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Jovem de comunidade carente é aprovada em sete universidades no exterior

Isabelly Moraes Veríssimo dos Santos vai fazer faculdade de neurociências - Arquivo pessoal
Isabelly Moraes Veríssimo dos Santos vai fazer faculdade de neurociências Imagem: Arquivo pessoal

Simone Machado

Colaboração para Universa

27/06/2020 04h00

Aos 18 anos e recém-saída do ensino médio, Isabelly Moraes Veríssimo dos Santos sonhava em fazer faculdade de neurociência, e decidiu se inscrever em faculdades no exterior. Tentou dez. Foi aceita em sete —seis nos Estados Unidos e uma na Austrália.

"O comum é um jovem buscar a aprovação em uma faculdade federal, e eu não queria isso. Tive muita falta de apoio porque ninguém entendia o que eu estava fazendo. Quando a primeira universidade entrou em contato dizendo que eu havia ganhado uma bolsa, meu pai achou que era trote", diz Isabelly.

Moradora da comunidade Vila São José, em Cubatão, no litoral de São Paulo, e filha de uma dona de casa e de um técnico em eletrônica, ela lembra que alguns familiares chegaram a dizer para ela desistir e que esse sonho não era possível.

"Eu optei por contar para as pessoas só depois que eu estava aprovada para não ter torcida contra. Mesmo assim, alguns familiares chegaram a dizer para eu desistir, mas eu nem dei ouvidos", lembra.

Isabelly diz que sempre gostou de estudar para além da escola. Desde pequena, em casa, em vez de brincar com os irmãos mais novos, hoje com 14 e 8 anos, ela pegava livros para ler em seu quarto.

Prefiro os livros

"Eu sempre gostei de estudar sozinha, é o método com que eu mais me identifiquei. Pegar livros, ir descobrindo as coisas e, assim, aprender. A gente quase nem tinha acesso à internet. Mas, até hoje, em que isso já é mais fácil, eu ainda prefiro os livros", diz.

Foi assim que aprendeu dois idiomas, francês e espanhol: sozinha, lendo livros e assistindo vídeos na internet. O inglês ela aprendeu na escola.

Foi no ano passado, quando cursava o terceiro ano do ensino médio integrado ao técnico em informática, no campus de Cubatão do Instituto Federal de São Paulo, instituição pública, que ela começou a pensar na possibilidade de estudar fora.

Interessada em neurociência, ela percebeu que fazer uma faculdade internacional seria o mais indicado. Para chegar ao seu objetivo aqui, ela teria primeiro que cursar medicina, para então fazer uma pós-graduação em neurologia e depois uma especialização em neurociência. Só aí poderia atuar na área.

"Apesar de gostar muito do meu país, estudar fora foi a alternativa mais atraente. Além disso, vou poder olhar para a ciência por outros ângulos", diz Isabelly.

Todo o processo, desde a inscrição até a aprovação nas universidades, durou cerca de seis meses. Mas a jornada ainda não tinha acabado. A garota ganhou bolsa de estudo em todas as faculdades para custear o curso. E, em seguida, começou a batalhar para conseguir dinheiro e comprovar que tem condições financeiras de se manter em outro país.

Entre as sete universidades em que foi aceita, Isabelly escolheu estudar na Nova Southeastern University (NSU), na Flórida. A escolha foi baseada na situação financeira da família —os custos da jovem no exterior seriam mais baixos nessa universidade. No entanto, para conseguir ir, ela ainda precisa de cerca de R$ 50 mil para complementar a bolsa que ganhou e pagar os gastos com moradia, alimentação e livros que precisará durante o primeiro ano do curso. Só com a renda dos pais, isso não seria possível.

"O consulado pede que eu comprove que tenho dinheiro para custear o meu primeiro ano de graduação lá. Esse é um pré-requisito para que eu consiga tirar meu visto estudantil", explica.

Covid-19 no caminho

Com o surgimento da pandemia do novo coronavírus, Isabelly conta que ficou com receio de não conseguir viajar para os Estados Unidos, perder a vaga, e principalmente, não conseguir todo o dinheiro para garantir sua estadia.

A crise gerada pela pandemia fez o valor do dólar disparar, e assim, a quantia necessária para o período de estudos também acabou ficando maior.

"O que mais atrapalha é a questão econômica, já que é uma taxa de cambio muito alta. Não seria um sonho tão longe se o dólar estivesse estável."

Vaquinha de sucesso

Para conseguir dinheiro e cursar a faculdade nos Estados Unidos, Isabelly criou uma vaquinha virtual. A meta inicial era arrecadar R$ 50 mil até dia 12 de agosto. Com a divulgação do projeto, a jovem já conseguiu alcançar a meta e estabeleceu uma nova, de cerca de R$ 77 mil, para bancar o plano de saúde e outros custos adicionais que terá por lá.

Quem doar ganhará recompensas oferecidas pela jovem, como mentorias, e-books e videoaulas, dependendo do valor doado.

"É uma maneira que encontrei de agradecer quem está me ajudando e levar um pouco do conhecimento que eu tenho até as pessoas", diz.

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