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Angela Ro Ro: "Só me deu tesão pra valer depois dos 60"

A cantora Angela Ro Ro está em isolamento, em Saquarema, RJ - Alexandre Moreira/Divulgação
A cantora Angela Ro Ro está em isolamento, em Saquarema, RJ Imagem: Alexandre Moreira/Divulgação

Luiza Souto

De Universa

13/07/2020 04h00

Num bate-papo de quase duas horas ao telefone, a cantora Angela Ro Ro, 70, repete algumas vezes ser "sagiotária", uma mistura de seu signo, Sagitário, com otária. E complementa: "Com ascendente câncer e lua em gêmeos". Resumindo: uma pessoa entusiasmada, otimista, impulsiva e inclinada a um certo exagero, segundo fontes que tentaram ajudar a reportagem a desvendar esse combinado astrológico.

E deve ser mesmo por aí. Com dificuldades financeiras, a cantora não se fez de rogada e pediu recentemente doações aos fãs em seu Instagram. Sem entregar o valor arrecadado, diz que conseguiu pagar o que devia e, de quebra, fechou uma live.

Vítima de cinco espancamentos e três tentativas de estupro, ela prefere celebrar a vida a reclamar das sequelas que as agressões causaram: "Perdi a audição e um olho e meio. Mas acredita que sou grata? Porque meio olho enxerga".

Isolada desde fevereiro em Saquarema (RJ), a carioca jura que está solteira e justifica assim os posts publicados ao lado de uma mulher chamando-a de amor, depois acusando-a de traição e, por fim, pedindo perdão: "Deve ter sido um sonho".

Falida, não

Na tarde de 19 de junho, Angela postou em seu Instagram um texto em que se lê: "Estou passando dificuldade financeira. Quem puder depositar apenas R$ 10, agradeço! Saúde a Todos", junto a seus dados bancários.

Com a pandemia provocada pelo novo coronavírus, ela explicou que ficou sem fazer shows, mas não por isso deixou de pagar sua funcionária doméstica e o caseiro, que estão cumprindo a quarentena cada um em sua casa. Com isso, conta, a poupança foi minguando, até que resolveu pedir ajuda antes que ficasse zerada.

"Lógico que tenho conta para pagar, como plano de saúde de velhinha, que é um absurdo. Fiquei apavorada porque a poupança acabou quase toda. Mas não estou falida. Antes de chegar ao ponto de ter dívidas ativas arroladas como uma bola de neve, de deixar o perrengue chegar, fiz o post, sem desespero ou vídeo chorando. Sem drama.

É a única vez que vou poder pedir dinheiro na vida. Não tenho tempo nem sou pastora. Me senti como uma monja budista, que recebe oferenda e em troca vou doar música, poesia e alto astral. Não tenho religião, mas a cada R$ 10 que entra, na mesma hora faço pensamento para a pessoa que ajudou."

Mas quero trabalhar, não viver de doações, gente. A música é uma necessidade fisiológica.

Sem inveja da live alheia

"Vivo uma vida difícil, e não sou a única. Mas não vou me comparar com o proletário, o pobre miserável, e sim com outros colegas artistas. Nem todos são felizes como a Ana Carolina e Maria Bethânia", diz Angela.

"Os patrocinadores, em geral, com pandemia ou não, só ajudam um Roberto Carlos da vida, quem não precisa. Mas não tenho inveja mesmo. Se um colega de trabalho, pode nem ser meu amigo, se dá bem, me sinto bem. E, se estiver passando dificuldade, sou solidária. Agora, se eu estou preocupada com o dia de amanhã, imagine o trabalhador classe média baixa."

De Vila Isabel à Ipanema por dois cavalos

"Papai, que era baiano, fecundou mamãe, mineira, num Carnaval. Ia nascer onde eles estavam, um quarto com buraquinho de hall e sem banheiro, em Vila Isabel (zona norte do Rio). Dei sorte porque, quando minha mãe estava com uns quatro meses de gravidez, eles foram ao Jóquei. Ela apostou em dois azarões. E só sei que os dois pangarés ganharam a corrida.

Não sou a favor do jogo. Mas olha só, que loucura. Nisso, a gente virou rico, entre aspas. Nasci já em outro padrão, em Ipanema (zona sul), num apartamento com dois quartos e uma sala. Pude ser criada com banheiro e higiene. Então só tenho a agradecer à vida."

