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"Tive depressão pós-parto por 2 anos e não podia ficar só com minha filha"

Simone Rufino com a filha, Evilla - Arquivo pessoal
Simone Rufino com a filha, Evilla Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

12/07/2020 04h00

Ao ver a filha, logo após o parto, a professora Simone Rufino, 29, de Pio IX, no Piauí, não sentiu o mesmo amor maternal que tinha pelo primeiro filho. No decorrer dos dias, Simone teve vários pensamentos negativos em relação a Evilla: queria se livrar da menina, não a achava bonita, não queria amamentá-la.

Quando a criança completou um mês de vida, Simone foi diagnosticada com depressão pós-parto. Ela imaginou que ficaria curada em dois meses, mas sofreu com a doença por dois anos.

Leia aqui a história dela:

"Eu já tinha o Saulo, de cinco anos, quando engravidei da Evilla Thamar em 2016. Eu planejava ter um segundo filho, mas só em 2019, quando eu já estivesse formada e trabalhando. Eu fiquei feliz com a gravidez, mas, por outro lado, frustrada de ter que mudar meus planos. Durante a gestação, eu tive alguns sintomas de depressão, mas não sabia. Eu sentia aflição, tristeza, vontade de chorar, não tinha ânimo para preparar o enxoval.

Apesar de ter tido diabetes gestacional, ocorreu tudo bem no meu parto, e a Evilla nasceu no dia 20 de maio de 2017. Quando eu a vi, achei linda, mas fiquei um pouco receosa porque eu não senti aquele amor de mãe para filha, como foi com o Saulo. Não comentei com ninguém e pensei que, com o tempo, esse sentimento iria aflorar.

No terceiro dia em casa, eu senti uma tontura. Minha mãe, que iria ficar conosco por 15 dias para me ajudar, falou para eu descansar. Dormi um pouco e, quando acordei, levantei completamente transtornada e com vários pensamentos negativos em relação a mim e a Evilla. Eu não a reconhecia mais como minha filha, não a achava bonita, não sentia alegria ao vê-la, não queria falar o nome dela. Fiquei desesperada e só chorava.

Minha mãe perguntou o que eu tinha, mas eu não tive coragem de dizer, fiquei com vergonha. Eu apenas falei que estava tudo estranho e que era como se aquela não fosse a minha vida. Minha mãe me pediu calma, disse que já tinha ouvido casos de mulheres que sentiram tristeza nas duas primeiras semanas após o parto, mas que, depois, elas voltavam ao normal.

Eu sentia repulsa, amamentava olhando para o teto

Passado esse período, eu não melhorei. Minha mãe era quem cuidava da Evilla. Eu só pegava minha filha para amamentá-la, mas não gostava. Eu sentia repulsa, eu a amamentava sem olhar para ela, olhava para o teto. Quando ela chorava, me dava desespero. Eu sempre dizia para a minha mãe e para o meu marido, Francisco, para não deixarem a menina sozinha comigo. Eu tinha medo de fazer alguma coisa contra ela, como dar banho e afogá-la ou sufocá-la com o travesseiro. Mas era só medo, eu nunca tentei fazer nada.

O primeiro mês foi muito difícil. Eu não tinha apetite, perdi dez quilos. Os pensamentos de morte não me deixavam dormir, eu não tinha ânimo para fazer nada, nem para tomar banho. Eu e minha família não aceitávamos que eu estivesse com depressão pós-parto. Só quando assisti a vídeos na internet com depoimentos de mulheres que relataram ter tido os mesmos sintomas que eu é que reconheci que estava doente e que precisava de ajuda.

Marquei uma consulta com uma psiquiatra no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). A médica pediu para eu falar claramente todos os pensamentos que eu tinha em relação à minha filha. Até então, eu nunca tinha verbalizado para ninguém. Meu marido estava no consultório e ficou apavorado. Começou a chorar quando ouviu.

A psiquiatra me falou que se a tristeza tivesse durado 20 dias seria baby blues, uma melancolia normal entre as mães durante o puerpério. Mas, como já estava durando mais de um mês, ela me diagnosticou com depressão pós-parto. Me disse que já havia tratado várias pacientes com esse diagnóstico, que todas se recuperaram e ficaram bem. Ela me receitou um antidepressivo e falou que, em um mês, o remédio faria efeito. Eu não acreditava que um comprimido fosse resolver meu problema, mas, como eu não tinha mais nada a perder, fiz uma tentativa.

Me diziam que ia passar, mas não passava

Eu piorei muito com a medicação nos primeiros 15 dias. Tudo ficou em dobro: o nervosismo, a ansiedade, o choro. Uma frase que ouvi durante toda a depressão pós-parto e que me irritava bastante era a de que ia passar. Mas ela não passava e só eu sabia a dor que eu estava sentindo. A pior parte era não conseguir amar minha filha.

