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Brasileira participa de protestos em NY: "Brancos apoiam, não protagonizam"

Carol Fonseca em um dos vários protestos dos quais participou contra o racismo nos Estados Unidos - Arquivo Pessoal
Carol Fonseca em um dos vários protestos dos quais participou contra o racismo nos Estados Unidos Imagem: Arquivo Pessoal

Jéssica Ferreira e Flávia Martinelli

Colaboração para Universa

04/06/2020 04h00

A onda de protestos diários diante da brutalidade da morte de George Floyd, no dia 25 de maio, continua em centenas de cidades dos Estados Unidos. O ex-segurança de 40 anos foi imobilizado no chão pelo policial Derek Chauvin, que manteve o joelho sobre seu pescoço durante 8 minutos e 46 segundos numa rua de Minnesota. A cena foi filmada por uma testemunha e mostra o homem negro dizendo, mais de uma vez, "não consigo respirar". Outros três oficiais acompanharam sem reação. Floyd foi abordado por compra de cigarros com uma suposta nota falsa de 20 dólares.

Mesmo diante das mais de 24 mil mortes por Covid-19 apenas na cidade de Nova York, o grito "não consigo respirar" segue como brado nas ruas dos distritos do Brooklyn, Manhattan, Queens ou Staten Island. Do Bronx, a brasileira Carol Fonseca, de 28 anos, assistente social que participa de um programa de intercâmbio cultural, participou de diversas manifestações, que define como "a gota d'água" de um momento de profunda frustração, indignação e desespero.

"As pessoas estão desempregadas, em luto pelas mais de 100 mil mortes em todo o país. Já passaram por idas e voltas de lockdowns e as declarações do presidente [Donald] Trump pioram tudo a cada dia", relata. Carol destaca que a população negra nos EUA representa apenas 13,4% do país, mas está morrendo quase três vezes mais que brancos. "A pandemia mostrou a dificuldade de acesso aos serviços de saúde que fazem parte de um sistema privado", analisa Carol, que é militante da Uneafro Brasil e da Coalizão Negra Por Direitos nos EUA.

Cerca de seis anos antes, a mesma frase havia sido ignorada 11 vezes por outro policial, Daniel Pantaleo, em Staten Island, em Nova York. Em 2014, ele assassinou Eric Garner, de 43 anos, com uma chave de estrangulamento pelo braço, o chamado "mata-leão", durante uma abordagem por, segundo policiais, venda ilegal de cigarros soltos sem selos fiscais no meio da rua.

As últimas palavras do camelô, filmadas por câmeras de segurança e testemunhas, se tornaram um grito de guerra de ativistas contra o racismo e violência policial. O caso só foi sentenciado em agosto passado, depois de dezenas de manifestações, e a única pena ao oficial assassino foi a de demissão por justa causa do Departamento de Polícia de Nova York. Os outros policiais que estavam na ocorrência continuam empregados.

"Como no Brasil, a escravidão deixou marcas sociais que nos colocam em posições sociais diferentes às de uma pessoa branca. Não houve reparação social e isso implica radicalmente numa grande desigualdade de distribuição de riquezas. O racismo faz parte desse contexto e a violência é um reflexo de tudo isso. Ninguém aguenta mais", diz Carol.

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Imagem: Arquivo Pessoal

De fato, um estudo do sociólogo Rashawn Ray, do centro de pesquisas Brookings Institution, afirma que pessoas negras norte-americanas têm 3,5 vezes mais chances de serem mortas por policiais do que brancas em situações em que não existe ataque ao policial ou porte de armas. Entre adolescentes, a probabilidade é 21 vezes maior. A polícia americana mata uma pessoa negra a cada 40 horas.

No Brasil, é ainda pior. Segundo a CPI do Senado, a cada 23 minutos morre um jovem negro aqui. A relatoria acatou a tese de genocídio da população negra e citou um estado que se aproximaria de uma guerra civil com a conivência das classes dirigentes. Do total dos mortos em decorrência de intervenção policial, entre 2017 e 2018, 75,4% eram pessoas negras. No entanto, esse grupo — que reúne as categorias de pretos e pardos — representa 55% da população. O dado está presente no Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 2019.De acordo com a brasileira, as ruas de Nova York e de outros lugares que aderiram aos protesto estão mandando um recado. "Se não houver justiça, não haverá paz", resume Carol. "É um basta geral. O caso de Floyd não foi isolado, não é uma indignação nova." Acompanhe o relato dela:

"A minha esperança é de que é possível, sim, que algumas coisas mudem"

"Desde o dia 25 de maio, o que vejo nas ruas de Nova York é um grito de 'basta!'. A população está dizendo que não dá mais para suportar séculos de racismo e desigualdade. Os protestos contra a morte de Floyd começaram imediatamente à divulgação do vídeo e existe um misto de desespero e frustração nas manifestações, cada dia maiores. Porque não é uma indignação nova, sabe? A maneira como a polícia é treinada aqui é uma herança escravocrata como no Brasil.