Meu amor é a música

Em abril deste ano, Angela publicou em seu Instagram um registro de um passeio que fez por Saquarema, com uma mulher. No texto, dizia "Te amo, minha linda!", entre outras coisas apaixonadas. Na véspera do Dia dos Namorados, uma nova declaração: "Amor amigo desde 17/3/2019. Te amo tanto! Todos os dias são das namoradas". E numa entrevista ao jornal carioca Extra, teria afirmado estar vivendo a maior história de amor de sua vida.

Mas, semanas depois, trocou as declarações por um desabafo: disse, também na rede social, ter sido usada e traída. Em seguida, voltou para pedir perdão "por tamanha injustiça que cometi contra quem me ama tanto. Fruto da minha insegurança e medo".

Mas todos esses posts foram apagados. Das redes e da vida de Angela. Agora, ela nega o relacionamento e insiste em mudar de assunto.

"Estou sozinha desde fevereiro, quando vim para passar o Carnaval e a quarentena me pegou. Não estou namorando ninguém. O que saiu de post foram equívocos. Vieram as notícias falsas, e não vou mais culpar a imprensa. Alguns posts coloquei emocionada, mas nem dei nomes ou sobrenome e profissão", diz a cantora.

"Deve ter sido algum sonho meu. A gente sonha, pensa que é realidade e, quando acorda, diz que é um sonho. Foi só isso. Meu amor maior, e hoje único, continua sendo a minha música."

"Bruna Lombardi é um milagre, não uma mulher"

Se Angela fez questão de apagar qualquer vestígio de um suposto relacionamento, está lá, na página dela, para quem quiser conferir, um vídeo em que nada numa piscina nua. Nele, avisa: "A pedidos, o nude da quatentena!".

!A PEDIDOS O NUDE DA QUATENTENA!$AUDE A TODOS!

Uma publicação compartilhada por Angela Ro Ro ÚNICA&OFICIAL (@angela_ro_ro_oficial) em

"Fiz esse vídeo antes de qualquer barafunda, de pandemia, como exemplo de otimismo, desejando prosperidade e confiança. Parecia que estava adivinhando. Minhas postagens são sempre de hippie", diz a cantora.

"Se mando nudes? Não! Está louca?! Não tiro a roupa na frente de ninguém. Obviamente meu corpo não é durinho, porque não faço academia nem nunca fiz. Aos 49 anos, cheguei a pesar 130 quilos. Perdi 70 e até hoje conservo. Obviamente, depois dos 50, você murcha, e fiquei flácida. Não sou como a Bruna Lombardi. Aquilo ali é um milagre, não uma mulher. Mas não tenho vergonha do meu corpo."

Sexo, só com amor

"Sempre perguntam sobre sexo na terceira idade. Vou falar uma coisa que já disse para um monte de gente: Eu brochei minha juventude e maturidade toda. Acredite se quiser. É verdade. Sabe que só me deu tesão para valer depois dos 60? Não sei por quê. Sou toda diferente, anticronológica.

Na adolescência, tesão nem pensar. Fui virgem até 15 minutos atrás. Era beijo na boca e só. Dos 50 para os 60 anos, comecei a animar. E falei: 'Meu Deus, sou brocha. Todo mundo fazendo sexo, menos eu'.

Eu casava, era ótima esposa e 'pãe', quando a pessoa vinha com filho. Mas sexo? Não fazia. Hoje, tenho grande tesão, só para contrariar.

Mas não sou nenhuma tarada, não. Acho que as pessoas não entenderam bem o que é sexo. Ele ainda é um problema, tabu, e usado como arma para estupro, morte, motivo de feminicídio. Eu sou sadia nisso. Sexo é sexo, não tem que explicar nem é um problema que eu tenha que resolver.

Não fico pensando quando vou transar de novo. Tenho mais o que fazer. Não consigo fazer sexo sem amor. Eu me apaixono, faço poesia. Não sou de pegação."

Fico bem sozinha. Me divirto muito só.

Pior do que na ditadura

"Infelizmente estamos entregues a milicianos, traficantes de drogas, de armas e a imbecis. Mas o povo brasileiro não é isso. Isso que descrevi são alguns cargos de poder.

