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Antes e depois do embuste: elas mostram como ficaram bem melhor sem o ex

Anna Procídio saiu de um relacionamento abusivo e levou dez anos para se reerguer - Arquivo pessoal
Anna Procídio saiu de um relacionamento abusivo e levou dez anos para se reerguer Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

03/07/2020 04h00

A violência contra a mulher, que faz uma vítima a cada dois segundos no Brasil, de acordo com o Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha, traz muitas sequelas para a vida das sobreviventes, como distúrbios do sono e síndrome do pânico.

Atrapalha ainda a carreira da vítima, que pode chegar até perder o emprego, como apontado em pesquisa feita com 10 mil moradoras de capitais do Nordeste e divulgada pela ONU Mulheres em 2017.

Diante de tantos traumas e revezes, muitas mulheres comemoram nas redes sociais quando conseguem, enfim, se libertar de seus agressores. Com frases como "me livrei do embuste", elas dividem suas vitórias com outras mulheres que passaram por situações semelhantes e celebram a autoestima recuperada com fotos no estilo "antes e depois". As cicatrizes estão lá, mas hoje elas têm liberdade pra fazer o que bem quiserem. E se valorizam muito mais.

antes e depois de um relacionamento abusivo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Anna hoje trabalha como cabeleireira e stripper
Imagem: Arquivo pessoal

Anna Procídio, 32 anos, Vila Guarani, SP

Anna conheceu seu ex aos 20 anos e, num primeiro momento, não viu problema no ciúme dele. Até começar a ser agredida. Chegou a ter uma clavícula quebrada e largou a faculdade. Mas resolveu pedir ajuda. Hoje, casada, trabalha como colorista e stripper.

"Aos quatro meses de namoro, já estava morando com esse ex, na casa dos pais dele. O controle era total. Ele me levava no curso e no trabalho. Nunca saía sozinha. Até perder o emprego por causa dele porque eu faltava demais. Ele pedia para eu ficar em casa, fingia que estava passando mal. E eu caía.

Uma vez, por causa dessas brigas de ciúme, ele quebrou minha clavícula, e eu não conseguia mais escrever direito. Perdi minha bolsa de estudos por tanta falta, até ter que trancar a matrícula. Os pais dele não me defendiam. Falavam que eu podia ir embora a qualquer momento.

Consegui passar para um curso pré-vestibular gratuito, com bom desempenho, e vi que não era burra como ele costumava me chamar. E as agressões dele passaram a não me machucar mais. Já não me importavam. Nem ódio sentia mais. Eu pesava 32 quilos nessa época.

Entrei num curso técnico em informática e fui levando, mesmo com ele no meu pé. Quando me formei, falei um dia que ia dormir na casa da minha mãe. Chegando lá, comuniquei a ela que ia ficar de vez, mas não dei mais detalhes do que estava vivendo. Apenas disse que não estava mais dando certo.

Foi quando ele passou a me perseguir. Ia até a minha casa, ameaçou minha família. Fui orientada a denunciá-lo, mas eu só queria me livrar dele.

Me libertei dele em 2012, depois de três anos de relacionamento, e comecei a contar a minha história em grupos de apoio na internet. Nesse mesmo ano, arrumei emprego como vendedora.

Hoje trabalho como cabeleireira e stripper. Para você ver: antes, eu não podia sair de saia curta e hoje tiro a roupa num palco. Me arrumo como tenho vontade. E uso a maquiagem que eu quiser, porque ela expressa quem sou hoje.

Também casei. Meu marido é muito de boa. Demorou quase dez anos para eu me reconstruir, mas estou me levantando."

Há cicatrizes que machucam. Elas existem, mas não podemos desistir.

antes e depois do embuste - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Danielle foi agredida pelo pai de seus quatro filhos
Imagem: Arquivo pessoal

Danielle Rodrigues Ourives, 32 anos, de Saquarema, RJ

Danielle conheceu o homem que seria seu marido aos 14 anos. Teve a primeira dos quatro filhos aos 17. Naquela altura, já sofria agressões do marido, mesmo grávida. Os motivos eram desde ciúme à recusa dela de transar sem vontade. O ex, hoje, está preso. Danielle conta que ainda está se recuperando, mas abre um sorrisão ao lembrar que agora está descobrindo prazeres como ir à praia de biquíni, coisa que não fazia na companhia do ex.

"Estudei até o ensino médio e fiquei muito tempo sem trabalhar. Eu era dependente dele e, por isso, aguentei muito tempo calada. Tudo era motivo para agressão, mas o principal era eu recusar o sexo. Ele queria todo dia.

Se não fossem meus filhos, eu teria morrido, porque muitas vezes eram eles que faziam o pai parar. Eles têm hoje 14, 9, 7 e 6 anos.

Entrei numa depressão profunda e já não comia, tomava banho ou pegava meus filhos. Perdi um dente da frente por falta de cuidado. E ele disse que foi bom ter acontecido aquilo porque assim eu não sairia mais nem sorriria para ninguém.

Foi aí que eu resolvi dar um basta. Porque percebi que ele queria me ver mal. Onde já se viu o pai dos meus filhos falar que queria me ver sem dente?

