PUBLICIDADE

Topo

"Sonho dela era viver em paz", diz irmã de mulher morta na frente de filhos

Leonice Teixeira  - Arquivo pessoal
Leonice Teixeira Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

24/07/2020 04h00

Leila Teixeira perdeu a irmã no último domingo (19). A pedagoga Leonice Teixeira foi morta a tiros pelo marido na frente dos filhos quando tentava sair de casa, em Camboriú (SC). Dois dias depois, a vítima completaria 33 anos de vida e oito de casamento.

"Agora ela descansou", diz Leila. "O que minha irmã levava não era vida. Já pensou dormir ao lado de um homem que colocava um revólver embaixo do travesseiro? Isso não é a paz que ela tanto queria."

Segundo a Polícia Militar, o comerciante Ricardo Ralf, de 34 anos, atirou duas vezes na mulher quando ela tentava ir embora de casa com os filhos. A corporação diz que o suspeito não aceitava o fim do relacionamento, versão confirmada pela família. O caso é tratado como feminicídio pela Polícia Civil, que ainda coletará depoimentos.

Após matar a esposa, Ralf disparou na própria cabeça e está internado em um hospital local, segundo a família da vítima. Universa ligou para o mercado mantido pela família dele, mas ninguém atendeu.

"Me marcou uma fala da madrinha de casamento enquanto carregava o caixão no sepultamento. Ela dizia que 'há oito anos estávamos levando para o altar. Hoje, estamos levando para o túmulo'. É algo muito doloroso", diz a irmã de Leonice. "Ela foi vítima de feminicídio e não vou me calar até ele pagar."

Ameaças constantes

A família conta que a união começou a desandar há pouco menos de dois anos, depois que Ricardo passou a ter ataques de ciúmes e ameaçá-la de morte.

As juras de morte eram intensificadas quando Ricardo consumia bebidas alcoólicas, segundo a família da vítima. Mesmo com as ameaças, Leonice teria buscado ajuda psicológica e religiosa para resgatar o casamento, mas sem sucesso.

No último domingo, decidiu pôr fim no relacionamento e sair de casa ao ser mais uma vez ameaçada de morte. O casal tinha dois filhos, uma menina de quatro anos e um menino de um ano.

"Ele saía, bebia e usava drogas. Quando retornava para casa, começava a discutir e brigava. Minha irmã tentava arrumar a situação, levou o marido ao psicólogo, à igreja, mas ele sempre recusava. Ela tentou de toda a maneira salvar o casamento pelos filhos. Mas, quando viu que não tinha mais jeito, decidiu sair", conta Leila.

Ela lembra que Leonice sofreu agressão física duas vezes e era alvo constante de ameaças. Foi quando começou o trabalho como consultora de cosméticos, em busca de independência financeira, que o marido teria mudado drasticamente de comportamento.

"Depois que ela começou a trabalhar como consultora, se valorizou muito mais. Se arrumava, maquiava, fazia as unhas. Isso despertava olhares e ele vivia cheio de ciúmes, fuçando o celular dela para ver se achava algo. Não a deixava sair ou a seguia mesmo quando passeava apenas com meninas. Não era nem tanto agressão física, mas psicológica", diz a irmã.

Os parentes relatam que as ameaças de morte também atingiam as crianças. A vítima teria contado aos familiares que ele pretendia matar a família inteira ou assassinar os filhos para Leonice "conviver com a dor" da perda caso optasse pelo divórcio.

"Ele dizia que, se fosse para se separar, iria acabar com a família, matando a Nice e as crianças. Outra vez, disse que mataria as crianças e se suicidaria, deixando ela viva para conviver com essa dor. A pressão na cabeça dela era demais."

Leonice, no entanto, nunca registrou um boletim de ocorrência contra Ricardo.

"Minha irmã tinha medo e não queria ver o pai dos filhos dela preso", diz Leila.

Crianças foram salvas pelas tias

Era manhã de domingo em Camboriú, quando Leila recebeu um áudio de Leonice pedindo ajuda. Ela queria auxílio na mudança com as malas e com as crianças, pois estava decidida a sair de casa.

Ricardo estava no trabalho, no mercado que mantém com os pais na cidade. Ele retornou para casa e tentou impedir que Leonice arrumasse seus pertences.

Leonice estava recebendo ajuda de Leila, de uma outra irmã e do pai delas. Eles ainda tentaram impedir Ricardo. "Como é muito forte e grande, não conseguimos."

A família de Leonice deixou as crianças no carro do casal. Ricardo teria ido armado ao encontro dos filhos, que foram salvos pelas tias.

"Saímos correndo e colocamos as crianças dentro do carro do nosso pai para fugir. Nisso, ele falou que a minha irmã não iria embora. Foi quando deu o primeiro tiro, nas costas. Depois, se aproximou, encostou a arma no lado esquerdo da testa dela e atirou à queima-roupa. A intenção era matar mesmo, não ferir", disse Leila, ainda muito abalada.

Após atirar contra a esposa, Ricardo teria disparado contra a própria cabeça.

"Trabalhador e do bem"

Ricardo é de uma tradicional família de comerciantes em Camboriú. Até o início das ameaças contra Leonice, era visto como uma pessoa trabalhadora e do bem. Os problemas, no entanto, aconteciam quando ele bebia e tinha ataques de ciúmes.

O estilo agressivo recentemente incorporado por Ricardo contrastava com o de Leonice, considerada "uma pessoa feliz e que contagiava todo mundo com a alegria onde chegava". Segundo a irmã, ela não comentava os problemas de casamento com as amigas porque "não queria incomodar ninguém".

"Esse não foi o homem com quem minha irmã se casou e que a gente conhecia. Era um monstro [no dia do crime]. Matou minha irmã na frente de um pai. Isso não se faz", lamenta Leila.

Em busca de um recomeço

Além de consultora, a vítima era secretária escolar na prefeitura de Camboriú, que emitiu nota de pesar lamentando a tragédia. Leonice buscava se estabilizar financeiramente para deixar a casa e morar em outro lugar com os filhos.

"A alegria da vida dela eram as crianças. Foi atingida pelo tiro correndo em direção ao carro onde eles estavam. Era como se estivesse protegendo os dois. O sonho dela era muito simples: viver em paz e recomeçar a vida ao lado deles", diz a irmã.

"Não consigo esquecer a imagem do meu pai ajoelhado ao lado do corpo da minha irmã e pedindo desculpas por não ter conseguido salvá-la. Jurei para ela que poderia ir em paz porque cuidaria dos filhos dela assim como crio a minha família. Sei como é o amor de mãe."

Violência contra a mulher