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Sophia Abrahão sobre assédio: "A gente vive num mundo que condena a vítima"

Sophia Abrahão está à frente do clube de leitura "Entre Livros" - Anthenor Neto/Divulgação
Sophia Abrahão está à frente do clube de leitura "Entre Livros" Imagem: Anthenor Neto/Divulgação

Luiza Souto

De Universa

31/07/2020 04h00

Quando a quarentena foi decretada para conter o avanço do novo coronavírus, a cantora, atriz e apresentadora Sophia Abrahão, 29, percebeu-se mais ansiosa: por não saber, àquela altura, o que estava acontecendo e também pela família, que mora em São Paulo. Hoje, vivendo no Rio de Janeiro com o namorado, o ator Sergio Malheiros, suas aflições estão agora mais voltadas para o combate ao machismo e para a luta contra o racismo.

"Já recebi comentários questionando meu namoro com o Sergio", ela conta, sobre o relacionamento com o ator, que é negro.

A atriz que estrelou sucessos como "Malhação" (2007) e Rebelde (2011), e apresentou o "Video Show" até o ano passado, está há um ano e meio à frente de um projeto de leitura, o "Entre Livros", em que debate nas suas redes uma obra por mês, além de entrevistar autores nacionais e internacionais, e deve voltar ao ar numa participação na série "As Five" (Globoplay), um spin-off de "Malhação: Viva a Diferença", em novembro.

Enquanto isso, a artista exalta a iniciativa de mulheres que vêm a público denunciar casos de assédio e estupro, como fizeram recentemente as atrizes Juliana Lohmann e Julia Konrad, mas admite a dificuldade ainda de se falar sobre o tema.

"A gente vive num mundo que condena a vítima, em que ela é lesada por expor. Elas são guerreiras."

Leia os principais trechos da entrevista:

O que mudou para você durante a quarentena?

Muitas pessoas próximas a mim, que têm determinada estrutura, não estão obedecendo as regras porque não querem ficar em casa. Estão sacrificando o coletivo. Isso está muito gritante para mim, ver quem está preocupado em ser cidadão e quem está olhando para o próprio umbigo. Me decepcionei com determinadas pessoas. Não falo daquelas que precisam trabalhar, mas as que não estão exercendo seu privilégio para o bem. Essa disparidade social em que a gente vive se ampliou demais para mim. Por isso, tenho divulgado causas sociais no meu podcast, o Pod Chegar, além de doar livros.

E qual tem sido a principal dificuldade nesse período?

Toda restrição é complicada e gera ansiedade. Tem a preocupação com o que está acontecendo e com os familiares. E a convivência em casal. Apesar de sermos muito caseiros, nunca convivemos tanto. Precisamos, às vezes, dar uma respirada, ter nossa individualidade. Temos o privilégio de termos cada um o seu escritório. Então, tem dia que a gente passa a tarde toda sem se ver. Estamos morando com a Elika, que trabalha com as minhas redes sociais. E ter uma terceira pessoa é bom para dar uma distraída.

A quarentena fez vocês adiarem o casamento. Pensaram em alternativas para celebrar como alguns casais vêm fazendo?

Não. E não tem nem clima para comemorar. Nosso aniversário foi durante a quarentena, e a gente fez uma comidinha e tomou taça de vinho. Nosso casamento nem ia ser tradicional, com festão. Nunca tive esse sonho. Estamos juntos há seis anos, morando juntos há mais de quatro. Pagamos conta, temos dois cachorros e um gato. É a vida de casado, um status não vai interferir muito. Burocraticamente e juridicamente, estamos em união estável. Mas acho importante esses rituais, esses ciclos de passagem. Então a gente concordou em casar no civil e fazer uma festa bem íntima. O que foi adiado, de fato, foi uma viagem para a Europa, que planejamos como se fosse uma lua de mel mesmo

O mundo acompanhou recentemente uma série de protestos antirracistas. Você namora um homem negro. Quais lições sobre o tema você tem aprendido?

É uma pauta que não é minha, mas está no meu dia a dia por causa dele. Já recebi comentários questionando meu namoro com o Sergio. É muito maluco. As pessoas acham errado esse tipo de relação amorosa existir. Quando a gente sai da nossa bolha e recebe esse tipo de ataque, fica sem entender o que está acontecendo. Existem ainda determinados olhares em restaurantes. E, no lado profissional, vejo que ainda há poucos papéis para negros, embora isso esteja sendo revisto. Mas só vejo porque sou casada com ele. Eu também achava que feminismo era uma luta igual para todas as mulheres. A partir do momento em que li autoras como a Djamila Ribeiro e entendi como as realidades são diferentes, compreendi o feminismo negro e que, dentro de uma causa, eu sou privilegiada. Não passo por situações pelas quais a mulher negra passa. A gente tem, óbvio, que se unir, mas as nossas camadas são diferentes.

Já pensou em como lidar com essas questões com seus filhos?

