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Vendedoras de comida de rua viram combatentes do coronavírus em Cabul

8.mar.2020 - Ativistas pelos direitos civis se reúnem em uma avenida em Cabul, no Afeganistão, no Dia Internacional da Mulher - Wakil KOhsar/AFP
8.mar.2020 - Ativistas pelos direitos civis se reúnem em uma avenida em Cabul, no Afeganistão, no Dia Internacional da Mulher Imagem: Wakil KOhsar/AFP

De Universa, em São Paulo

10/06/2020 09h57

Trabalhar na rua vendendo comida já era um tabu a ser vencido por mulheres afegãs tentando sustentar suas famílias. Clientes, na maioria homens, estranhavam vê-las oferecendo arroz e hambúrgueres em seus carrinhos. Com a chegada do novo coronavírus, foi obrigatório parar, mas elas se reinventaram e passaram a agir na desinfecção dos locais abertos.

Reportagem do site britânico The Guardian conversou com algumas das pessoas envolvidas nessa nova ação.

A estudante de engenharia Freshta, 19, era uma das mulheres pilotando cerca de 40 carrinhos de comida pela cidade de Cabul. "No começo, os homens nas ruas ficavam chocados ao nos ver dirigindo uma moto e vendendo comida, mas depois de dois ou três meses, eles já estão acostumados. Eles até nos apoiam", diz ela.

Quando a cidade entrou em confinamento por causa da pandemia, em março, ela teve de parar, mesmo sendo a principal mantenedora em uma família de seis pessoas. Foi aí que a ONG Ebtakar, que ajudava essas cerca de cem mulheres em seus carrinhos de alimentos, teve a ideia de transformá-los em unidades de limpeza contra a covid-19.

Desde abril, Freshta leva seu carrinho pelas áreas mais pobres da cidade, desinfetando carros, lojas e áreas comunitárias e distribuindo máscaras, luvas e produtos de limpeza gratuitos.

"Agora que a covid-19 fechou praticamente todas as empresas e a cidade está em quarentena, incluindo nosso carrinho de comida, usamos nossas motos para desinfetar a cidade e proteger as pessoas, seus carros e a comunidade como um todo", afirma a estudante.

"Decidimos usar os carrinhos que já temos para ajudar a fornecer serviços gratuitos de saneamento e, ao mesmo tempo, manter as mulheres empregadas", diz Farhad Wajdi, fundador da Ebtakar.

As mulheres recebem um salário diário e têm equipamento de proteção para vestir. A ONG conseguiu financiamento da ONU (Organização das Nações Unidas) e do governo afegão para colocar a ideia em prática.

Impacto da doença é desproporcional

No início de junho, o Afeganistão tinha mais de 16 mil casos de infecção pelo novo vírus.

Segundo relatório da Oxfam International, o impacto da doença é desproporcional para as mulheres afegãs.

"As normas patriarcais limitam seu movimento, acesso a direitos básicos como educação e saúde, controle sobre recursos, decisões que afetam suas vidas e o direito de viver livre de violência. A covid-19 está exacerbando as desigualdades que as mulheres afegãs enfrentam", observa o relatório.

"Existe um estigma social ligado às mulheres trabalhadoras no Afeganistão que as impede no acesso a oportunidades econômicas iguais, especialmente em certos setores, como servir comida de rua", diz Wajdi.

"Queríamos incentivar mais mulheres afegãs a se sentirem sem restrições ao escolher suas carreiras ou negócios que normalmente são indicados para homens", defende.

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