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Atriz Cristiane Machado, que denunciou ex: Vivo segunda luta pra sobreviver

Mesmo após prisão de ex, atriz Cristiane Machado diz conviver com violência doméstica: "Há perseguição e intimidação" - Divulgação
Mesmo após prisão de ex, atriz Cristiane Machado diz conviver com violência doméstica: "Há perseguição e intimidação" Imagem: Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

15/07/2020 04h00

Em 2018, a atriz Cristiane Machado, que atuou em novelas da Globo como "Amor à Vida" e "Malhação", foi vítima de agressões cometidas pelo marido dentro da casa em que viviam. Antes de denunciá-lo para a polícia, escondeu uma câmera no quarto e gravou vários episódios de violência, entre os quais uma tentativa de estrangulamento. As imagens foram divulgadas no Fantástico no mesmo ano. Seu companheiro na época era o ex-diplomata Sérgio Schiller Thompson-Flores, com quem Cristiane estava casada desde 2017. Ele foi julgado e, em setembro de 2019, condenado a três anos de prisão em regime semiaberto. A defesa alega que a denúncia não procede, que os vídeos foram adulterados e que recorreria da decisão. Thompson-Flores chegou a criar páginas em redes sociais para explicar sua versão do ocorrido e pedir o fim da Lei Maria da Penha.

Nas cenas filmadas, é possível ver Cristiane ser enforcada com um fio de telefone. Ela sobreviveu à violência doméstica. "Ele tentou me matar. Teve um dia que me estrangulou, pensei que seria ali", diz. Agora, dois anos após denunciá-lo, vive a segunda luta para sobreviver. "Tenho depressão e pesadelos com esse dia. Durmo no máximo três horas por noite, convivo com crises de ansiedade, desenvolvi anorexia, que é parte do estresse pós-traumático. Não tenho residência fixa por medo do meu agressor e levo câmeras para os lugares onde durmo", diz. "Há manhãs em que, ao acordar, falo: 'Meu Deus, eu não queria que isso tivesse acontecido com a minha vida'. O impacto é psicológico e profundo", desabafa. Cristiane conta que, no início, teve dificuldade para voltar ao trabalho por causa do trauma.

A atriz está escrevendo um livro com relatos de outras vítimas —que ela faz questão de chamar, também, de sobreviventes— focando, principalmente, o momento pós-denúncia. "A gente ouve muito que as mulheres têm que denunciar, mesmo em campanhas e na imprensa, as orientações são sempre nesse sentido. Mas ninguém fala sobre o que acontece depois da denúncia, onde a mulher pode procurar ajuda para superar o trauma. Na maioria das vezes, a perseguição continua e, consequentemente, a violência psicológica."


"Me chamo de sobrevivente porque vi a morte de perto"

A atriz foi ameaçada de morte e relembra com precisão a frase usada pelo então marido: "Eu vou matar você e seus pais". "Só de ouvir isso da pessoa que eu amava, com que eu casei e que escolhi para construir uma vida já é um impacto profundo com que lido até hoje, com terapia", conta.

"Por isso, acho importante para a mulher ter um amparo, uma rede de apoio no momento posterior à separação. E me refiro ao longo prazo porque, na maioria das vezes, a violência doméstica não acaba quando o agressor é denunciado."

Mesmo com uma medida protetiva, que impede o ex de se aproximar sob risco de ser preso em flagrante, a ansiedade gerada pela possibilidade de ele estar por perto o medo constante de morrer a perseguem até hoje. "Me dizem que sou corajosa por falar publicamente sobre o que vivi. Mas também tenho medo de morrer. Muito. Até hoje, choro e tenho crises de ansiedade pensando que pode acontecer de novo."

Por isso, ela faz questão de usar o termo "sobrevivente" também para o momento pós-denúncia. "A intimidação continua, é uma violência psicológica horrorosa. É a segunda luta para estar viva, para que a minha vida volte a ser só minha e não mais controlada por ele. Tenho que lembrar diariamente que sou dona da minha história."


Aparelho que apita quando ex se aproxima já tocou 7 vezes

Cristiane foi uma das primeiras mulheres autorizadas pela Justiça do Rio de Janeiro a usar uma tecnologia desenvolvida para alertar a vítima de violência doméstica de que o agressor está por perto. Ela anda com um aparelho, uma espécie de pager, que vibra e pisca, com luzes nas cores verde, vermelho e azul, quando reconhece que a tornozeleira eletrônica que o ex é obrigado a usar se aproxima.

"Na primeira vez que tocou, eu estava saindo da galeria onde faço terapia. Fui mexer na bolsa, peguei o aparelho e começou a vibrar. Pensei: 'Vou ficar aqui, perto de pessoas, para me proteger.' Esperei 11 minutos até parar de tocar", diz. "Depois disso, foram outras vezes. No total, tocou sete vezes nesses dois anos."

A proximidade do agressor, proibido por medida protetiva de ter qualquer contato com a vítima, foi relatada às autoridades. "Mas, até agora, nada foi feito", conta Cristiane, que afirma ter se tornado uma ativista da causa da violência contra mulheres justamente para ajudar outras pessoas e fazer coro à pressão para que as autoridades sejam mais ágeis nos serviços prestados. Após se envolver na causa, começou a participar de palestras, debates e eventos sobre o tema.

"Só existe uma maneira de acabar com a violência doméstica: a sociedade não se calar. É preciso uma rede de apoio bem preparada para receber essa mulher. Aí entram a polícia e o judiciário falando a mesma língua para que medidas sejam tomadas com mais agilidade. Só assim a mulher consegue retomar sua vida após uma denúncia."

Violência contra a mulher