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Mãe de oito: com três filhos biológicos, ela adotou cinco irmãos de uma vez

Ingrid Ewert Quagliato Mendes, o marido e os oito filhos - Arquivo Pessoal
Ingrid Ewert Quagliato Mendes, o marido e os oito filhos Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

15/06/2020 04h00

Ingrid Ewert Quagliato Mendes, 50, sempre teve o desejo de adotar. Mas, ao ter o terceiro filho, ela desistiu da ideia. Dezoito anos depois, a dona de casa e o marido, o teólogo Marcos Aurélio Sampaio Mendes, 59, decidiram retomar o antigo plano: e adotaram cinco irmãos de uma vez.

"Eles eram uma família, nós não podíamos separá-los, causar uma ruptura." Hoje mãe de oito, Ingrid diz que vive a maternidade com intensidade. Em 2015, ela fundou uma associação, em Curitiba, que ajuda pais adotivos a não desistirem dos seus filhos. Conheça a história da família:

"Eu e o Marcos éramos casados havia um ano e meio quando nasceu nossa primeira filha, a Aryanne, em 1990. Eu tinha 20 anos, e ele 30. Três anos depois, tivemos a Carolynne. Eu sempre tive o desejo de ter dois filhos biológicos e adotar mais um, mas, quando eu engravidei do terceiro, o Rafael, descartei completamente a ideia da adoção. Ter mais do que três filhos era impossível para mim naquela época. Após a chegada do Rafa, meu marido fez a vasectomia para não corrermos mais o risco. Ao longo das gestações, eu abandonei a faculdade e parei de trabalhar para me dedicar à maternidade.

Em 1999, eu e meu marido passamos a frequentar uma igreja e a fazer trabalho social com famílias carentes, destruídas pelo tráfico de drogas —em que o pai era preso ou morto e mães e filhos ficavam abandonados. Eu me sensibilizava com a situação de orfandade daquelas crianças.

Passados alguns anos, meu marido se tornou pastor e, durante um estudo, ele viu a foto de um menino com a frase: "Haverá limite para o sofrimento das crianças iraquianas?". Ele chorou e disse que precisava fazer alguma coisa. Consideramos viajar para o Iraque para realizar um trabalho social com aquelas crianças.

"Vamos adotar os inadotáveis"

No dia seguinte, fomos ao centro da cidade e vimos alguns cartazes colados nos postes com o título: "Inadotáveis". Havia um resumo da história de algumas crianças e o porquê de elas serem inadotáveis: eram negras, deficientes, soropositivas, tinham vários irmãos. Nós ficamos chocados porque não imaginávamos que havia crianças que eram consideradas impossíveis de serem adotadas. Eu falei: "Para que ir ao Iraque, se há tantos órfãos aqui? Vamos adotar estes que ninguém quer".

Como meus filhos já estavam grandes, a Aryanne com 22, a Carol com 19 e o Rafa com 17, eu considerei adotar um grupo de irmãos. Eu pensei: "Se eu cuidei de três, consigo dar conta de mais três". Eu e o Marcos conversamos com uma amiga que trabalhava na Vara da Infância e ela nos disse que havia cinco irmãos em um lar. Eles tinham ido para lá por denúncia de abandono da mãe biológica. A sugestão dela era fazer uma guarda compartilhada, distribuir esses irmãos entre a nossa família e a de um casal de missionários sem filhos, que queria adotar um casal. Nós ficaríamos com as três crianças maiores, e eles com as duas menores.

Nós concordamos com a sugestão e fizemos a primeira visita à casa-lar em dezembro de 2012. Fomos eu, meu marido e meus três filhos. A ideia era nos aproximarmos dos três mais velhos, mas houve uma interação natural com todos os irmãos. Na época, o André tinha três anos, a Emely, 4, o Cristofer, 6, a Andréia, 8, e a Taynara, 10. A mais velha tinha um espírito materno, ela tratava e protegia os irmãos, especialmente o mais novo, como mãe. Eles eram uma família, nós não podíamos separá-los, causar uma ruptura.

Quando me dei conta disso, considerei adotar os cinco, mas fiquei um pouco assustada, o André era muito agitado. Eu tinha 42 anos e pensei: "Eu estou velha para cuidar de um menino de três anos, não vou ter pique para ficar correndo, agachando, bagunçando".

Ao voltar para casa, todos nós concordamos que não poderíamos quebrar o vínculo que havia entre eles. Meus filhos disseram: "Mãe, ou você adota os cinco, ou nenhum". Apesar do medo, eu fiquei feliz com o apoio e incentivo que recebi deles.

Eu sentia uma vontade de fazer a diferença na vida de alguém e de suprir a sensação de abandono por experiência própria, por ter me sentido órfã quando criança. Minha mãe se separou do meu pai quando eu tinha um ano. Ele era um pai bastante ausente. Minha mãe me criou com a ajuda da minha avó materna e, quando eu fiz seis anos, ela se casou com o meu padrasto. Eles ficaram casados por oito anos e se separaram. E foi como se, mais uma vez, o meu direito de ter um pai tivesse sido roubado.

