PUBLICIDADE

Topo

Elas contam como é doloroso ouvir que seu cabelo "é de bombril"

Jessica Silva, que diz que o produto a faz revisitar memórias negativas - Arquivo Pessoal
Jessica Silva, que diz que o produto a faz revisitar memórias negativas Imagem: Arquivo Pessoal

Natália Eiras

Colaboração para Universa

18/06/2020 04h00Atualizada em 18/06/2020 18h23

Nesta quarta-feira, brasileiros de cabelo crespo acordaram com um tapa na cara: a Bombril teria relançado uma marca de esponja de aço chamada Krespinha. O suposto retorno do produto, que promete ser "ideal para limpezas pesadas", revoltou alguns usuários do Twitter por causa da propaganda veiculada na primeira vez em que foi lançado, no começo dos anos 1900: a caricatura de uma pessoa negra.

O "garoto propaganda" ajudou também a disseminar a associação entre o cabelo crespo e a esponja de aço, o que permanece até os dias de hoje. "Obrigada por lembrar de todas as vezes que tive alguém puxando meu cabelo", escreveu a produtora de conteúdo Aline Ramos, 30, em sua rede social.

Relatos como os de Aline são comuns. Sob a hashtag #BombrilRacista, mulheres negras relembraram as vezes que sofreram por conta da associação entre seus cabelos e a esponja de aço durante a infância. "A marca reviveu algo que tem um peso muito grande, de forma negativa, nas pessoas de cabelo crespo", fala a engenheira de produção Jéssica Silva, 25. Após a onda de críticas, a Bombril negou que se tratasse de um relançamento e afirmou que vai retirar a marca de seu portfólio de produtos e rever sua estratégia de comunicação.

Veja alguns relatos:

"Um desconhecido tocou meu cabelo e disse que não conseguia tirar, que era bombril"

Aline Ramos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Aline Ramos
Imagem: Arquivo Pessoal

"Minha mãe ouviu muitos comentários [negativos] sobre o cabelo dela. Acho que até mais cruéis do que eu mesma ouvi. Ela sempre lembra que era chamada de 'neguinha feia'. E isso a impactou de uma forma que interferiu na forma que ela cuidou de mim quando criança. Ela sempre teve pavor que o mesmo acontecesse comigo, por isso tinha um esforço muito grande em deixar meu cabelo arrumado, para que ninguém me ofendesse.

Um dos comentários que mais me perturbaram é até recente. Numa festa da faculdade, um rapaz me viu, colocou a mão no meu cabelo e eu desviei. Enquanto eu fugia dele, ele cantava 'nega do cabelo duro, não há pente que te penteia'. Acabou com a minha festa.

Outra situação foi num bar. Um rapaz desconhecido veio até mim, colocou a mão no meu cabelo e disse que não conseguia tirar porque era um bombril. E fez toda uma encenação. Outro amigo dele veio até nós e pediu desculpas porque ele estava bêbado demais. Obviamente isso também acabou com a minha noite.

Sempre relacionam essas violências à infância, mas na verdade elas continuam na vida adulta justamente porque esses termos e concepções racistas ainda são normalizados. Relembrar essas histórias não desperta tristeza, mas raiva. Por ter me sentido sozinha e por, na hora ter sido surpreendida [com uma atitude racista], não saber como reagir ou me defender."

Aline Ramos, 30, produtora de conteúdo

"Palha de aço é áspera, machuca, e esse tipo de "brincadeira" dói"

"A minha mãe alisava o meu cabelo quando eu era pequena, mas ainda assim não tinha paz. Chamavam de bombril, cantavam músicas sobre meu cabelo encolher se molhasse. Era considerada feia, ninguém olhava para mim. Isso era muito ruim. Eu tinha uma autoestima muito baixa, não tinha amigos, ficava muito sozinha. Isso começou a mudar quando assumi meu cabelo natural e entendi que ele era bonito do jeito que é.

O que mais machucou no lançamento desse produto é que a marca reviveu uma coisa que tem um peso tão grande de forma negativa. Quando ouvia essas comparações, me sentia machucada porque entendemos o bombril como uma coisa áspera, que machuca, e é esse tipo de "brincadeira" que dói na gente. Dizer que seu cabelo ruim, ser associada a uma palha de aço, é péssimo."

Jéssica Silva, 25, engenheira de produção

"Elas falavam de como o meu cabelo era ruim, que era duro"

Laila Marques - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Laila Marques
Imagem: Arquivo Pessoal

"Essas situações são muito comuns, principalmente na adolescência. Lembro-me de uma vez em que estava na aula de balé e era a única menina negra. Fui alvo de chacota das outras alunas por conta do meu cabelo. Elas diziam que meu coque nunca estava bom o bastante, que ele era ralinho demais por causa de toda a química que eu já passava no cabelo, e que ele estava sempre preso para evitar comentários.

Elas falavam de como o meu cabelo era ruim, era duro. Essa situação me motivou a sair da aula de balé porque fiquei traumatizada. Hoje voltei a dançar, mas fico pensando que poderia ter passado uma vida toda fazendo o que gosto se não tivesse ouvido o que ouvi naquele dia."

Laila Marques, 26, relações públicas

"Só quem cresceu sendo inferiorizado sabe o quanto isso machuca"

Samara - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Samara Miranda
Imagem: Arquivo Pessoal

"Sendo muito sincera, ainda preciso levar isso para a terapia. Não consigo nem reproduzir o que diziam sobre a minha aparência quando era criança. Ouvia que meu cabelo era ruim, que eu sou feia. Ninguém me escolhia para dançar na quadrilha por causa da cor. Ouvia que eu era macaca. Não tinha namoradinho nem crush.

Alisava o meu cabelo para tentar me encaixar, para ser aceita. Era um processo doloroso, mas, no fim do dia, continuava sendo a menina excluída. Mas quando você passa pelo processo espinhoso que é reconhecer seu cabelo, em sua textura original, as coisas melhoram. Não tem preço o que sinto quando dou uma palestra e as meninas negras veem até mim me abraçar por se reconhecerem em mim. E é exatamente por isso que resgatar essa marca de esponja de aço é tão doloroso.

Só quem ouviu na infância que seu cabelo é duro, o quanto foi inferiorizado por isso, sabe o quanto machuca. A gente cresce com a autoestima sendo deteriorada. Tudo o que vem do preto é marginalizado, é excluído. Muitas pessoas negras precisaram ir para a terapia para curar isso, se cuidar, algumas mulheres continuam achando que o cabelo é ruim. Esse lançamento as lembrou de todas as coisas ruins que aconteceram na infância delas. Compartilho dessa dor. A gente que sofreu sabe quanto dói."

Samara Miranda, 31, jornalista

Diversidade