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Maternidade de SP recua em afastamento de mães e bebês após o parto

Carol Braga recebe a filha Estella após testar negativo para o coronavírus - Arquivo pessoal
Carol Braga recebe a filha Estella após testar negativo para o coronavírus Imagem: Arquivo pessoal

Janaina Garcia

Colaboração para Universa

01/08/2020 04h00

O Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo, um dos mais tradicionais da cidade, alterou um protocolo interno adotado em relação a mães e recém-nascidos que os separava logo após o parto e contrariava recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Ministério da Saúde.

O protocolo está relacionado ao combate à covid-19 e segue vigente na unidade Itaim Bibi (zona sul de São Paulo) da rede desde junho. A alteração dele aconteceu cinco dias depois de uma reportagem de Universa revelar o caso —com críticas de paciente e de médicas obstetras que atendem na unidade de que a ação equivaleria a um ato de violência obstétrica. Uma psicóloga que havia buscado um parto humanizado chegou a ficar mais de duas horas sem poder tocar a própria filha, por exemplo.

A medida colocava a gestantes que procurassem o hospital a obrigatoriedade de apresentar teste de covid válido por até cinco dias. Antes da mudança, caso elas chegassem à unidade Itaim com o teste fora desse prazo, o contato com o recém-nascido só poderia ocorrer após a divulgação do resultado de um novo teste, ação que leva, em média, três horas. Se o bebê nascesse antes disso, não poderia ser tocado nem amamentado pela mãe.

Hospital permite toque só após assepsia

Seguem mantidas no protocolo a exigência do exame pela gestante e a consideração de que ela é positivo para o coronavírus até que o exame fique pronto. Agora, no entanto, não é feita a separação compulsória caso o resultado do teste não tenha sido entregue, mas sim uma assepsia da mãe e do recém-nascido antes de eles serem postos no contato pele a pele.

"O Hospital e Maternidade São Luiz, unidade Itaim, reitera o compromisso com a humanização do parto, sendo sempre defensora do contato pele a pele ao nascimento, estímulo à amamentação na primeira hora de vida, alojamento conjunto e método canguru", diz nota enviada pelo hospital à reportagem.

O São Luiz informou ainda que "o seu protocolo para garantir a segurança do recém-nascido durante a pandemia do SARS-CoV2, para gestantes que ainda aguardam o resultado do PCR molecular ou que já testaram positivo para Covid-19, é iniciar o contato pele a pele e amamentação após os cuidados de higiene e medidas de prevenção de contaminação do recém-nascido, como limpeza da parturiente, troca de máscara, touca, camisola e lençóis, tiverem sido adotados. O recém-nascido pode ser secado, não sendo necessário banho".

Médicas ouvidas pela reportagem, na semana passada, haviam criticado a restrição de contato entre mãe e filho especialmente por isso ocorrer durante a chamada "golden hour" ("hora dourada"), primeira hora após o nascimento e momento crucial para fortalecer o vínculo entre ambos, favorecer a amamentação e diminuir riscos à saúde da criança.

Outra crítica das profissionais se referia à falta de base científica para o protocolo —explicação que o próprio hospital não soube fornecer, na semana passada. Novamente, a alteração da regra interna também não especificou se seguiu critérios científicos, tendo em vista que sequer a OMS orientara que se separassem mãe e bebê em casos de covid, mesmo que a mulher estivesse doente. Ela deve usar máscara, para evitar troca de perdigotos, e álcool gel, para higienizar as mãos, e então amamentar.

OMS diz que benefício de oferecer o peito supera qualquer risco

Na nota da assessoria de imprensa, a instituição informa apenas que age "segundo a mais recente orientação da OMS, sobre a adesão às medidas de prevenção e controle de infecções essenciais para evitar a transmissão por contato entre mães suspeitas ou confirmadas de covid-19 e seus recém-nascidos e bebês." Não foi informado o motivo da alteração no protocolo.

No mês passado, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, fez um apelo para que as mães que já tenham contraído a covid-19, a menos que apresentem sintomas, sigam amamentando os filhos.

"Os benefícios de oferecer o peito superam qualquer possível risco de transmissão da covid-19", definiu, na ocasião.

Direitos da mulher