Teve uma vez em que minha mãe me deu a Evilla para amamentar e disse que ia na casa dela rapidinho resolver algumas coisas. Eu tive um ataque de pânico. Senti como se alguém estivesse me sufocando no pescoço, fiquei sem ar, com uma pressão no peito, eu gritava que estava infartando, que ia morrer. Fiquei daquele jeito pelo simples fato de estar sozinha com ela. Dei ela para minha mãe e saí correndo para a rua. A minha vontade era a de me matar para acabar com o sofrimento.

Depois disso, eu não fiquei mais sozinha com a Evilla por um bom tempo, os cuidados foram redobrados. Minha mãe, que ia ficar só 15 dias com a gente, ficou quatro meses. Teve um dia que a minha vontade de me ver livre da minha filha e de que ela não existisse foi tão grande que eu arrumei a bolsa dela com a intenção de dá-la para a minha mãe, mas não consegui. Era um sentimento horrível.

Nesse período, meu outro filho, Saulo, ficou um pouco de lado. A gente não conseguia levá-lo nas festinhas da escola e nem fazer as lições de casa com ele. Quando eu saía para ir à consulta, ele me perguntava: "Mamãe, a senhora vai ao médico para ficar boa e parar de chorar?"

Uma vez por mês eu passava com a psiquiatra. No segundo mês, disse para a médica que não estava vendo nenhuma diferença. Ela me perguntou se eu já tinha disposição para fazer coisas simples, como escovar os dentes e tomar banho. Respondi que sim. Ela me falou que essas já eram algumas mudanças, mas que eu não estava percebendo. Explicou que a mudança seria primeiramente em mim e depois na relação com a minha filha.

Achavam que era frescura

Eu imaginava que o amor e a vontade de ficar com Evilla seriam imediatos, mas a psiquiatra me pediu paciência e disse que poderia demorar um pouco mais do que eu imaginava. E realmente demorou. Pensei que em dois meses estaria curada, mas sofri com a depressão pós-parto por dois anos.

Foi um processo longo. Sofri preconceito, fui criticada e julgada por alguns amigos e familiares. As pessoas iam nos visitar e diziam que não havia motivos para eu estar daquele jeito, uma vez que a minha filha era saudável e perfeita. Elas diziam que era frescura minha e que eu estava agindo assim para chamar a atenção. Elas não entendiam que eu estava doente.

Com quatro meses, eu tive uma melhora e já conseguia ficar com a Evilla sozinha. Mas ainda não tinha afeto por ela. Decidi despertar o amor que eu sei que existia dentro mim, mas que estava encoberto pela depressão pós-parto.

Usei algumas estratégias para criar um vínculo entre nós: uma delas foi insistir na amamentação mesmo não gostando, até pegar o gosto. Outra era fazer tudo ao contrário dos meus pensamentos. Se vinha o pensamento de que ela era feia, eu dizia que ela era linda. Se vinha o pensamento de não pegá-la no colo, eu a pegava e a enchia de beijos. Eu liberava palavras e atitudes de amor para a minha mente captar isso.

Não cheguei a fazer terapia com psicólogo, mas uma das coisas que me ajudou foi a fé em Deus, orar, receber o apoio da minha igreja e da minha mãe e do meu marido, que nunca desistiram de mim.

Quando Evilla fez um ano, eu e meu marido procuramos atendimento particular de um outro profissional porque percebemos que a medicação não estava mais fazendo efeito. A primeira psiquiatra alegava que eu estava respondendo bem ao tratamento, mas eu ainda não estava 100% como gostaria. Ainda vivia dias ruins em que ligava para a minha mãe e pedia para ela ir em casa porque tudo o que eu queria era ficar na cama chorando.

Troquei de médico, ele receitou um novo remédio e eu fiz mais um ano de tratamento. Enquanto isso, retomei a minha vida: terminei a faculdade, comecei a trabalhar e a fazer exercícios físicos, mudei minha alimentação.

Hoje, repito a frase que mais me incomodava

Quando a minha filha completou dois anos, percebi que tinha sido curada, confirmação que veio com a alta do médico. Eu não tinha mais nenhum pensamento negativo em relação a ela e não sentia mais medo. Nosso vínculo é muito forte. Não sei mais viver sem ela e sinto por ela o mesmo amor que tenho pelo Saulo.

Após essa experiência, meu desejo é de que as mulheres com essa doença não se sintam culpadas e busquem tratamento. Mesmo que demore um pouco, eu repito a frase que mais me incomodava: vai passar."

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