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Cacau, ex-BBB, já teve: 5 coisas que você não sabia sobre a bulimia

Maria Claudia sofreu com o transtorno até no BBB - Foto: Reprodução/ Instagram
Maria Claudia sofreu com o transtorno até no BBB Imagem: Foto: Reprodução/ Instagram

Ana Bardella

De Universa

02/07/2020 04h00

A influenciadora Maria Claudia, que participou da 16ª edição do Big Brother Brasil, falou na última terça-feira sobre ter sofrido de bulimia por mais de uma década. O desabafo sobre a relação conturbada com a comida foi feito durante uma live no canal da atriz Monique Curi.

"Eu queria muito me amar, queria muito me sentir segura para realizar os sonhos que eu tinha, mas, ao mesmo tempo, eu encontrava outra realidade quando eu olhava a TV, na escola, com o bullying, com essas coisas todas", contou. O transtorno fez parte da sua vida por anos. "Até quando eu estava no BBB fazia compensação", relembrou citando as festas do reality, nas quais a comida era liberada.

Cacau sofreu com a cobrança do público ao deixar o programa para que se encaixasse em um padrão estético. Por causa disso, se submeteu a duas lipoaspirações e ainda assim, garantiu, não se sentia feliz.

De acordo com profissionais da área da saúde mental, a bulimia ainda é um transtorno cercado de tabus. Veja quais pontos sobre o tema merecem ser esclarecidos:

1. Bulimia não é só provocar o próprio vomito.

Roberta Catanzaro Perosa, psiquiatra do AMBULIM, programa de transtornos alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP, explica que existem dois subtipos de bulimia: os purgativos e os não purgativos. Em ambos os casos, o problema surge como um desdobramento da compulsão alimentar. A pessoa ingere quantidades de comida que considera excessivas. "Ela tenta parar de comer, mas não consegue", explica. Então, começa a se sentir culpada pelo que fez e busca um método para compensar o que sente que foi um exagero.

No primeiro e mais frequente subtipo da bulimia, que atinge de 90 a 95% dos pacientes, a pessoa provoca o próprio vomito a fim de "expulsar" a comida do corpo. Em 62% dos casos, que também são considerados como purgativos, são usados laxantes e diuréticos com o mesmo propósito.

Este foi o caso da criadora de conteúdo Letticia Munniz, que fala publicamente sobre o transtorno nas redes sociais.

À Universa ela relembra que o desenvolveu quando tinha cerca de 12 anos. "Na época a internet era discada e eu buscava informações de como emagrecer rápido. Tinha compulsão alimentar e me sentia pressionada para perder peso. Via a comida como um problema e busquei essas alternativas radicais", conta. Na fissura por emagrecer, passou mais de dois anos machucando a garganta de diferentes maneiras a fim de compensar a culpa pelo que comia.

Já o outro subtipo da bulimia citado pelos profissionais é não purgativo. Ou seja: a pessoa desenvolve outros métodos, que não expulsá-los por algum orifício do corpo, para compensar o episódio de compulsão. "Neste caso, pode praticar atividades físicas em excesso, decidir ficar longos períodos em jejum ou ingerindo o mínimo de alimentos possível e até tomando inibidores de apetite a fim de diminuir a culpa", explica o psicólogo Renan Molina Pinto.

2. Bulimia e anorexia não andam de mãos dadas.

Apesar de os dois nomes serem constantemente associados, é incomum que um mesmo paciente desenvolva os dois transtornos ao mesmo tempo. "Ambas visam o emagrecimento, mas se constroem em bases neurológicas diferentes. Na bulimia, a pessoa se propõe a fazer jejum, mas não consegue mantê-lo por muito tempo, principalmente ao se deparar com alimentos que agradam o seu paladar, geralmente mais ricos em carboidratos, doces ou gorduras — e, porque se restringiram antes, acabam comendo compulsivamente", aponta Roberta.

De acordo com a especialista, isso acontece porque pessoas com bulimia têm regiões do cérebro que buscam prazer e saciedade muito ativadas, enquanto as áreas que são responsáveis por controle ficam pouco ativas.

