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#AssédioNoQuartel: Tenente-coronel cria movimento contra machismo militar

A tenente-coronel Camila Paiva - Reprodução/Instagram
A tenente-coronel Camila Paiva Imagem: Reprodução/Instagram

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

24/07/2020 04h00

A tenente-coronel Camila Paiva integra o Corpo de Bombeiros de Alagoas e, assim como outras mulheres, cansou de sofrer com o machismo no ambiente militar. Desafiada a participar da moda de postar uma foto em preto e branco, ela fez uma publicação: pela luta contra o machismo nas corporações.

A Universa, Camila contou que a ideia da campanha foi motivada por uma sequência de acontecimentos em apenas três dias e que a proposta vem ganhando força nos quartéis, com relatos de bombeiros e policiais de todos os estados denunciando seus casos. Um perfil no Instagram agora reúne mais de 300 depoimentos e conta com 33 mil seguidores.

"O que aconteceu primeiro foi um áudio vazado de um policial militar do Ceará há uma semana falando que as mulheres no quartel deveriam ter a função de tirar o estresse do homem, que elas deviam ficar lá para quando ele chegassem estressados, elas virem lá 'tirar' os estresses deles, meia hora com um, meia hora com outro. Ou seja, sugerindo tarefas sexuais", conta.

Com o áudio em mãos, ela fez um vídeo denunciando o caso, e a postagem viralizou. "Aí eu comecei a receber vários relatos de várias militares do Brasil inteiro falando sobre situações de assédio, de abuso, de importunação sexual, de machismo, de misoginia. Aí fui e fiz um outro vídeo, que também viralizou no meio principalmente militar", conta.

Essa é a história de "Maria"!!! Maria é militar, oficial, um certo dia ela estava na sala do seu chefe, um Coronel que acabara de ser promovido, então o Coronel lhe disse: " Maria eu mereço os parabéns especial" , enquanto se aproximava dela e a encurralada entre ele e a parede, "Maria" sem graça, nervosa e trêmula não sabia o que fazer ou dizer, e disse " Chefe como assim? Eu acho que o Sr está confundindo as coisas. O Coronel a agarrou e tentou beijá-la à força. " Maria tentou desvencilhar-se, empurrando-o e correndo para a porta e quando ela estava abrindo-a pra fugir ele disse: cuidado com o que vc vai fazer ou falar, nada aconteceu aqui. "Maria" se sentiu péssima, um lixo, pensou: " será que a culpa foi minha? O que eu fiz de errado pra ele agir assim? Ela não disse a ninguém, não fez um documento, afinal só estavam os dois na sala, era a palavra dela contra a dele, ela nao tinha provas, além disso o Chefe dela era da mesma turma do Corregedor, do Comandante Geral, amigo do Subcmt Geral. Maria então foi transferida, perseguida, humilhada, vivia com medo e com vergonha, e até hj essa cena não sai da sua cabeça. Quantas "Marias" vc conhece? Quantas histórias de "Marias" semelhantes a essa vc já ouviu ou viveu? Quantas situações de assédio sexual, moral, abuso ou "brincadeiras" que menosprezam, difamam ou humilham mulheres vc já tomou conhecimento? Eu fui marcada e desafiada por mta gente pra participar do desafio da foto preto e branco, mas resolvi cumprir meu desafio assim, contando a história de "Maria" dentre tantas que eu ouvi. Agora desafio vc a postar uma foto preto e branca, não feliz, não linda e não sorrindo, mas uma foto que represente esse momento, e relate uma história de alguma "Maria". Vamos registrar essas histórias nas nossas redes sociais para que não sejam mais apenas fantasmas a nos assombrar, para que nas histórias das "Marias" seja contada a realidade!! Usem as hastags #assédionoquartel #nãovamosnoscalar #basta #mulheresunidas #exigimosrespeito

Uma publicação compartilhada por Camila Paiva (@camilapaivabm) em

"Será que gosta de 'rola' aí?", diz PM

Por conta da repercussão das postagens, ela mesma virou alvo. Ainda no sábado, ela recebeu um print de um comentário feito sobre ela em um grupo de oficiais no WhatsApp. Um dos militares mandou um vídeo postado por ela de biquíni em seu Instagram.

"É um grupo só de oficiais que jogam futebol. São só homens, tanto da PM [Polícia Militar] como do Corpo de Bombeiros. Nesse grupo, uma pessoa postou um vídeo meu de biquíni, e um major da PM fez o comentário: 'Será que gosta de rola aí?' em relação a mim. Outros militares o repreenderam, disseram que era absurdo. Ele apagou, mas ficou lá gravado", conta.

A partir desse print, ela fez um terceiro vídeo tornando público o próprio caso. Ela também decidiu fazer uma denúncia contra o policial que fez o comentário na Corregedoria da PM.

"Além de tudo ele era meu subordinado hierárquico, não me respeitou nem como pessoa, nem como mulher, nem como superiora hierárquica dele profissionalmente. Ele não teve o mínimo constrangimento, mesmo sendo um major e eu, tenente-coronel", diz.

Campanha já reuniu mais de 300 relatos

No domingo, ela lançou um desafio a suas colegas: que as militares contassem seus casos postando uma foto em preto e branco e se intitulando como "Maria". Para isso, ela foi a primeira a postar a foto e contando um caso de assédio vivido por outra "Maria."