"Essa gangue vai matar vocês"

A vontade no coração falou mais alto e nós decidimos adotar os cinco. Eu comuniquei a nossa decisão à minha amiga da Vara da Infância. Como ela não tinha comentado nada com o casal de missionários, nós demos início ao processo no começo de 2013.

Ao contar a novidade a amigos e familiares, sofremos preconceito e ouvimos coisas do tipo: "Vocês estão loucos", "Vocês têm idade para serem avós, e não pais dessas crianças" e "Essa gangue vai matar vocês". As pessoas não entendiam nossa escolha, queriam uma resposta, uma justificativa do porquê adotar cinco irmãos de uma vez.

Como o processo é longo, nós comentamos com os técnicos que ficaríamos muito tempo sem ver as crianças. Queríamos nos conhecer melhor e despertar nelas o desejo de se tornarem nossos filhos. A juíza, então, permitiu que nós as apadrinhássemos. Inicialmente, as visitávamos uma vez por semana, depois fomos autorizados a pegá-las no fim de semana, posteriormente, elas passaram a dormir de sábado para domingo em nossa casa.

Dividíamos nossos momentos de lazer entre ficar em casa brincando e assistindo desenhos e passear no shopping e no parque. Nós os levamos à praia pela primeira vez.

Naturalmente, fomos criando um vínculo, mas em nenhum momento falamos que íamos adotá-los para não gerar expectativa. Um dia, estávamos no carro e o André perguntou por que nós não os adotávamos. Meu marido disse que não era simples, que tínhamos que pedir permissão para o papai do céu. Ele ficou em silêncio por alguns minutos e disse: "Pronto, eu já pedi e ele respondeu que vocês podem nos adotar".

Ficamos habilitados para a adoção em outubro de 2013. Nós contamos a novidade a eles num sábado de manhã. Cada um teve uma reação: uma chorou, a outra gritou de alegria, o outro pulou no colo. Até então, eles nos chamavam de tio e tia. Aos poucos e de forma espontânea, foram nos chamando de pai e mãe. De repente, eu me tornei mãe de oito.

Sarna para se coçar

O primeiro ano foi muito difícil. Montamos o quarto das crianças no sótão, onde eram a sala de TV e o escritório do Marcos. Nós tivemos que ensinar tudo para eles: tomar banho, comer de boca fechada, com garfo e faca, pedir por favor, dizer obrigada, respeitar os mais velhos, entre outras coisas.

As crianças tinham muitas dificuldades de aprendizagem. Passavam de ano, mas não eram alfabetizadas. Eu fiquei inconformada e resolvi alfabetizá-las em casa por conta própria. Montei uma mini-escola na cozinha e na sala. Colocava o alfabeto na parede, as sílabas, o mapa do Brasil. Além disso, decidi fazer faculdade de pedagogia à distância para ensiná-los. Terminei o curso no ano passado, aos 49 anos.

Nos sentimos muito sozinhos no primeiro ano da chegada das crianças, as pessoas nos isolaram. Às vezes, ia desabafar com alguém dizendo que estava cansada e ouvia: "Você e o Marcos poderiam aproveitar para viajar e curtir a vida. Vocês arranjaram sarna para se coçar, agora se virem".

Sentimos falta de ter um suporte pós-adoção. Assim como nós, outros casais que tinham filhos adotados também passavam por dificuldades. Nós atendíamos informalmente essas famílias. Um dia, a Ane Beatriz, uma amiga e psicopedagoga de uma das minhas filhas, pediu para eu conversar com um casal que estava decidido a devolver os filhos por adoção. Eu os aconselhei, eles mudaram de ideia e permaneceram com as crianças. A Ane sugeriu de formalizarmos esse trabalho e fundamos a associação Chesed - Pais por Adoção, que ajuda pais a não desistirem dos seus filhos adotivos. Em hebraico, Chesed significa aliança, amor incondicional.

Quando eu só tinha os três filhos biológicos, tinha a ilusão de que o tratamento com todos deveria ser igual. Mas, quando chegaram os cinco, eu aprendi que cada filho é de um jeito e que eu preciso ser uma mãe exclusiva para cada um. Ser mãe de oito é um privilégio, é viver a maternidade intensamente.

Um momento muito especial e emocionante foi quando fizemos a nova certidão de nascimento deles. Ver o nosso sobrenome foi a concretização da nossa nova família. Se um dia meus filhos por adoção quiserem procurar e voltar a ter contato com a mãe biológica, eu vou respeitar. Assim como no meu coração de mãe tem espaço para oito filhos, no coração deles há espaço para duas mães."

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