas uma bunda ilustrava a campanha.

Um ponto que é bastante problemático é a promoção de mulheres sensuais como um produto turístico a ser consumido como as praias, paisagens e festas populares. Até hoje elas são vistas em muitas situações como fáceis, sensuais e provocantes Kelly Akemi Kajihara, pesquisadora

biquíni - Kelly Akemi Kajihara/Reprodução - Kelly Akemi Kajihara/Reprodução
Propaganda turística com brasileira de biquíni coletada em pesquisa de Kelly Akemi Kajihara
Imagem: Kelly Akemi Kajihara/Reprodução

Esses imaginários geram consequências sociais variadas, desde cantadas indesejadas e comentários sexistas até casos como prostituição infantil e tráfico de mulheres brasileiras no exterior. "Esse incentivo governamental contribuiu para que o Brasil entrasse na rota do turismo sexual, sendo que o ponto mais grave é o turismo sexual com meninas menores de idade", explica a pesquisadora. Dos quase 2 milhões de meninos e meninas vítimas de exploração sexual no mundo, aproximadamente 10% são crianças brasileiras, aponta a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

De acordo com o estudo, a partir do ano de 2003, o governo brasileiro deixou de usar definitivamente a figura da mulher sensual em suas campanhas publicitárias de turismo. No entanto, Kelly afirma que o governo atual não se esforça para combater os estereótipos da mulher brasileira sexualizada.

Ela relembra uma fala do presidente Jair Bolsonaro, dita no Palácio do Planalto, em abril de 2019: "Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, [o Brasil] não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay, do turismo gay." A pesquisadora aponta que "tais desserviços são graves do ponto de vista social e tornam ainda mais difícil a desconstrução dos estereótipos".

Como nasce um estereótipo

As brasileiras, assim como os brasileiros, estão em todos os cantos do mundo. Mas em Portugal, parece que o preconceito é nítido, relatam o grupo de mulheres que criaram o grupo "Brasileiras não se calam". A pesquisadora Beatriz Padilla recupera o imaginário colonial para explicar. Ela cita o romance "Iracema", escrito por José de Alencar em 1865, que representa essa imagem em uma espécie de mito da fundação do povo brasileiro.

Na trama, a indígena Iracema seduz Martim, um português colonizador que explora as terras do Ceará no século 16. Ela é descrita como a "virgem dos lábios de mel". Em certo episódio, Iracema, conduz o português para um bosque sagrado e prepara uma poção alucinógena para o amado. Martim logo fica inconsciente. Iracema, então, deita nos seus braços. Em seguida, uma sutil indicação no texto indica que eles transaram: "Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras".

iracema - José Maria de Medeiros/Reprodução - José Maria de Medeiros/Reprodução
Iracema (1884) pintada por José Maria de Medeiros e inspirada em romance de Alencar
Imagem: José Maria de Medeiros/Reprodução

A figura da índia sedutora logo é substituída pela mulher negra, numa ideia de harmonia mestiça. "É uma ideia fora de contexto. Os homens usavam as mulheres para satisfazer as suas necessidades, especialmente negras e indígenas, que vão originar o 'povo brasileiro misturado'", conta a pesquisadora Beatriz.

Gláucia Assis, professora da Universidade do Estado de Santa Catarina, especialista em mulheres emigrantes e relações de gênero, concorda com Beatriz: os colonizadores agrediram e violentaram as mulheres negras e indígenas. Esses imaginários do passado se atualizam. "Hoje, essa ideia de que as brasileiras são prostitutas, pecadoras e disponíveis para um encontro sexual está presente na literatura e nas propagandas que circulam em Portugal", afirma.

A partir desse imaginário, as mulheres são divididas entre as boas e as más. "As esposas dos colonizadores são as boas e as outras mulheres escravizadas e indígenas são as más", sintetiza Beatriz. As brasileiras, por sua vez, são vistas como mulheres misturadas, categorizadas como "mestiças, mulatas e não brancas", ou seja, as más.

"Nessa cultura sexista e racista que existe até hoje, as mulheres brasileiras ficam em desvantagem no exterior." É comum a ideia de que o homem não consegue resistir às brasileiras. E, aos olhos deles, a culpa é das mulheres. "Quando a brasileira resiste à essa imagem sexualizada, muitas vezes os europeus não reconhecem a sua própria discriminação."

O que Anitta tem a ver com isso?

Como produto de exportação, a batida ritmada do funk brasileiro agrada a muitos países. Estados Unidos, Portugal e Argentina são os lugares onde o estilo é mais escutado fora do Brasil, segundo dados do Spotify. Mas, segundo a pesquisadora Kelly Akemi Kajihara, o funk -e sua maior expressão, a toda poderosa Anitta— não é o responsável pela imagem estereotipada da brasileira no exterior.

"A sexualidade das cantoras de funk vai para um lado de empoderamento feminino, do tipo 'eu posso ser sexy, eu posso transar se eu quiser'. É diferente da imagem da mulher fácil e erotizada vista nas campanhas de turismo, que possui um caráter muito machista e transmite a mensagem que a mulher é um produto a ser consumido."

A professora Gláucia Assis endossa Kelly. "O gênero musical é uma expressão cultural de grupos populares urbanos que é visto com muitos preconceitos. As mulheres no exterior definitivamente não são discriminadas por causa do funk, e sim pelo imaginário colonial estereotipado das brasileiras."

No exterior, as diferenças de gênero se aprofundam. "Essas visões estereotipadas de uma mulher brasileira imaginária exotiza e insere as mulheres brasileiras numa posição de inferioridade. O olhar sexualizado no exterior é de um homem do [hemisfério] norte para uma mulher do sul."

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