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Na quarentena, homens negros deixam cabelo crescer pela 1ª vez: "Transição"

Mauro Baracho, do @afroestima2, está deixando os fios crescerem e cuidando do cabelo durante a pandemia - Arquivo pessoal
Mauro Baracho, do @afroestima2, está deixando os fios crescerem e cuidando do cabelo durante a pandemia Imagem: Arquivo pessoal

Nathália Geraldo

De Universa

01/08/2020 04h00

Por 33 anos, Danilo dos Reis Oliveira levantava da cama, se arrumava e saía de casa sem a preocupação de olhar para o cabelo. Na quarentena, o publicitário digital e podcaster está deixando os fios crescerem e, por isso, antes de ganhar as ruas, precisa parar em frente a um espelho para arrumá-los com "um formato". Para ir ao supermercado, por exemplo, ajeita o cabelo com as mãos, enquanto decide se, ao final do isolamento social, usará dreads ou tranças.

Danilo sempre foi vaidoso com o corpo. "Não tem essa de achar que sou menos homem por isso". Mas, o cabelo, raspado a cada 20 dias, não entrava na sua rotina de vaidade. No isolamento social, impossibilitado de ir ao cabeleireiro, isso mudou. E ele não está sozinho.

Como aconteceu com o movimento de mulheres que voltaram a ter cabelos naturais há alguns anos — popularizando e fortalecendo processos de transição capilar — homens negros estão deixando, pela primeira vez na vida, que seus cabelos crespos e cacheados ganhem textura e significado.

Autoconhecimento, "afroestima" e o fato de estar mais tempo em casa (para quem tem a possibilidade de fazer home office), longe de potenciais olhares racistas, são algumas das pontas do novelo de motivos para que, no meio da pandemia, eles redescubram seus cabelos.

Neste texto, pretos estão se amando.

Cabelos crespos, ok?

danilo oliveira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Danilo raspava o cabelo pela praticidade; na quarentena, decidiu deixar os fios crescerem
Imagem: Arquivo pessoal

No início da pandemia, as portas fechadas de barbeiros e cabeleireiros colocaram a preocupação com a estética em jogo. Cada um reagiu de um jeito e raspar a cabeça, tingir os fios, intensificar cuidados de hidratação se tornaram "surtos de quarentena" comuns. Uma parcela não tão silenciosa de homens negros, no entanto, decidiu apostar em um reencontro mais natural: deixar o cabelo crescer para ver como ficaria.

"Meu cabelo nunca foi uma questão e eu gostava dele curtíssimo. Há dois anos meus amigos diziam para eu tentar deixar crescer. E eu só pensava que demandaria um cuidado diferente; via meu irmão de 18 anos que toda hora pinta, raspa, muda a aparência...Até que chegou a quarentena", conta Oliveira.

Na fase 1 do processo, Oliveira conta que só lava o cabelo e seca. Ainda não comprou produtos específicos para seu tipo de cabelo, "que não é tão crespo", e tem contado com ajuda de amigos e amigas para escolher cortes afro para quando puder visitar um salão de beleza de novo. "E quero ver o que combina mais comigo, trança ou dread".

danilo oliveira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Há pelo menos quatro meses, o publicitário experimenta um novo visual
Imagem: Arquivo pessoal

Para o pesquisador e criador de conteúdo do @afroestima2, no Instagram, Mauro Anderson Baracho, o novo visual de quarentena, deixando os fios em cima e raspando as laterais, é um triunfo. Aos 36, ele revisita o processo doloroso de ter ouvido desde a infância agressões racistas de que cabelos crespos eram "ruins" e "feios". Os pais, negros, alisavam os próprios fios. Baracho, por sua vez, deixava o cabelo raspado "bem baixinho". Queria muito deixá-los crescer, pois sequer sabia se seria um black power ou se os fios pesariam para baixo.