De lá para cá, Camila já recebeu mais de 300 relatos —boa parte republicada nos stories de sua conta e no perfil de uma colega bombeira de Minas Gerais.

Somos todas MARIAS !! MARIA, com 2 duas semanas de polícia, foi cumprir sua escala em seu serviço de viatura de policiamento ostensivo geral, ainda muito feliz e contente por todas suas recentes conquistas!! . Após várias horas, tarde da noite, outra viatura encosta ao lado e o comandante começa a gritar aos berros com o comandante dela dizendo: "01 manda essa pfem pra cá, pra eu dormir sentindo o cheiro dela, pra minha noite e a dos meus companheiros ficar mais alegre, mostrar pra ela o que é ser polícia. Meu sonho !!" e entre outra palavras e gritaria, todos ficaram atônitos como tudo que ele dizia. . Logo após o término do serviço, não bastando todo o constrangimento, conseguiu seu número e enviava inúmeras mensagens assediadoras e desconfortantes, necessário foi bloquear, necessário foi usar de comportamento ríspido e agressivo. . Depois deste dia, Maria tomou uma postura ainda mais fechada, buscou formas de se proteger, e conseguiu, mas saiu daquela companhia com a fama de ignorante, antipática, ríspida e mal educada. . Este não é o único relata de Maria, talvez não seja a última também, mas esta cena foi a que mudou completamente sua postura com seus companheiros de trabalho. . Somos todas Maria! . Desafio aceito!! ? ? ? Quantas "MARIAS" vc conhece? Quantas histórias de "Marias" semelhantes a essa vc já ouviu ou viveu? Quantas situações de assédio sexual, moral, abuso ou "brincadeiras" que menosprezam, difamam ou humilham mulheres vc já tomou conhecimento? Agora desafio você a participar do desafio da foto preto e branco, iniciado pela admirável @camilapaivabm contando a história de "Maria" dentre tantas que você ouviu, certamente. Poste uma foto preto e branca, não feliz, não linda e não sorrindo, mas uma foto que represente esse momento, e relate uma história de alguma "Maria". Vamos registrar essas histórias nas nossas redes sociais para que não sejam mais apenas fantasmas a nos assombrar, para que nas histórias das "Marias" seja contada a realidade!! Usem as hastags #assédionoquartel #nãovamosnoscalar #basta #mulheresunidas #exigimosrespeito #respeiteapolicialfeminina #assedionobatalhao #respeiteapolicialfem

Uma publicação compartilhada por Sargento Isis BM/CBMMG/BR (@eubombeira) em

Camila diz que a situação atinge muitas mulheres da corporação, especialmente de patentes menores, que optam pelo silêncio por medo de represálias. "Se isso acontece comigo, tenente-coronel, imagina com soldado, com sargento, com as praças, que são a base da corporação? A partir daí gerou todo o movimento porque nós somos todas 'Marias'", diz ela.

O silêncio, diz ela, é fruto do medo de represálias. "As mulheres têm muitos casos, mas nunca querem relatar porque muitas que falaram foram perseguidas, transferidas. Até mesmo o procedimento disciplinar se voltou contra elas. Geralmente quando acontece está só o abusador e a vítima, e elas não têm provas. Há casos até em que foram processadas. Então elas não falam", conta.

Para ela, é preciso que mais militares tornem público os seus casos de assédio. "As mulheres estão compartilhando, e é preciso dar voz a essas mulheres, porque a instituição militar é muito masculinizada e muito machista. Lá são 90% homens, é lógico que é mais potencializado o machismo. E nunca se fala sobre isso, é um assunto quase que proibido. Por isso pedi para que elas postassem casos de assédio", completa.

Entretanto, ela deixa claro que não se trata de uma luta contra as corporações militares. "As corporações são respeitáveis, têm missão digna, desenvolvem um trabalho muito bonito. Essas ações são feitas por pessoas, e são esses indivíduos que precisam ser identificados e punidos", diz.

Corporações repudiam machismo e preconceito

Por meio de nota, a PM do Ceará diz que "rechaça, veementemente, os comentários preconceituosos sobre a atuação da mulher policial na corporação, proferidos por um de seus integrantes em aplicativo de conversas na noite de ontem [último domingo]. Todas as mulheres que compõem os quadros da Polícia Militar do Ceará merecem respeito, são todas profissionais dedicadas ao mister de servir e proteger a sociedade cearense", diz o texto.

O comando do Corpo de Bombeiros de Alagoas também se manifestou por nota e disse "reiterar, em nome dos valores da Corporação, seu repúdio a todo e qualquer ato relacionado a abusos, misoginia ou preconceito de gênero, praticado contra militar ou civil dentro ou fora do âmbito castrense."

Diz ainda que o comando encaminhou "para devida apuração legal e imparcial, a luz dos regulamentos, fatos do gênero quem tenham ocorrido envolvendo militares da corporação e cheguem ao conhecimento institucional por meio dos canais devidos".

A PM de Alagoas informou que a Corregedoria recebeu a denúncia e que, "diante dos fatos apresentados, a PM-AL adotará as medidas necessárias para apuração da denúncia, reafirmando o seu respeito a todas as profissionais da Segurança Pública."

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