Já na anorexia, que é considerada mais grave, a lógica é inversa. Como o lobo frontal, responsável pelo controle, fica superativado, isso faz com que a pessoa consiga manter o jejum e as dietas restritivas com muito mais facilidade. "Costumamos dizer que o sonho de toda pessoa com bulimia é ser anoréxica, porque dentro de uma lógica distorcida, isso ajudaria a alcançar sua meta de emagrecimento, ainda que às custas da sua saúde", explica.

3. Não é "coisa de mulher".

De acordo com Roberta, devido a fatores hormonais e culturais, mulheres jovens são as principais vítimas da bulimia. "Hoje temos visto pacientes com 8, 9 anos, já com o transtorno desenvolvido. No entanto, o mais comum é que ele se inicie na adolescência, devido a alterações hormonais e pela cobrança social de que as mulheres se encaixem em um determinado estereótipo", detalha.

O psicólogo Renan relembra que este também é o período em que meninas costumam ter seus primeiros envolvimentos afetivos, o que pode contribuir para o desenvolvimento do quadro. "Diante de uma rejeição, decepção ou tristeza, a autoestima tende a ficar abalada, favorecendo a insatisfação com o corpo".

Isso não quer dizer, no entanto, que os homens não sejam afetados por ele: de acordo com Roberta, a proporção de casos de bulimia é de seis mulheres para um homem. E o grupo de risco é composto por homossexuais e bissexuais. "Para eles, a cobrança pela estética corporal é maior", alerta.

4. Pessoas com bulimia não são necessariamente magras. E, se conseguem perder peso, não ficam automaticamente mais felizes.

Já que a pessoa "coloca para fora" o que come, isso a impede de engordar, certo? Errado. Primeiro porque o método de vomitar ou forçar mais idas ao banheiro não "desintoxica" o organismo e provocar irritações e doenças. Segundo porque não existe um biotipo que corresponda ao de uma pessoa que sofre de bulimia. Ao contrário da anorexia, que nos casos severos se torna mais evidente fisicamente, alguém com o transtorno pode parecer saudável aos olhos da sociedade.

Letticia Munniz é prova disso: "Se você emagrece um pouco, a tendência é que receba elogios de todos os tipos. Ninguém está interessado em saber às custas do que aqueles quilos foram perdidos. Ser magro é o certo, então nem passa pela sua cabeça que está fazendo algo de errado enquanto se maltrata e judia do seu próprio corpo. O que vale é o resultado". Recentemente, a influencer usou as redes sociais para explicar como foi elogiada ao emagrecer depois de entrar em uma fase depressiva pelo falecimento da avó.

5. Bulimia não é coisa de gente fútil.

Na opinião de Roberta, um dos maiores desafios no tratamento da bulimia é o estigma de que, pessoas que desenvolvem o transtorno, estão, no fundo, sendo fúteis.

"É uma espécie de julgamento moral, que coloca o transtorno como algo pejorativo, como se fosse 'falta de vergonha na cara', fraqueza. Tudo isso impede a pessoa de compartilhar como se sente e, consequentemente, de pedir ajuda", aponta. A psiquiatra reforça que se trata de uma patologia complexa e que gera sofrimento.

Para Letticia, o pior fator diante do histórico de transtornos alimentares foi a solidão. "É um assunto que me marcou tanto, mas que ao mesmo tempo me dá uma certa vergonha de falar. Ele acaba com a nossa saúde física e mental. Tenho muita gastrite hoje e memórias ruins desta época, porque a bulimia era como uma sombra, um fardo pesado que eu carregava sozinha, que não queria que ninguém soubesse", lembra.

É por isso que hoje Letticia defende a troca de experiências. "A pessoa que está passando por um transtorno alimentar não precisa encarar isso sozinha. Se todos que enfrentam algo do tipo pudessem se juntar, conversar e compartilhar o que estão vivendo, certamente encontrariam a força necessária para entender que os padrões são cruéis e inatingíveis. E saíram desse ciclo de uma maneira muito mais fácil", opina.

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