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No Dia de Santo Antônio, fiéis ganham bolo e bênção em drive-thru em Santos

Frei Valdevino abençoa fiéis à distância, no Santuário de Santo Antônio do Valongo, em Santos, litoral paulista - Nathália Geraldo/UOL
Frei Valdevino abençoa fiéis à distância, no Santuário de Santo Antônio do Valongo, em Santos, litoral paulista Imagem: Nathália Geraldo/UOL

Nathália Geraldo

De Santos (SP) para Universa

13/06/2020 15h33

"É pra benzer? Só fica ali do lado um minutinho e, quando o frei chamar, mantenha uma distância dele." Na manhã deste sábado (13), a orientação de um dos organizadores da fila de carros e pessoas em frente ao Santuário de Santo Antônio do Valongo, em Santos, no litoral paulista, era incomum.

Mas, por ali, tudo estava diferente: máscaras, faixas de isolamento e o pátio da igreja vazio mostravam que até mesmo as tradições religiosas precisaram ser adaptadas para o período de distanciamento social que estamos vivendo por conta do coronavírus.

Neste ano, o bolo de Santo Antônio, "o santo casamenteiro", e as bênçãos do frei Valdevino Negherbon foram entregues à distância, em um sistema drive-thru.

O santuário fez a venda antecipada dos bolos pelo WhatsApp, a R$ 5. Com uma senha em mãos, os fiéis podiam ir à igreja retirar o doce, de carro ou a pé, sem aglomerações.

Nos automóveis, famílias não demoravam mais do que cinco minutos para anunciar a senha, ouvir algumas palavras do frei e ir embora. Quem chegou andando aproveitava para tirar fotos da imagem do santo e aguardava na fila da bênção. O frei jogava a água benta a pouco mais de um metro dos visitantes.

Bolo de Santo Antônio: medalhinha garantida

Igreja do Valongo - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Construído em 1640, o Santuário é um das igrejas que levam o nome de Santo Antônio, em Santos. Neste sábado, formou fila de fiéis à porta
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

Uma das crenças populares ligadas ao bolo de Santo Antônio tem a ver com a fama do santo de arranjar casamentos para quem pede um amor a ele. Dizem que quem encontra uma medalhinha com a imagem dele ao colocar um pedaço do bolo na boca já tem o par garantido pelos céus. Acontece que, neste ano, todos os 800 pedaços de bolo vendidos pela igreja vinham com a medalhinha.

O frei João Pereira Lopes, também do santuário, explica que a mudança é um sinal dos tempos. "O fiel cultiva a devoção por meio da medalha, porque ela remete ao próprio santo. Então, o devoto se sente acompanhado por ele, sabe que não está sozinho. Por isso, queríamos que todos a recebessem neste momento de pandemia."

Jussara Carvalho da Conceição - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Devota de Santo Antônio, Jussara agora quer se casar em uma igreja do santo
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

A fisioterapeuta Jussara Carvalho da Conceição saiu de Praia Grande, também no litoral paulista, para agradecer uma graça alcançada para a cachorrinha dela. O animal estava com câncer, fez uma cirurgia e passa bem. Jussara fez a trezena para Santo Antônio acompanhando as rezas por transmissão virtual no Facebook da igreja, sem sair de casa. "Era bom porque minha cachorrinha escutava comigo."

Jussara ficou feliz quando ouviu de Universa que a "medalhinha do casamento" já estava incluída na encomenda. "Nunca tinha achado! Agora, meu sonho é casar na igreja de Santo Antônio porque sou muito devota."

Sergio Silva - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Sergio diz que só sai de casa para coisas essenciais: ir ao mercado, pegar aposentadoria no banco; neste sábado, foi ao Santuário pedir benção de Santo Antônio
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

O aposentado Sergio Silva foi à igreja atrás de outra tradição: o pãozinho bento de Santo Antônio. Segundo o catolicismo, o alimento representa a caridade, mas muitos devotos o colocam dentro de potes de mantimentos, como arroz, para atrair fartura para a casa. O santuário afixou um cartaz no pátio avisando que, por causa da pandemia, o pão não seria distribuído.

Sergio, que tem 75 anos, quase saiu de mãos vazias: enquanto se preparava para ir embora, um casal de comerciantes e sua filha chegavam com alguns pãezinhos para doar à igreja, que os entregaria aos mais necessitados.

"Eu venho todo ano pegar o pão para colocar no açúcar, no arroz. É sagrado. Ele abençoa a minha família, dou para minha filha, para um parente mais próximo. E venho na missa também. Agora não, porque tá proibido, né?", conta, destacando que só sai de casa para pegar a aposentadoria no banco e ir ao mercado.

Carreata em hospitais, sem quermesse

Estátua Santo Antônio - Nathália Geraldo/UOL - Nathália Geraldo/UOL
Fiel leva estátua de Santo Antônio de máscara para benzer na Igreja do Valongo
Imagem: Nathália Geraldo/UOL

Além do sistema drive-thru de bênçãos e bolos, a igreja adaptou outros detalhes das celebrações do dia de Santo Antônio.

A imagem do santo seguiria em carreata por Santos no final da tarde, parando em quatro hospitais da cidade, "para demonstrar solidariedade aos profissionais de saúde e abençoar os enfermos", explicou frei João. As missas continuam sendo feitas sem público e transmitidas pelo Facebook do santuário. Não haverá quermesse na frente da igreja, tradição que atraía um público maior —e que, por isso, resultava em mais de 3.000 pedaços de bolo vendidos aos devotos.

Até a estátua de Santo Antônio levada por uma fiel para benzer estava de máscara. É mesmo um sinal dos tempos.

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