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Kim e Kanye: qual o papel do cônjuge na crise de saúde mental do parceiro?

Kim Kardashian e Kanye West se isolaram para cuidar da saúde mental do rapper - Reprodução / Internet
Kim Kardashian e Kanye West se isolaram para cuidar da saúde mental do rapper Imagem: Reprodução / Internet

Bia Viana

Colaboração para Universa

10/08/2020 04h00

O rapper Kanye West virou notícia nas últimas semanas por causa de sua saúde mental. No meio do que seria uma crise de transtorno bipolar, ele, entre outras coisas, usou suas redes sociais para acusar a esposa, Kim Kardashian West, de tentar aprisioná-lo. A empresária sofreu duras críticas dos fãs. Na última semana, ela anunciou que o casal decidiu se isolar em uma ilha para focar na saúde de Kanye.

Esse episódio é um dos exemplos de que estar em um relacionamento saudável envolve muito mais que amor. É preciso respeito, diálogo e confiança mútua. No caso dos relacionamentos que envolvem um cônjuge com doenças psicológicas, esse compromisso se torna ainda mais relevante para garantir a saúde mental e emocional dos dois.

A história do casal West levanta uma questão muito importante: como o cônjuge pode ajudar no tratamento e recuperação de crises psicológicas do parceiro? E mais: como fazer isso sem prejudicar a própria saúde mental? Para esclarecer dúvidas sobre o assunto, Universa conversou com duas especialistas em psicologia e psiquiatria, que descrevem formas de enfrentamento conjunto de tratamentos psicológicos.

Parceiro deve estar atento às mudanças de comportamento

Em pessoas diagnosticadas com doenças psicológicas, as crises podem surgir de diversas formas. Elas podem vir de gatilhos específicos, conhecidos apenas pela pessoa. "Alguém que olhe de fora não encontrará justificativa para a crise, mas a pessoa que a sente sofre aquilo de forma muito intensa e desgastante", afirma a psicóloga Camila Moreira, especialista em saúde mental da mulher,

No relacionamento amoroso, os efeitos da crise impactam na vida do casal. "Os sintomas variam desde apatia, desânimo, perda de libido e desinteresse pelo outro, até sintomas de agitação, irritabilidade, euforia, excesso de sexualidade e pensamentos inadequados (com temática de ciúmes e 'paranoias' de traições, por exemplo). Muitas vezes é complicado entender e empatizar", diz Karina Barradas, que explica que quanto mais sintomas a crise apresenta, maior é a gravidade.

Em casos muito graves, os pacientes podem apresentar sintomas como alucinações e delírios. "Para se relacionar com alguém que tenha transtorno bipolar é importante saber que nos surtos o paciente pode apresentar esses sintomas", explica.

O parceiro precisa estar ainda, atento às mudanças de comportamento. "É importante perceber variações leves que acontecem antes, como mudanças de humor e no padrão do sono, além de agitação ou desânimo que não são rotineiros, e buscar ajuda médica o quanto antes", afirma a psiquiatra.

Não é uma tarefa fácil

O principal papel do parceiro nessa situação é de incentivador. Segundo Karina, o cônjuge é o maior suporte no tratamento. "É importante estar ali. Sentar ao lado, olhar e usar a empatia, se colocar no lugar do outro e sentir-se como ele, agindo como gostaria que agissem com você".

A psicóloga destaca a importância do parceiro motivar a continuidade do tratamento, mas reconhece a dificuldade. "Não é uma tarefa fácil. Envolve além do amor, empatia, acolhimento, abnegação e entrega", diz Camila. A relação com as crises pode variar de um casal para outro, mas o mais importante é conversar sobre o assunto. Para Karina, ambas as partes devem compartilhar como se sentem. "Acredito que falar sobre o transtorno, explicar os sintomas mais comuns e falar sobre maneiras de ajudar, caso aconteça uma crise, é o primeiro passo".

A psiquiatra também ressalta que essa troca é vital para que um saiba como lidar com as crises do outro. "Em qualquer relacionamento, quanto mais tempo e mais conhecimento temos do outro, mais fácil fica saber o que está se passando. Não muda para quem se relaciona com alguém com transtorno, com uma diferença: eu sei que aquele não é o 'normal' do meu parceiro. Então podemos, juntos, buscar ajuda médica e psicológica".

Afinal, os impactos no casal podem ser graves, causando prejuízos emocionais para ambos. Enfrentar as crises é necessário para garantir um equilíbrio. "É comum os olhares ficarem voltados apenas para o portador de transtornos mentais, mas toda a família adoece", afirma Camila..

Terapia em conjunto

O cônjuge precisa entender que faz parte de seu papel como rede de apoio para o parceiro estar em dia com sua saúde. Por isso, Camila salienta que ambos devem fazer terapia, individualmente e em conjunto.

"Num cenário ideal, cada parceiro precisaria estar fazendo suas terapias individuais, cada um com um psicólogo diferente, onde eles tratariam as questões pessoais. Também podem fazer uma terapia de casal, onde tratariam das questões que envolvem o casal".

Mesmo que carregue um sentimento de culpa, a pessoa não deve tentar fazer tudo sozinha. É importante enfrentar a situação em conjunto. "Cada um precisa do seu espaço de escuta, ou seja, de acompanhamento psicoterápico, onde será acolhido, orientado e cuidado", recomenda a psicóloga.

Autopreservação e redes sociais

É sempre um escândalo quando uma celebridade revela estar em tratamento de problemas psicológicos. "A grande maioria das pessoas ainda critica e julga quem faz terapia. Por isso, muitas celebridades escondem que fazem este tipo de tratamento. Quando divulgam, também são assediados: ou seja, é pressão por todos os lados", comenta Camila.

Mas a pressão não fica só entre os famosos. A exposição nas redes sociais, segundo a psicóloga, pode gerar adoecimento mental e agravar quadros psicológicos de forma geral. "Não temos mais diários guardados nas gavetas, mas temos nas redes sociais nossos diários públicos".

"Muitas pessoas, incluindo as celebridades, utilizam as redes sociais como um lugar de desabafo, em busca de apoio e acolhimento. Porém, é um grande risco, pois além de poder ser mal interpretado, esta pessoa pode não encontrar o apoio que esperava e adoece ainda mais", alerta Camila.

Karina ressalta que a medicina desaconselha essa exposição em redes sociais. "Pessoas em crise, sejam figuras públicas ou não, devem ser acompanhadas e tratadas de perto para evitar o compartilhamento de comportamentos inadequados e correrem riscos de piora de quadro. A internet pode ser gatilho para novas crises, e entramos num círculo vicioso".

No caso de casais como Kim e Kanye, que lidam com o Transtorno Afetivo Bipolar em seu relacionamento, as crises e surtos podem escassear com tratamento. "Existe um padrão para identificar os pacientes pelo risco que eles apresentam. O risco de exposição social é um deles. É quando o paciente se coloca em situação vexatória ou com risco de se expor moralmente ou fisicamente". Pode ser recomendado um tratamento mais intensivo para pacientes enfrentando o transtorno.

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