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Por que post de Rowling não condiz com tratamento médico de pessoas trans

A autora J.K. Rowling - Carlo Allegri
A autora J.K. Rowling Imagem: Carlo Allegri

De Universa, em São Paulo

06/07/2020 09h22

J.K. Rowling voltou a tuitar sobre sua oposição a tratamentos hormonais e processos médicos de transição de gênero quando aplicados a adolescentes e jovens no Reino Unido. Os argumentos da escritora, no entanto, não condizem com a realidade do tratamento médico de pessoas trans no país.

A autora de "Harry Potter" já havia sido acusada de transfobia por posts anteriores na rede social e um ensaio que escreveu explicando sua posição. Desta vez, Rowling explicou por que havia dado like em um tuíte que advogava contra tratamentos hormonais como bloqueadores de puberdade, usados para dar mais tempo para jovens transgêneros decidirem sobre sua transição.

O post acusava médicos de receitá-los por "pura preguiça", "medicando ao invés de tentar curar a mente dos pacientes". Em seu perfil, a escritora expandiu o argumento do tuíte original: "Muitos profissionais de saúde estão preocupados que jovens com problemas de saúde mental estão sendo direcionados a hormônios e cirurgia quando isso não é o melhor para eles".

"Muitos, incluindo eu, acreditam que estamos testemunhando uma espécie de nova terapia de conversão [popularmente conhecida como 'cura gay'], em que jovens homossexuais são colocados em um caminho de medicalização que pode resultar em prejuízos para a sua fertilidade e funcionalidade sexual", completou.

Como jovens trans podem acessar tratamento no Reino Unido?

Em terras britânicas, o NHS (Serviço Nacional de Saúde, na sigla em inglês) administra as únicas clínicas que provém serviços de transição de gênero para jovens. Batizado de GIDS (Serviço de Desenvolvimento da Identidade de Gênero, em inglês), o programa tem regras rígidas e longos tempos de espera, além de políticas cristalinas que avisam pacientes e suas famílias dos possíveis efeitos colaterais de tratamentos de transição.

A fila de espera, para começar, é gigantesca — em novembro de 2019, os médicos do GIDS estavam começando a atender pacientes que se registraram para iniciar o tratamento dois anos antes, em 2017.

O primeiro passo no processo, quando o atendimento médico finalmente acontece, é fazer uma completa avaliação psicológica do paciente e das condições sociais ao seu redor (sua família, sua escola, etc). Isso ajuda médicos a avaliarem o risco que essa pessoa pode correr de sofrer episódios de preconceito e violência caso inicie o processo de transição.

Após uma série de três a seis consultas, realizadas durante um espaço de vários meses, para concretizar este processo, o paciente poderá ser encaminhado para um endocrinologista — este segundo especialista pode ou não receitar bloqueadores de puberdade, que impedem o corpo de desenvolver características adultas do seu sexo biológico.

Os bloqueadores de puberdade têm efeitos adversos?

Este processo, como frisa a NHS em seu site, é fisicamente reversível. Se o paciente decidir parar de tomar os bloqueadores de puberdade, o seu corpo voltará a se desenvolver normalmente. No entanto, o serviço de saúde britânico também deixa absolutamente claro que não há estudos definitivos, ainda, sobre possíveis efeitos colaterais psicológicos do tratamento.

A Sociedade de Endocrinologias do Reino Unido diz, em seu próprio site, que nenhum estudo até hoje apontou que o uso de bloqueadores de puberdade tenha quaisquer "efeitos adversos de longo prazo" para o funcionamento de úteros e ovários. Quanto aos testículos, a ciência aponta que a produção de espermatozoides pode diminuir, na idade adulta, como um efeito do uso de bloqueadores na adolescência.

Um estudo publicado em fevereiro na revista científica Pediatrics atestou os efeitos positivos dos bloqueadores de puberdade para adolescentes que passam pela disforia de gênero. O levantamento aponta que o uso do medicamento diminui consideravelmente os índices de suicídio nessa população.

E depois, quando começa a transição?

Somente após 12 meses de bloqueadores de puberdade é que o paciente, com acompanhamento físico e psicológico, poderá solicitar o acesso a hormônios como estrogênio (que auxilia na transição de mulheres trans) e testosterona (para homens trans) — que provocarão mudanças físicas irreversíveis.

A esta altura, pelo menos três anos terão se passado desde que o paciente começou a procurar tratamento. O acesso ao tratamento, assim como acontece com outras intervenções médicas não emergenciais no Reino Unido, a princípio só pode ser feito a partir dos 16 anos.

As exceções são: quando alguém com responsabilidade parental assina um termo de responsabilidade permitindo o tratamento; e quando alguém com menos de 16 anos sem apoio familiar é considerado um "Gillick competent", termo da saúde britânica para a pessoa que, na avaliação dos médicos, "tem inteligência, competência e compreensão o bastante de tudo o que está envolvido em seu tratamento".

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