PUBLICIDADE

Topo

Isadora Pompeo: por que cantora foi acusada de "tentar ser negra" na web?

Isadora Pompeo é acusada de blackfishing - Reprodução/Twitter
Isadora Pompeo é acusada de blackfishing Imagem: Reprodução/Twitter

Nathália Geraldo

De Universa

08/07/2020 16h29

A cantora Isadora Pompeo publicou fotos em seu Instagram — que tem mais de 3,5 milhões de seguidores e que deixou de ser público — em que aparece com tranças no cabelo e com a pele mais escura do que o tom natural. Ela foi acusada de fazer "blackfishing", termo que denuncia a tentativa de uma pessoa se apropriar da estética negra sendo branca.

Para pessoas negras, usar tranças no cabelo não é só uma questão de beleza. Elas estão associadas à autoestima e à valorização da cultura ancestral, que por vezes é apagada da história que se conta cotidianamente no Brasil. O tom de pele escurecido, por sua vez, é alvo constante de comentários racistas (aos quais quem é negro tenta resistir socialmente).

Não é a primeira vez que famosas tentam "se passar por negras", usando recursos de edição de imagem; a celebridade Kim Kardashian, por exemplo, já foi questionada sobre o fato de ter ficado negra em capas de revista e por supostamente usar maquiagem para escurecer o tom do rosto. No Brasil, a "tendência" se repete e é questionada por quem entende a prática como apropriação cultural. Entenda.

Isadora Pompeo e blackfishing

O nome da cantora Isadora Pompeo esteve entre os mais comentados da terça-feira (7) no Twitter, pelo fato de ela ter publicado fotos em que, segundo os usuários, tenta se passar por negra.

No próprio Instagram, a famosa publicou uma foto — da mesma sessão — com um pedido de desculpa. "Eu erro, mas nunca vou deixar de aprender por orgulho. A quem eu ofendi, me perdoe. A quem me entendeu, obrigada. A quem tá com raiva de mim, eu entendo. A quem eu desrespeitei, jamais foi minha intenção (...). Sobre minha cor, eu sou o que eu sou. Não sou negra, nem quero me passar por uma. Não sou ignorante, posso ter agido com irresponsabilidade", diz, em um dos trechos.

Por que alguém se passaria por negra?

Para os autores do artigo "Blackfishing e a transformação transracial monetizada", Ronaldo Ferreira de Araújo e Jobson Francisco da Silva Júnior, a prática é uma variação do "blackface", quando atores brancos, desde o século 19, se pintavam de preto para reforçar estereótipos e satirizar a estética negra.

Com as redes sociais, em que surgem nichos de mercado relacionados à pauta negra, o blackfishing ganha espaço entre influenciadores e figuras públicas brancas. Ele também se configura como um ato de apropriação da cultura negra.

"O que diferencia o blackfishing das demais manifestações da apropriação da cultura negra é que agora influenciadoras digitais passam a se apropriar também de alguns dos fenótipos da população negra, como o formato dos lábios, textura do cabelo e cor da pele", explicam.

"E neste caso, a aparência 'racialmente ambígua' é monetizada e rentável. Influenciadoras têm ganhado contratos e muito dinheiro, pois em vez de escolher modelos que são na verdade negras, as marcas estão escolhendo mulheres brancas que se apropriam de traços negros, pois parecem mais 'exóticas', sem deixar de representar os ideais eurocêntricos de beleza", defendem no texto, que faz parte do livro "Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: Olhares Afrodiaspóricos", organizado por Tarcizio Silva (Literarua), e que está disponível para compra e gratuito em PDF.

Cabelos, preenchimento labial e mudanças no corpo

Em 2019, a youtuber Bianca Andrade, a Boca Rosa, também foi acusada de praticar blackfishing, ao aparecer com os cabelos crespos e com a pele bronzeada. No Brasil, afirmam os autores, a prática ganha contornos ainda mais estruturais, por se valer "do mito de relações sempre cordiais entre pessoas brancas e negras, que tenta sempre criar uma narrativa de 'humor' ou num contexto 'elogioso' para mascarar práticas discriminatórias".

Além da mudança da textura dos fios (ou de se fazer tranças, como no caso de Isadora), as figuras públicas também recorrem a procedimentos estéticos como preenchimento de lábios, bronzeamento artificial e escolhas de looks que estejam associados à cultura negra. A maquiagem, a iluminação nas fotos e efeitos na imagem também são ferramentas usadas no "blackfishing".