Sim. Isso é um assunto recorrente aqui em casa porque a gente quer ter filho. E óbvio que não tem como ignorar a maneira com que a sociedade lida com pessoas com a pele mais escura. A gente mora na zona sul, e às vezes os primos do Sergio vêm para casa e os policiais param para perguntar onde eles vão, como se não pudessem estar ali. Não sei como será isso. Rezo para que esse abismo social e racial no Brasil seja menor até lá.

Como foi seu encontro com o feminismo?

Trabalho desde os 13 anos, tenho independência financeira desde os 16 e, mesmo assim, tinha e reproduzia conceitos como o de que o homem tem que ser o provedor e pagar a conta. Fora a competição entre mulheres, que também perpetuei: de falar mal, de julgar e criticar. A gente sempre foi colocada num ringue de disputa, uma contra a outra. Há mais ou menos cinco anos, uma amiga, a atriz Mari Molina, me deu o livro "Meu amigo secreto", do Coletivo Não me Kahlo, em que mulheres contavam no Twitter as primeiras experiências com abusos. Entendi o porquê da causa e de a gente ter que lutar por igualdade salarial, pela nossa independência financeira e emocional. Infelizmente, a gente está longe disso, já que a cada sete horas uma mulher morre vítima de feminicídio no Brasil.

Você já declarou ter sido assediada por um diretor. Foi a partir dessa descoberta que passou a perceber situações de abuso?

Nunca fui abusada fisicamente, mas, conforme a gente vai avaliando, percebe situações desagradáveis ao longo da vida. Ouvia piadas com meu figurino, do tipo: "Nossa, o Sergio já viu que você está com essa roupa?". E pensava ser só uma brincadeira, algo inofensivo. Hoje percebo que isso poderia ter minado minha carreira, me prejudicado numa cena. Tem ainda essa hierarquia de homens mais poderosos se sentirem no direito de te invadirem de alguma forma. Isso é muito recorrente para atrizes novas e mulheres mais vulneráveis. Hoje menos. Já trabalhei em várias emissoras, atualmente trabalho na Globo, e desde o episódio emblemático do José Mayer [em 2017, o ator foi acusado de assédio sexual por uma figurinista], vejo o quanto as políticas dentro da empresa estão sendo revistas. Temos um conjunto de regras a serem seguidas [compliance] onde há o contato direto e anônimo, em que você pode fazer uma denúncia. E já vi casos concretos, na minha frente, de represália e até afastamento. Muita gente não fala nada porque já virou parte do dia a dia.

A gente tem visto atrizes falando sobre isso, fazendo denúncias. Você pensou em denunciar, expor a pessoa?

Não. Talvez mais pra frente. É complicado. A gente vive num mundo que condena a vítima, em que ela é lesada por expor. Esse caso da Juliana Lohmann e da Julia Konrad [atrizes que fizerem denúncias recentemente] é emblemático. Elas são guerreiras, fortes. A gente não sabe o que essas meninas estão passando agora. Principalmente no nosso meio, dito mais liberal, mas onde há muito machismo. O que elas estão fazendo é um tapa na cara de muita gente. Eu nunca fiz [denúncia]. Mas aplaudo de pé essas meninas. É uma coisa estrutural. Maior do que parece. Se eu fizer um "exposed", teria que denunciar uma estrutura inteira. Mas a empresa onde trabalho está tendo mecanismos para defender as mulheres. É muito bacana a gente se dar a mão e vir a público denunciar esse tipo de prática, não só no nosso universo. O problema é que há muito medo, principalmente porque, quando você é pessoa pública, isso toma uma proporção maior.

Hoje sente ainda que há assédio?

No trabalho, não, porque acredito que agora eles têm mais medo e estão revendo seu comportamento. Mas na internet é muito comum. Se posto foto de biquíni, com um pouco mais de pele aparecendo, surgem comentários extremamente sexuais, falando do corpo e da maneira como querem me ter. É de um extremo desrespeito. Mas também recebo elogios legais, como "que foto bonita". Aí ok. Mas chamar de gostosa pra cima? Desculpa. Não é legal. Normalmente, eu deleto. Quando há sexualização, não deixo. E já denunciei perfil também.

Neste ano, teremos eleições municipais. É uma prioridade para você olhar primeiro para a candidata mulher?

Sem dúvida. Quando não temos mulheres legislando para mulheres, não temos, por exemplo, projetos como a ampliação da Lei Maria da Penha. Um projeto bem bacana, para mim, é a lei do vagão feminino, no Rio de Janeiro. Quem fez foi uma deputada [Martha Rocha]. Qual homem legislaria sobre isso? Porque o homem não sabe o que é estar num vagão cheio às 18h. Temos 51% da população feminina no Brasil e 15% de mulheres no Congresso, e 2% delas são negras. Não é nada. Fui criada num mundo com poucas mulheres na política. As meninas precisam de referência.

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