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"Ver tantas mortes nos faz sentir como em luto pessoal", diz especialista

Pássaro é fotografado sobre uma cruz durante um enterro coletivo de pessoas que morreram devido à Covid, em Manaus - BRUNO KELLY/REUTERS
Pássaro é fotografado sobre uma cruz durante um enterro coletivo de pessoas que morreram devido à Covid, em Manaus Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

15/06/2020 04h00

O Brasil já registra mais de 40 mil mortos vítimas da pandemia de Covid-19. Nesse momento, muitas famílias vivem o luto da perda de um parente ou amigo sem sequer passar pelos rituais de despedida, como velório, enterro e missas ou cultos. Mesmo quem não conhece alguém que tenha perdido a vida para a doença, em um momento como esse compartilha de uma espécie de luto coletivo.

"O luto coletivo acontece em vários casos, como na queda de um avião, em que muitos ficam tristes mesmo não conhecendo aquelas pessoas", explica Cynthia Almeida, jornalista e especialista em luto. Ela diz que neste momento, vivemos isso muito concretamente. "Há uma empatia pelas perdas, o que você sente pode ser muito parecido com o luto pessoal. Pode haver medo, crise de ansiedade, impotência, sensação de montanha russa. A gente tem dificuldade em significar o mundo, tem uma perda de identidade no luto coletivo", diz.

Há quatro anos, Cynthia e outras 6 amigas que viveram diferentes perdas, como o luto por um filho ou companheiro, se uniram no projeto "Vamos falar sobre luto?". Hoje, elas se dedicam a um trabalho voluntário para ajudar quem passa pelo trauma. "Percebemos que não há muita hierarquia. A gente sabe que o mundo coloca a perda de um filho como a pior, mas essa dor não é possível medir."

Para ajudar neste momento de muitas perdas abruptas, o projeto fez uma cartilha virtual para ajudar quem precisa enfrentar luto —tanto aqueles próximos como a tristeza de um luto coletivo.

Ela acredita que a resposta das autoridades faz muita diferença na forma como nos sentimos. "Além de toda a dor, a gente ainda tem um governo que não respeita as mortes, que não respeita as dores. Talvez, se fosse diferente, a gente se sentisse diferente. O papel de um líder, de um governante, é o de acolher uma sociedade em luto. A gente se sente bem em ser ouvido, ser acolhido, porque a situação já é de insegurança em razão do vírus", diz ela.

Pensando nas dificuldades já inerentes ao luto, que são agravadas pelo isolamento social, a cartilha traz sugestões de de como lidar com a perda, que podem ser lidas a seguir.

  • Se você é quem perdeu alguém

O manual é didático quanto ao que fazer. "A única coisa que importa agora é cuidar bem de você e isso envolve os cuidados com seu corpo, sono, alimentação e sentimentos", diz o projeto. "Cada luto é único e você tem o direito de viver o seu do seu jeito. Chorar, escrever e falar sobre a pessoa amada, ligar para quem você sente que pode te amparar u querer viver sua dor em silêncio, tudo isso é possível. Vale contar a parentes e amigos como você prefere lidar com o luto", explica o manual. Cynthia diz, ainda, que não existe tempo para o luto, que o sentimento pode durar o tempo que for, sem cobranças.

  • Se você tem um parente que está internado e não pode visitá-lo

Escrever uma carta (embalada em um saco plástico que possa ser desinfetado) ou fazer uma gravação em vídeo que possa ser entregue por profissionais de saúde ao parente no hospital são duas ideias possíveis. "Pedir que uma música especial seja tocada ou uma poesia seja lida são outras", diz o manual.

  • Se você conhece alguém que está com alguém que ama internado, preste apoio

Ofereça cuidado, escreva, ligue, mande comidinhas, bons livros, se faça presente para aquela pessoa.

  • Para a falta de rituais clássicos (como velório e enterro)

Cynthia afirma que os rituais de falecimento vão muito além do velório e enterro. "Pode ser uma festa em alguns casos", diz ela. Há muitas formas de ressignificar, mesmo online, e prestar homenagens àqueles que se foram. Eventos virtuais podem funcionar muito bem nesse sentido. As pessoas podem escrever memórias, contar histórias, de acordo com o manual. "Houve um encontro pelo Zoom que reuniu cerca de 300 pessoas e todos estavam ali, lembrando a vida daquela pessoa", conta Cynthia.

  • Para conforto da família

Para famílias religiosas, que, por conta da pandemia, estão sem acesso a locais em que praticam a sua fé, chamadas de vídeo podem ser ferramentas poderosas. "Podemos sugerir orações em vídeoconferência ou simplesmente marcar um horário para que a família e amigos, cada um de sua casa, dirijam sua atenção e preces ou pensamentos ao falecido e aos enlutados em torno. Pedir para que acendam uma vela em um mesmo momento e compartilhem por WhatsApp também é simbólico", diz o manual. Cynthia conta de um caso emocionante em que uma mulher recebeu mais de 100 imagens de velas acesas em homenagem a uma vítima.

  • Para crianças e adolescentes

O manual sugere que crianças e adolescentes devem estar a par dos acontecimentos e que não serem excluídos do que está havendo. "Converse com as crianças, crie formas para que elas possam participar da despedida a distância e depois dê espaço para que elas possam expressar seus sentimentos", diz o manual, que sugere que elas sejam perguntadas se desejam participar de cerimônias online ou se querem escrever uma carta para aquela pessoa.

  • Se alguém que você gosta está passando por um processo de luto

O manual faz uma série de recomendações. Esteja presente, mesmo a distância, ligue, mande e-mail, escreva. Diga que está ali ajudar. Use serviços de entrega para mandar comida para que a pessoa se alimente, esse tipo de assistência é essencial sobretudo no começo. Se você for chefe ou colega de trabalho, pergunte como pode ser útil e quais tarefas a pessoa que está de luto sente dificuldade de fazer, busque ajudar.

O tabu que existe em relalção a falar da morte atrapalha. "A gente começou a formar uma pesquisa, em que queríamos saber se as pessoas topariam falar sobre suas perdas. Isso abriu uma luz. Chegaram quase 200 histórias, as palavras recorrentes eram tristeza, amor, silêncio e tabu", conta ela.

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