É por essa razão que pensar na possibilidade de fazer dreads ou visitar um trancista quando a pandemia acabar é, para ele, algo inédito. "Mesmo quando eu resisti e deixei o cabelo crescer por um ano, quando tinha vinte e poucos anos, não tinha essa preocupação de cuidar dele. Na verdade, eu tinha vergonha de ir ao cabeleireiro, aparava em casa. Achava que não valia a pena cuidar".

A primeira tentativa, assim, foi cercada de dificuldades. "Eu ouvia críticas sobre o cabelo em casa e no trabalho. Tanto que, no dia que eu cortei, todo mundo me cumprimentou na empresa e uma menina branca sugeriu que eu deveria manter sempre aquele corte".

Do "passa a máquina" para o "deixa assim"

Mauro baracho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Antes e depois do produtor de conteúdo: meta é "bancar" cabelo natural e não voltar à máquina 1
Imagem: Arquivo pessoal

Para Baracho, a transição do cabelo raspado para o crescimento dos fios se associa a questões quase sempre pouco incentivadas para homens negros: segurança, autocuidado, afroestima. Resultado, diz, de acesso a conhecimento sobre masculinidades negras, tema que propõe com frequência no perfil do Instagram.

"Quando apareci em lives ou em vídeos com o cabelo assim, as pessoas começaram a elogiar. Hoje, eu tenho mais segurança e autoestima e reconheço que, enquanto as meninas negras falam de transição capilar, parece que para o homem não há essa questão. Mas, tem sim. Tanto que, por vezes, quando alguns foram assumir os cabelos naturais, ou já estavam com menos cabelo ou com os fios brancos". É o estereótipo racista de que "quem tem cabelo grande é desarrumado" agindo diretamente nas escolhas estéticas das pessoas negras.

Agora, o produtor de conteúdo acrescentou novos cuidados à rotina, conta. "Homem geralmente passa o sabonete do corpo no cabelo. Eu ganhei um kit de shampoo e hidratação artesanal e, desde então, tiro dois ou três dias da semana para usá-lo", comenta.

A gente ouve por tanto tempo que o cabelo é ruim, que acha que não tem que cuidar.

Fetichismo do black, transição com babosa

Da mesma mudança do olhar para si mesmo fala o publicitário Esdras Ferreira, que também está com o cabelo grande pela primeira vez na vida. "Achei que estava na hora de repensar e entender os motivos de não deixá-lo crescer. Eu enxergava o outro como bonito, e comecei a ver o que tínhamos esteticamente em comum", explica, destacando que a participação de coletivo para discutir masculinidades negras também despertou a firmeza em não raspar mais os fios, há quatro meses.

Esdras ferreira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"A quarentena está sendo uma oportunidade de me olhar de um jeito que eu nunca tinha feito. Careca, eu me projetava com o cabelo trançado, mas nunca imaginei que seria agora".

A transição, afirma o publicitário, tem tudo a ver com a forma com que se põe no mundo — e como o corpo do homem negro é visto. Por essa razão, fazê-la enquanto está trabalhando de casa talvez tenha facilitado o processo. "Tentei algumas vezes antes da quarentena, mas tem o lance de eu trabalhar em ambientes de escritório. Há regras que são colocadas e, sim, você sofre com olhares. O que pode não acontecer com quem tem um black power, porque há um fetichismo com o black armado", diz.

Ninguém te apoia no início da transição. E é um processo doloroso.

O julgamento do outro, analisa o publicitário, só muda quando o cabelo passa a ter "uma forma". "Aí começaram a dizer que combinava comigo, a me elogiar".

Para ele, a relação com o cabelo é de descoberta. "Estou curtindo demais o processo. Há a coisa de acordar e ter que penteá-lo, não paro de tocar nele e comprei até babosa". E, podem esperar, serão muitos homens de cabelos trançados por aí. "Penso em trançar daqui uns meses. Mas desde já, percebi que ele se tornou alvo de autocuidado, uma parte do corpo para qual comecei a olhar — e automaticamente, me faz olhar para o todo e para o fato de que preciso me cuidar".