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Use Comunicação Não Violenta para resolver brigas de casal na quarentena

Desorganização da casa e celular são os principais motivos de brigas entre casais durante a quarentena - PeopleImages / iStok
Desorganização da casa e celular são os principais motivos de brigas entre casais durante a quarentena Imagem: PeopleImages / iStok

Fernanda Colavitti

Colaboração para Universa

28/06/2020 04h00

Pilha de louça infinita acumulada na pia, brinquedos de criança espalhados pela casa, ou melhor, pelo home office do casal (que agora também são colegas de trabalho e parceiros de faxina). Essa é a rotina e o motivo da discórdia em diversos lares brasileiros há mais de três meses, devido ao isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus.

É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Instituto do Casal entre os dias 17 de abril e 2 de junho, com 708 pessoas de todo o país, para detectar os principais motivos de desentendimento durante a quarentena. Os campeões das brigas conjugais foram a desorganização da casa e dos objetos pessoais, a falta de diálogo e o uso desmedido do celular, o excesso de críticas mútuas, e a divisão injusta das tarefas domésticas (veja abaixo).

Ainda que o único remédio disponível para preservar a saúde dos relacionamento durante a pandemia (e depois dela também), seja a boa e velha conversa, existe uma maneira mais eficaz de utilizá-lo, que vem ganhando popularidade nos últimos anos, a chamada Comunicação não Violenta (CNV). A abordagem desenvolvida pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg nos anos 1960 se baseia em nos conscientizarmos das nossas necessidades e das dos outros, para falar sem machucar e ouvir sem se ofender.

"O objetivo da CNV é expandir nossa habilidade de comunicação e negociação a partir da ampliação da nossa capacidade de exercer empatia e autoempatia", explica a psicóloga Flávia Feitosa, especialista em psicologia social. Trata-se de comunicar sentimentos, não julgamentos; de pedir, não exigir. E partir do pressuposto de que, ao não atender às suas expectativas, o outro pode estar agindo para suprir as próprias necessidades, não para lhe causar mal estar. A mesma lógica vale para o receptor da reclamação.

Especialistas dão dicas de como usar a CNV para resolver as principais desavenças entre os casais durante a quarentena

1. Organização da casa e dos objetos pessoais (51% dos entrevistados)
Os dois precisam deixar claro quais são as necessidades de cada um e tentar chegar a uma solução em comum. "Se uma acha que tem que trocar a roupa de cama uma vez por semana e o outro acha que tudo bem ser uma vez por mês, qual seria um meio-termo para os dois?", exemplifica Flávia Feitosa. A psicóloga Marina Simas de Lima, sócia-fundadora do Instituto do Casal, lembra a importância de sempre falar na primeira pessoa: "Como eu me sinto quanto à bagunça", e na sequência perguntar, de uma forma respeitosa, o que os dois poderiam fazer juntos para melhorar essa situação. Uma ideia é elaborarem juntos a lista das necessidades de ambos, do que é importante fazer diariamente, semanalmente, mensalmente. Um ouvir o que o outro acha e pensarem nas estratégias. "Cabe até sortear quem fica com as coisas mais chatas. Se for acordado, tudo vale", completa Flávia.

2. Falta de diálogo (48% dos entrevistados) e o uso excessivo do celular (47%)
Marina diz que uma questão pode estar ligada à outra, já que o uso do celular rouba a intimidade, a comunicação entre os parceiros. O que está por trás dessa reclamação, portanto, é sentir falta de viver momentos juntos, se conectar ao parceiro. Sendo assim, é exatamente isso que deve ser comunicado, sugere Bruno Goulart de Oliveira, fundador do coletivo CNV em Rede. "Ouvir do parceiro que sente a falta dele e quer passar mais momentos juntos soa bem melhor do que reclamar que o outro não desgruda do celular", afirma. A mesma dica vale para o alvo da reclamação. Se o seu parceiro reclamar do celular, pergunte se ele sente falta de passar mais tempo conversando ou fazendo alguma outra atividade com você.

3. Excesso de críticas (43% dos entrevistados)
Quando algo nos desagrada, tendemos a focar no negativo, o que é percebido como reclamação pelo outro. Trazer um elogio antes de pontuar o que não agrada, poderia trazer mais leveza à conversa, aconselha Marina. Flávia lembra ainda que tendemos a não dizer o que nos incomoda para evitar brigas, mas isso acaba gerando ainda mais conflitos, pois ficamos com raiva do outro e agimos de forma a despertar a ira dele também. "Pontuar o que está ruim é uma forma não de criticar, mas de indicar que algo não caiu bem. E quando fazemos isso, o outro pode perceber algo que ele não tinha percebido", diz. Nesse caso, então, cabe ao ouvinte também fazer uma reflexão sobre se o que está ouvindo faz sentido e valorizar a crítica (quando construtiva) do outro.

4. Divisão injusta das tarefas domésticas (42% dos entrevistados)
As tarefas domésticas ainda recaem mais para as mulheres, resquício da sociedade patriarcal e do papel de gênero. "Aqui precisamos fortalecer o elástico da comunicação e dar limites para isto, sem achar que o outro faz por maldade. Mas aceitar não é em hipótese alguma uma saída saudável", diz Flávia. A dica da especialista é sentar para conversar com os moradores da casa. "Todos precisam ser ouvidos. Com escuta ativa, aquela que permite ouvir o coração do outro", explica. Cada um deve falar sobre qual é o seu deseja de funcionamento da casa, opinar sobre até que horas vão trabalhar etc. "Nem sempre vamos conseguir seguir o plano, mas ter um já amplia em muito as chances de ele ser realizado ou ajustado", conclui.

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