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Imagem: Arquivo Pessoal

No entanto, a grande diferença que vejo nos protestos daqui é a participação das pessoas não negras nas manifestações. Pessoas brancas são umas 70%, 80% nas ruas e agem como barreira. A maioria é formada por cidadãos americanos, mas vi coreanos, gregos, latinos. Da comunidade brasileira confesso que vi poucos e tudo bem, cada um com sua luta. Acho que galera se acha classe média alta. Não sei se não entendem, não têm hábito ou não querem ver a questão racial. Mas acredito que o cenário vai mudar.

Mas os não-negros em geral estão ali para nos apoiar, não para protagonizar os atos. Parecem saber do seu papel. Também estão dando suporte com água, alimentação, protetores solares, máscaras de proteção e barras de cereal em vários pontos da cidade, como forma de apoiar a manifestação. Incrível mesmo.

No Brasil, racismo é visto como problema só do negro

No Brasil, o racismo é visto como um problema apenas do movimento negro. Aqui nos EUA, por causa de muitas lutas pelos direitos civis desde a década de 1960 e mesmo pela cultura da autovalorização da comunidade preta, a sociedade toda está se posicionando. E os índices de violência policial contra negros deixam ainda mais explícito o racismo.

Quando cheguei nos EUA, fiquei surpresa por ver que a comunidade negra é representada por apenas 13,4% da população. Aos meus olhos, parecia muito maior, porque tem uma potencialidade histórica fortíssima para o mundo inteiro.

Aqui existe um sentimento de comunidade que me impressionou positivamente já na forma como as pessoas negras me tratam. Se estou no farol para atravessar a rua e se a pessoa dirigindo um carro for uma pessoa black, ela vai parar para eu atravessar e me acenar ou sorrir. Existe uma gentileza entre pretos. As pessoas negras me cumprimentam sem me conhecer, me enxergam como uma igual.

Os homens negros valorizam a beleza das mulheres negras de fato. Pode parecer estranho, mas em São Paulo, onde vivi, quando eu encontrava um preto a fim da preta? Era difícil acontecer. Entre as mulheres também existe uma irmandade. Encontrei uma grande família aqui.

Televisão mostra saques, eu não vi nenhum

Por outro lado, existe uma sociedade que foi explicitamente separatista até o movimento de direitos civis de 1960 e isso tem cicatrizes profundas. A mídia mostra isso o tempo todo, aliás. Enquanto a televisão, que desde sempre é dos brancos, mostra mais os saques e cenas de violência, o que eu presencio na imensa maioria dos protestos são tentativas de diálogo com policiais e discussões importantes sobre as pautas do movimento negro. Entre elas, a criminalização não apenas do policial que sufocou Floyd, mas dos outros oficiais envolvidos, que são cúmplices de uma violência do Estado.

Eu mesma não vi nenhum saque que a TV mostra. Os protestos são na maioria pacíficos e organizados. Em Chicago, uma amiga me contou que, depois do saque a uma loja, no outro dia de manhã, um grupo de pessoas da comunidade foi conversar com os comerciantes, se desculpando e buscado saídas porque a situação prejudica toda a comunidade.

Esse grupo pequeno fez uma ação que o grupo maior não concorda. Existe essa dualidade, de alguns grupos agirem de maneira mais ofensiva, e o grupo maior não tem como objetivo tacar fogo em carros ou saquear lojas.

Não sei responder quem está puxando esse atos que — com exceção do que houve em Minnesota, que foi uma justificada desobediência civil — chamo de vandalismo, sim. Mas acho fundamental pensar que, se a gente aprendeu a ser violento, foi porque sofreu muitos anos com a violência. Existe raiva, isso está na nossa história e nas nossas feridas. E ressalto: essa forma de agir aprendemos com os brancos. Lembrando que muitos saques são protagonizados por essa população também.

Vi questionamento, mas chamado para o diálogo

É preciso ainda questionar os valores dessa sociedade: estão atacando lojas e o próprio capitalismo em saques e fogo em patrimônios. Mas e George Floyd, que passou oito minutos sendo assassinado na rua a olhos vistos? É a extrema desumanização e crueldade, um linchamento público. Até que ponto a violência material está acima dos valores humanos? Não apoio, vandalismo mas vejo sentido. Se a forma de revidar o sistema vai no material, por que ver uma pessoa sendo morta não choca? Algum problema existe nisso tudo.

O que posso dizer, no entanto, é que o que eu vi no domingo passado, na grande manifestação. Me deu esperança. Vi famílias, crianças, policiais dialogando com o povo negro. Vi muitos jovens questionando a polícia com frases fortes, enfáticas, mas positivamente. Vi pessoas chamando os oficiais para se juntar à causa. Vi convites desesperados e também suaves para o diálogo saudável.

A única cena de violência que testemunhei me pareceu um infiltrado tentando provocar uma imagem negativa no protesto, coisa de suprematistas brancos, direita fascista. Era um homem branco provocando um negro e a galera pediu para o negro se controlar e não revidar, porque era exatamente isso que o outro queria. Corri dali, não é o que quero nas ruas.

A minha esperança é de que é possível, sim, que algumas coisas mudem. Digo isso pois testemunhei vários policiais se ajoelhando e se solidarizando às nossas causas. Me passou sentimento bom, massa, 'daora'."

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