Consegui um emprego como garçonete e cheguei a ser treinada para o cargo de gerente, mas ele não gostava, falava que eu estava arrumando pretexto para traí-lo. Inclusive ia no restaurante só para eu servi-lo. Era constrangedor. Acabei sendo demitida, mas por causa da crise financeira.

Fiz um empréstimo e consegui sair de casa em janeiro de 2019. As duas foram comigo e os dois ficaram com ele. Foi nessa época que meu filho falou que minha mais velha estava sendo abusada pelo pai. Não podia acreditar naquilo.

Dois meses depois, voltei a morar com ele, mas fiquei observando. Levei meus filhos no Conselho Tutelar, mas a minha filha, então com 12 anos, negou tudo. Como meu filho, de 9, confirmou, a conselheira disse que, se uma criança relata isso, não é mentira, é para acreditar.

Mexi no celular do meu ex e vi pesquisas em redes sociais sobre chás abortivos e relacionamento entre pai e filha. Levei na delegacia e consegui na Justiça uma medida protetiva contra ele, que saiu de casa. Mas, mesmo com a medida protetiva, meu ex começou a me perseguir. E, como descumpriu o distanciamento, foi preso [De acordo com o processo penal, o homem foi autuado por violência doméstica e estupro de vulnerável].

Ainda vivo com medo, mas saio na rua, ando de bicicleta e aproveito a praia. Quando ia com ele, nem tirava a roupa na praia porque tinha vergonha do meu corpo. Troco também os móveis da casa de lugar, coisa que ele implicava. E, no fim do ano, conquistei uma amiga, coisa que nunca tive."

Ainda não sei o que é namorar outra pessoa, mas não serei mais um objeto sexual nas mãos de ninguém.

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Vanda diz que ter amor próprio é o que a deixa feliz
Imagem: Arquivo pessoal

Vanda de Quadros, 44 anos, de Ponta Grossa, Paraná

Vanda também conheceu o seu então futuro marido aos 14 anos e começou a namorar escondido, contra a vontade dos pais. Eles diziam que o homem, na época com 20 anos, não prestava. Mas a dupla se casou quando ela completou 18 anos e, já naquela época, o homem forçava o sexo com ela. Vanda teve dois filhos e deu um basta na relação quando foi espancada e estuprada ao lado de fora da casa. Hoje, ela está casada, refez sua vida e "consegue falar por uma hora sem chorar ou doer como antes".

"Tive depressão pós-parto após o nascimento do meu primeiro filho. Ele nasceu prematuro após uma agressão que sofri do meu ex, e não o aceitei muito bem. Passei a apanhar mais ainda por não cuidar da criança direito. Às vezes, eu usava o garoto como escudo. Colocava meu filho no colo para tentar fazer ele parar de me agredir. Hoje, ele tem 24 anos e um quadro de depressão.

Eu não trabalhava e só estudei até o ensino fundamental. Dependia do meu marido, que era operador de máquinas. Passados os 40 dias de resguardo, os estupros voltaram. Já acordava com ele em cima de mim e tapando a minha boca. Só parou quando soube que estava grávida do nosso segundo filho, hoje com 22 anos.

A gente morava com a minha mãe, então não podia correr para mais lugar nenhum. Meu pai já havia ido embora, tinha outra família. Quando tive o segundo filho, saímos da casa dela, na roça, e fomos mais para o centro de Ponta Grossa. O garoto nasceu loiro de olho azul, como a minha avó, mas meu ex é moreno, e me acusou de traí-lo. E então vieram mais agressões.

Desenvolvi síndrome do pânico e cheguei a pesar 40 quilos, com 1,50 m. Não comia nem dormia. Um dia, pouco depois do segundo parto, eu estava deitada com meus filhos quando ele chegou em casa bêbado. Já era madrugada. Meteu o pé na porta e logo pensei: 'É hoje que eu morro'. Ele me arrastou pelos cabelos até a frente da casa, pra longe das crianças, gritando: 'Hoje, você vai saber o que é um homem de verdade'. E eu preocupada de alguém ver, mas era tarde. Ele arrancou a minha roupa, me socou, me chutou, me estuprou.

Depois, me jogou pra dentro de casa e me mandou dormir. E falou: 'Agora você sabe quem manda nessa casa'. No dia seguinte, tomei coragem e falei: 'Você morreu pra mim'.

Arrumei R$ 3.000 com a minha mãe e saí de casa. Consegui trabalho com reciclagem de lixo. E denunciei meu marido para a polícia. Naquela época, nem tinha Lei Maria da Penha. Era 2006 (a lei é de agosto daquele ano). Ele falou diante do delegado: "Bati e bateria de novo". E não foi preso. Mas se afastou e não vê os filhos desde 2008.

Preferi seguir minha vida. Estou casada desde 2010 e tenho liberdade para sair para onde quiser, ir ao salão de beleza, fazer amizades. Antes, nem ir ao médico sozinha eu podia. Agora, vivo uma vida normal. Antes, era prisão."

Esquecer o passado é quase impossível, mas ter amor próprio é o que me deixa feliz.

Violência contra a mulher