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Violência contra a mulher

Mulher com suspeita de covid denuncia assédio de médico; ele nega

A recepcionista Vivian Herculano denunciou ter sofrido assédio de médico em centro de combate ao coronavírus em São Vicente - Arquivo pessoal
A recepcionista Vivian Herculano denunciou ter sofrido assédio de médico em centro de combate ao coronavírus em São Vicente Imagem: Arquivo pessoal

Rafaella Martinez

Colaboração para UOL, em São Vicente (SP)

11/08/2020 14h27Atualizada em 13/08/2020 09h39

A recepcionista Vivian Herculano, de 29 anos, denunciou o médico que a atendeu no Centro de Combate ao Coronavírus de São Vicente, no litoral de São Paulo, por importunação sexual. A prefeitura afirma que a denúncia está sendo apurada pelos órgãos competentes e que o médico foi imediatamente afastado de suas funções.

Procurado por Universa, o suspeito nega as acusações e, através de sua defesa, informou que entrou com boletim de ocorrência contra a recepcionista por denúncia caluniosa e injúria. A defesa também afirmou o médico concordou com o afastamento do cargo até a apuração da fato.

O caso de assédio ocorreu no último dia 4, mas só foi divulgado hoje. De acordo com o Boletim de Ocorrência registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Vivian procurou atendimento médico na unidade municipal de saúde por estar com sintomas de covid-19. Ao ser atendida, ela passou a ser questionada sobre seus passatempos.

"Oportunidade, vontade ou coragem"

"Ele começou a fazer perguntas pessoais e a insistir que eu precisava relaxar mais, que o que eu tinha era estresse. Então pediu uma radiografia de tórax e quando eu retornei com o exame ele encostou a porta, quase fechando, e começou a falar que faltavam três coisas para eu melhorar: oportunidade, vontade ou coragem, e que a oportunidade estava ali, era só fechar a porta", conta Vivian.

A recepcionista então saiu da sala e denunciou o caso para direção do hospital, que a orientou a registrar um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil. "Eu nunca tinha passado por isso. A ficha caiu quando eu saí da sala e comecei a pensar em meninas mais jovens que poderiam ser ainda mais vulneráveis. Se eu fiquei sem reação, imagina uma menina de 18, 19 anos? Ele precisa arcar com as consequências do que fez", diz.

Posteriormente, Vivian afirmou que seu exame para covid-19 deu negativo.

Crime de importunação sexual

Em nota, a Delegacia de Defesa da Mulher de São Vicente afirma que foi expedida ordem de serviço ao setor de investigações para intimar o autor, via ofício encaminhado à Secretaria de Saúde de São Vicente.

O crime de importunação sexual previsto no artigo 215-A do Código Penal consiste em praticar contra alguém e sem a sua anuência, ato libidinoso com o objetivo de satisfazer o próprio desejo ou o de terceiro. Atos libidinosos são atos praticados por uma pessoa com caráter sexual, como toques e gestos, palavras maliciosas e comentários de conotação sexual. Quem pratica tais atos pode pegar de 1 a 5 anos de prisão.

Médico nega denúncia e faz BO contra recepcionista

Por telefone, a defesa do médico negou as acusações e afirmou que foi registrado ainda no dia 6 um Boletim de Ocorrência no 1º Distrito Policial de São Vicente por Denúncia Caluniosa e Injúria contra a recepcionista. A resposta foi enviada dois dias após a publicação da matéria.

"Não consideramos esses fatos verdadeiros e iremos instaurar um inquérito policial através de uma representação criminal para que se apure o que aconteceu. Toda a consulta foi realizada com a porta entreaberta e sabemos que muitas pessoas circulam na rede pública, não me parece razoável que quem pretende cometer um crime contra a dignidade vá deixar a porta desse jeito", destaca o advogado Marcelo Cruz.

Ele afirma que, por segurança, o médico seguirá afastado de suas funções até o final da apuração. "É uma recomendação nossa também, pois o caso exige uma apuração rigorosa para que o eventual culpado não fique isento de uma responsabilidade criminal e para que um eventual inocente não seja responsabilizado por um crime que não cometeu. A palavra dela me parece esvaziada, pois ninguém testemunhou o suposto assédio. Em contrapartida, isso causou um abalo significativo para o médico. Ele está indignado e afirma que nada aconteceu", finaliza.

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