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"Racismo na infância": hashtag reúne casos que marcam vítimas já adultas

Gaby Amarantos escreveu relato para hashtag que viralizou no Twitter - Reprodução/Twitter/Instagram
Gaby Amarantos escreveu relato para hashtag que viralizou no Twitter Imagem: Reprodução/Twitter/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

07/06/2020 11h51

Atenção: os casos desta matéria podem ser gatilhos emocionais para algumas pessoas.

Perseguição, xingamentos na escola de "macaca", palavras de menosprezo e constrangimento direcionadas a crianças negras — às vezes, vindas de outras crianças. Casos de racismo vividos na infância ganharam o Twitter recentemente, pela #RacismoNaInfância. Já adultas, as vítimas contam como as experiências do passado ainda reverberam em suas vidas.

Anônimos e famosos, como as cantoras Gaby Amarantos e Karol Conká, deram depoimentos sobre o tema — que, aliás, segundo especialistas, não deve ser camuflado como bullying; é preciso abordá-lo como racismo e buscar seu enfrentamento.

Racismo na infância reúne relatos no Twitter

Gaby Amarantos contou que passou metade da vida alisando os cabelos por conta de um episódio: "Gritaram lá vem a nega maluca fedida que nunca vai ser paquita".

Outras mulheres ressaltaram como ouviam comentários racistas a respeito do cabelo natural — chamado de "feio", "duro", "de palha de aço", "de bruxa" — nas vezes em que deixavam os fios soltos.

Racismo na escola e nas ruas

Karol Conka e Teresa Cristina se lembraram de experiências que viveram no ambiente escolar. "Quando eu tinha 6 anos, uma professora destrançou meu cabelo e me colocou sentada na mesa dela enquanto gargalhava dizendo para meus colegas de sala: 'Olha esse cabelo parece um espantalho!'. Todo mundo deu risada e eu queria sumir... Mas só conseguir chorar", publicou a primeira.

"Na sexta série, eu tive que trocar de colégio. Quando cheguei no colégio novo tinha um menino chamado M. Gomes que todos os dias batia na minha bunda quando cantávamos o hino e me chamava de macaca. Passei a me esconder no banheiro pra evitar o encontro com ele", disse Teresa.

O sócio da empresa Laboratório Fantasma, Fióti, lembrou o primeiro enquadro que tomou na rua por policiais. Aos 10 anos. "Foi no ponto de ônibus com meu irmão. Os policiais nos intimidaram com as armas apontadas e nos fizeram levantar a camiseta na frente de centenas de pessoas. Eu achei que morreria ali. Depois só conseguia chorar!". O usuário Levi Kaique também revisitou a dor de ter sido acusado de roubo em um mercadinho:

O que pensar diante dessas histórias?

Os casos contados no Twitter não foram os primeiros nem os últimos. Um dos casos que ganharam visibilidade nas últimas semanas foi o da adolescente Fatou Ndiaye, que foi alvo de comentários racistas de companheiros de classe, trocados em aplicativo de mensagem. "Dou dois índios por um africano", "1 negro vale uma jujuba, 1 negro vale um pedaço de papelão, 1 negro vale um Trident" foram alguns dos conteúdos racistas associados a jovem.

Não à toa, especialistas apontam para a necessidade de uma educação antirracista — ou seja, que "desconstrua" estereótipos negativos e de inferioridade associados a pessoas negras — desde a infância. Entre os esforços, está o ensino de valores positivos da cultura e da identidade negra. De maneira institucional, é preciso aumentar a quantidade de pessoas negras que são referências para as crianças, brancas e negras, como explica a criadora da página "Criando Crianças Pretas", Deh Bastos.

"A criança aprende que o sol é amarelo, que as folhas são verdes e assim faz com as pessoas. Se a criança branca vê que todas as pessoas que a servem e as que estão em situação de invisibilidade social são em maioria negras, ela não cria uma relação com elas, não gera afeto, admiração, respeito; assim, pode acabar reproduzindo comentários racistas", disse para Universa.

Há, desde 2003, uma lei (10.639/03) que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira na rede pública e privada brasileira. Estudiosos, no entanto, questionam a aplicação do texto, já que não foram contempladas ações de fiscalização ou de penalidade caso a lei não se cumpra nas instituições de ensino.

A identificação de posturas racistas e de que há racismo estrutural no Brasil devem ir além do mero reconhecimento. É necessário refletir que episódios racistas vividos na infância ou em qualquer fase da vida de pessoas negras têm impactos na saúde mental das vítimas, como explica o psicanalista Allan Fernando de Souza Félix.

O homem negro que percebeu um olhar de medo, desprezo ou raiva ao circular por espaços públicos quando era pequeno, por exemplo, pode sentir sua autoestima abalada por anos. "A autoestima dele é 'desconstruída' desde pequeno, na verdade. Desde quando ele entra em um estabelecimento para comprar uma bala, e recebe um olhar diferente".

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