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TransEnem: as dificuldades dos alunos de um cursinho voltado ao público gay

Alunos do TransEnem em sala de aula pré-pandemia - Divulgação/TransEnem
Alunos do TransEnem em sala de aula pré-pandemia Imagem: Divulgação/TransEnem

Hygino Vasconcellos

Colaboração para Universa

28/06/2020 04h00Atualizada em 28/06/2020 14h03

Falhas na internet e ausência de um computador pessoal foram alguns dos problemas encontrados por quem, subitamente, teve que se adaptar às aulas online devido à pandemia do coronavírus. Para os 33 alunos do TransEnem, curso preparatório voltado para o público LGBT que funciona em Porto Alegre em formato de coletivo, não foi diferente. Depois de mais de três meses de suspensão das aulas presenciais, porém, há risco de parte deles não concluírem as aulas.

Criado para acolher e oferecer um ambiente de estudos livre de preconceitos, o TransEnem atrai alunos que veem no ensino superior uma chance de superar a homofobia e as dificuldades econômicas e ganhar uma nova perspectiva.

Sem fins lucrativos e com equipe sem cargos de chefia, o Trans Enem começaria as aulas deste ano em 16 de março, mas foram todos surpreendidos pela necessidade de isolamento social. Depois de um mês de discussão sobre os rumos a tomar, o cursinho decidiu oferecer aulas online, com uso da plataforma Google Classroom, serviço gratuito oferecido às escolas e ONGs.

Os professores passaram a gravar vídeos e postar na internet, além de disponibilizar exercícios. "Mas vimos que as pessoas não estavam acessando como a gente esperava. Os problemas foram os mais diversos: dificuldade de acesso, qualidade da internet, um computador para toda a família", observa a pedagoga Claudia.

Além disso, alguns alunos relataram dificuldades financeiras, o que levou o cursinho a distribuir cestas básicas. Parte deles hoje procura emprego. Na última seleção mais de 100 pessoas se inscreveram, o maior número desde o início do grupo, em 2016. Dos 33 alunos aprovados na seleção deste ano, três já deixaram o curso.

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Alunos durante aula presencial no TransEnem
Imagem: Divulgação/TransEnem

A organização observou que os alunos tinham problemas "materiais e urgentes" e que não era o momento de exigir frequência nas aulas, mas acolhê-los. "Foi aí que pensamos em um acompanhamento mais próximo, pela internet", conta Mara.

Além das aulas, os alunos são acompanhados semanalmente por psicólogos, assistentes sociais e pedagoga. Por ali, os participantes da organização do TransEnem tiraram um termômetro do que estava acontecendo por detrás das câmeras, nas casas dos alunos.

"No primeiro momento surgiu bastante coisa do isolamento social, desconforto de ficarem em casa confinados, em famílias que não são muito acolhedoras. Surgiu muita coisa relacionada ao auxílio emergencial e desmotivação de exercer as atividades. Os alunos têm dificuldade para manter rotina e muitos não têm ambiente familiar propício para o estudo. Mas a gente entende esse momento de espaço de fortalecimento", observa a assistente social Mara Marques Moreira.

As tentativas de aula online

Os professores também decidiram apostar em formatos de aula que fugissem do padrão tradicional. Em literatura, foi criado um clube de leitura com encontros semanais online. O professor Willian Dalmagro Braga elogia o resultado, mas conta que só dois alunos conseguem participar da reunião. "Não queremos ir no privado e cobrar [os que não estão participando], é um grau de intromissão muito grande", diz. "Pegamos um poema e conversamos sobre ele. É algo mais informal também. Tem sido incrível", observa.

A ideia é retomar os vídeos gravados, desta vez, focando na resolução de questões de assuntos que possam cair no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou no Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, objetivo dos alunos inscritos.

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Material didático nas aulas presenciais
Imagem: Divulgação/TransEnem

Na gravação, os professores aparecem em segundo plano enquanto o conteúdo está sendo apresentado na tela. Na aula sobre intertextualidade foram destrinchadas, ponto a ponto, a música Sujeito de Sorte, de Belchior, e ainda AmarElo, do Emicida.

Desde o início do TransEnem, cinco alunos já foram aprovados no vestibular. Desses, três ingressaram na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), um na UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) e outro na Unilasalle. Além disso, dois alunos concluíram o ensino médio.

"Não era para ser assim", observa aluno

Adam Collin Silva da Costa, 21, é um dos alunos participantes do preparatório. Homem transsexual, ele já passou em três vestibulares na Universidade Federal de Pelotas, distante da casa da família, em Porto Alegre. No ano passado, trancou a faculdade após ser vítima de estupro. O caso foi denunciado, mas as investigações não avançaram e, segundo ele, o agressor passou a persegui-lo.

De volta à capital gaúcha, Adam retomou os estudos no TransEnem. "Os professores não tinham estrutura para dar aula online. Gera frustração, não era para ser assim", diz.

Adam mora com a mãe e tem computador próprio e impressora para fazer cópias dos exercícios. "A internet não é muito boa, mas eu consigo fazer as atividades." Antes da pandemia, a mãe dele trabalhava como manicure e ajudante de cozinha numa escola, onde não tinha carteira assinada. Agora, ele passou a fazer sabonetes para ajudar na renda da família.

Adam disse que se descobriu trans ao ir para a faculdade, em 2017. "Desde pequeno eu percebia que eu não me encaixava dentro da narrativa que criaram para mim. Me chamavam pelo nome que eu tinha antes, e eu não atendia. Queria brincar de pião e os meninos diziam que não podia. Quando eu fui para a faculdade, em 2017, quando comecei a ter acesso a outras informações e falei com militância LGBT, vi que eu era Adam."

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