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Quem é o 'nutricionista gordo' que defende saúde para todos os tamanhos

Erick Cuzziol, nutricionista gordo - Divulgação
Erick Cuzziol, nutricionista gordo Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

22/07/2020 04h00

"Vamos falar do comer? De comida e da vida?". É esse o convite que Erick Cuzziol faz a seus seguidores no Instagram, com um perfil que já desafia a gordofobia até no nome: "Nutricionista gordo". Há quase três anos, o profissional da saúde, que tem consultório em São Paulo (SP), resolveu mudar a forma como se apresenta na rede social. Tudo para subverter a lógica que prende os nutricionistas a sua própria imagem.

"É muito comum entre os nutricionistas a frase 'Você tem que ser seu próprio cartão de visita'. E essa associação se tornou algo exaustivo", explica, sobre a pressão que associa magreza à saúde. "Eu já cheguei em entrevista de emprego em que me disseram: 'Mas, como você vai atender a pessoa gorda?'. E eu dizia que eu entendia as dificuldades delas".

Nutricionista gordo no Instagram

Engajado com a "saúde em todos os tamanhos", como se lê na descrição do perfil @nutricionistagordo, Erick era alvo de comentários gordofóbicos desde a faculdade. A situação se agravou, diz, depois de 2013, quando a American Medical Association, uma das organizações médicas mais influentes do mundo, decidiu classificar a obesidade como doença.Mas para ele, o peso era uma questão para ele, aliás, desde a infância.

"Eu tinha compulsão alimentar. Por não conseguir encontrar emprego depois de formado, caí em depressão e comecei a ganhar mais peso. Quando atingi 160 quilos, ouvi da minha mãe que eu tinha me largado. Tentei o suicídio. Resolvi fazer a cirurgia bariátrica. Nesse processo, enfrentei muitas agressões, desde não ter dinheiro para a cirurgia a ter ouvido uma cardiologista gritar comigo quando eu subi na balança", relata. "Tudo porque eu tinha engordado mais, e ela disse que não tinha que perder tempo com pessoas como eu".

Apesar do trauma, fez o procedimento. Perdeu 70 kg. E diz que se submeter à cirurgia, ainda hoje, foi um tiro no escuro para sua saúde. "Eu posso ter efeitos colaterais que meus médicos não sabem se vão aparecer no meu corpo", pontua. "E, na época, eu pensava: se eu morrer, pelo menos eu não deixei de tentar. Quer dizer, eu não me importava em viver, não em um corpo gordo".

Para o nutricionista, a intervenção cirúrgica é uma alternativa válida para casos graves. "É importante evitar a banalização da bariátrica, até porque hoje temos procedimentos que não deixam tantos efeitos colaterais. Ela é um recurso para quem está em grande sofrimento e precisa recomeçar o autocuidado, mas não vê como", pontua. "É complicado ver quando ela é recomendada a quem não tem comorbidades ou necessidade de interferir no organismo com essa cirurgia".

Pós-bariátrica e nutrição comportamental

Mesmo após a drástica perda de peso, Cuzziol ainda buscava equilíbrio com seu corpo e na relação com a alimentação.

Nessa época, teve ao conceito da nutrição comportamental, que tem como uma das referências o livro "O peso das dietas", da nutricionista Sophie Deram, e, ao mesmo tempo, acompanhar a militância contra gordofobia na internet fez com que o nutricionista passasse a parar de sofrer pelo corpo. "Tudo aquilo me mostrava que o que eu passava não era saudável. Eu, como um profissional da saúde, descobri isso pelas dores dos outros".

No âmbito profissional, a virada de chave aconteceu quando Erick viu o comentário de outro nutricionista dizendo que "a pessoa obesa não poderia dar desculpa para ser gorda" ao divulgar um estudo pouco confiável que relacionava o metabolismo lento a ser gordo. "Fiquei bravo. A pessoa gorda não tem que dar desculpa para ele, nem para ninguém". Em 2017, "em um dia 7 de setembro", resolveu se libertar. E trocou o perfil do Instagram para o nome "Nutricionista gordo".

"Comecei a ter acesso a estudos científicos que mostram aquilo que eu já sabia, por viver, mas não era comprovado: os prejuízos da dieta no metabolismo e o quão grave é o impacto da gordofobia na vida das pessoas. Estudos mais recentes mostram também que hábitos saudáveis impactam no corpo gordo tanto quanto no corpo magro", diz.

"Ou seja, é a comprovação de que não precisa emagrecer ou ser magro para ter saúde; o mais importante é que se perceba se esse corpo gordo evolui, isto é, se aumenta; porque aí podem ter outros desdobramentos, como perder a locomoção".

Obesidade como doença

Para a OMS, a obesidade é uma doença crônica. Só que em vez de a classificação contribuir para que se explore o preceito de que ser gordo pode estar associado a múltiplas questões — e que não é uma escolha comportamental — ela traz estigma para as pessoas gordas, analisa Cuzziol.

"Era para parar de culpar a pessoa gorda por ser gorda. Só que quem trata obesidade como doença aproveita para ser gordofóbico. Bem, se é uma doença, eu digo, é para respeitar, tratar com dignidade. Qual doença é tratada com agressividade?".

É neste momento que o nutricionista, ao atender pessoas gordas, exercita a empatia de quem esteve no mesmo lugar. "É preciso ensinar a comer e ajudar a resgatar o autocuidado, porque elas estão machucadas por tudo que passaram. Paciente já me disse que ouviu uma nutricionista perguntar o que ela estava fazendo lá".

Por não acreditar em dietas que tenham o emagrecimento como objetivo principal, Cuzziol diz que sua estratégia é de dar autonomia ao paciente para que ele passe a ter liberdade e qualidade de escolhas. "Explico as sensações do corpo gordo, por exemplo, a fome que ele pode ter e que incomoda, dou receitas de refeições. Tudo para que ele tenha qualidade de vida. Todos os alimentos são liberados; porque não existe alimento bom ou ruim; tudo está no contexto", avalia.

"As pessoas acham que se comerem Mc Donald's vão ser fracas e, ao pensar assim, não aproveitam o lanche. Eu e o paciente organizamos, juntos, como saciar as vontades; e com o tempo, eles passam a relatar que até deixam de comer alimentos como chocolate e refrigerante, porque estão atentos às sensações do corpo".

Para além da alimentação, o nutricionista ouve as dificuldades dos pacientes em relação à autoimagem. "Há os que dizem que tentam se amar, mas que ainda se sentem desconfortável. Então, atuo para que a pessoa pense sobre o consumo equilibrado dos alimentos. Nunca é uma recomendação de ter que emagrecer".

Cuzziol, aliás, faz um alerta para que está na corda bamba entre aceitar ou modificar a forma física e acompanha ativistas do body positive nas redes. "Há alguns ativistas que trabalham realmente para que as pessoas gordas parem de sentir dor, alguns nem ganham dinheiro com isso. É um movimento importante, que me libertou. Mas, seja com o tema de autoaceitação do corpo ou de emagrecimento, a dica é a mesma: se causou angústia, deixa de seguir o perfil".