A ditadura foi um golpe. Esse governo foi eleito. Hoje, está pior do que na ditadura. Porque estamos lidando com uma pandemia e há um desrespeito dos cargos vigentes, desde os municipais à presidência. Quem deixa o vagão lotar, quem deixa abrirem os bares? Isso é suicídio. Genocídio. Homicídio."

Mas menos pior para homossexuais

"Agora está melhor, mas por causa dos governos anteriores. Não vou fazer campanha para nenhum partido. O que temos de bom em termos de política, para abrir caminhos para os outros, deve-se muito a Lula e a Dilma. Agora, há 50 anos, eu não via violência contra homossexual como vejo hoje. Nem no subúrbio nem na zona sul. Hoje, espancam as pessoas até a morte, no meio do metrô, e ninguém toma providência.

Esse senhor que está aí na presidência, eleito pelo povo —não por mim—, é extremamente fóbico contra tudo. Até covid e pandemia ele leva no deboche. Ainda tem apologia à tortura e ao nazismo. Só fez coisas absurdas que nem em máfia que aparece em filme é tão escancarado assim."

Acolhimento em casa deu segurança para se assumir

"Sabe a paixão que as crianças tinham por Xuxa, Angélica e Mara Maravilha? Era assim quando eu via a [vedete] Virgínia Lane na televisão. Deve ter sido a primeira bandeira lésbica que dei.

Fui muito acolhida na minha própria casa. Meus pais jamais me ofenderam e deixaram bem claro que me amariam sempre. Minha mãe já me xingou de tudo, mas nunca pela opção sexual, e sim pela bagunça, pela organização. Isso me deu segurança também."

Tentativas de estupro

"Já fui espancada cinco vezes por homofobia, pela polícia. Dessas, três também foram tentativa de estupro. Perdi a audição e um olho e meio. Mas acredita que sou grata? Porque meio olho enxerga. O que foi foi. Vou ficar me amargando?

Uma vez, quando tinha 35 anos, estava num restaurante com duas amigas, na Pedra de Guaratiba (zona oeste do Rio). Era 21h30. Tinha quatro policiais totalmente drogados no lado de fora. Um deles foi me abordar dentro do toalete do restaurante. Deu um tranco na porta e saiu suspendendo minha roupa. Eu estava de salto, um macacão de lycra e decote. Sempre tive peitão. E o cara passou a mão em mim e falei: 'Qual é?'.

Ele não se conformou. Quando saí do restaurante, três deles me arrebentaram inteira. Minhas amigas conseguiram fugir. Bateram muito na minha cabeça, com barra de ferro. Fiquei 11 dias internada. A Narinha, mulher do Erasmo Carlos na época, estava internada lá também, depois de um acidente com uma arma. E, ainda assim, foi me visitar no quarto com soro e um projétil na barriga. E eu não conseguia ficar de pé.

Medo? Ainda morro de medo. Lógico. Numa outra vez, me interceptaram no Recreio e me levaram para o antigo prédio do Instituto Médico Legal. Eram dois PMs tentando me pegar. Eu falei: 'Vou morrer, mas não dou para esses sujeitos'.

Abriram a sala do necrotério e me fizeram o que chamam de telefone na tortura. Deram três vezes na minha cabeça e no ouvido. Até que desceu aquele sangue grosso. Puxaram meus braços para trás e enfiaram o coturno no meio das minhas costas. Tive lesão em três vértebras. Era para ter ficado paraplégica."

"Nunca agredi ninguém"

Em abril de 1981, Angela estampou páginas policiais ao parar na 15ª DP, na Gávea, após ser acusada de invadir o apartamento da então namorada, a cantora Zizi Possi, e agredi-la, segundo matéria publicada no Jornal do Brasil na época. Ela foi autuada por invasão de domicílio, lesões corporais, crime de danos e desacato à autoridade, e solta após pagamento de fiança de Cr$ 20 mil.

Antes mesmo de ser questionada sobre o episódio, se adianta em avisar que nunca agrediu ninguém.

"A questão de 1981. Não bati em ninguém. Faço questão de dizer, seja quem for a pessoa, porque me recuso a dizer o nome. Nunca encostei um dedo para machucar a pessoa. Ela calou a boca por omissão. Que seja feliz."

Nunca roubei, nem machuquei, nem prejudiquei ninguém ou tirei roupa em público ou coloquei roupa em Roma.

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