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Advogada viraliza com homenagem a mães que perderam filhos negros: "Basta!"

Valéria dos Santos esteve em ato "Vidas Negras Importam", neste domingo, 31 de maio, no Rio - Marcus Steinmeyer/UOL
Valéria dos Santos esteve em ato "Vidas Negras Importam", neste domingo, 31 de maio, no Rio Imagem: Marcus Steinmeyer/UOL

Nathália Geraldo

De Universa

03/06/2020 04h00

O ato por vidas negras que levou manifestantes à porta do Palácio Guanabara, sede do Governo do Rio, no domingo (31 de maio), contou com uma voz em homenagem às mães que perderam seus filhos recentemente. A advogada Valéria Lúcia dos Santos pediu o fim do genocídio de jovens negros lembrando a morte de João Pedro, Ágatha Félix, Marielle Franco.

"Bastou, não quero mais! Por isso que estou aqui hoje. Eu sinto pela mãe do João Pedro, pela mãe da Ágatha, pela mãe da Marielle", disse, em um vídeo que viralizou nas redes sociais, feito pelo perfil @estudantesninja e divulgado pelo Mídia Ninja.

Valéria é negra e tem dois filhos negros que, desde 2011, moram nos Estados Unidos. Ela mesma, há dois anos, denunciou ter sido alvo de um episódio racista enquanto exercia sua profissão: em setembro de 2018, foi algemada em uma audiência em Fórum de Duque de Caxias, no Rio.

O caso teve repercussão pública à época, com cenas de Valéria deitada no chão publicadas na internet. A juíza leiga e os policiais envolvidos no caso foram absolvidos — Valéria quer levá-lo à Corte Internacional.

Em entrevista para Universa, por telefone, Valéria analisou o racismo que vitimiza negros e negras no Brasil e nos Estados Unidos. Revela que temia pelos filhos frente à violência cotidiana da Baixada Fluminense, onde mora, e que, por isso, decidiu enviar os dois para morar com o pai fora do país. "Eu pensava: eles são grandes, vão estar no meio da rua, de chinelo e camiseta no ombro, a polícia vai parar".

Filhos fora do Brasil

"Eu jogava basquete e saí do Brasil por causa do esporte. Casei e tive dois filhos nos Estados Unidos. Em 2005, voltei para cá para cuidar da minha mãe, que ficou doente. Meus filhos começaram a viver o cotidiano de Mesquita (Baixada Fluminense). Só que era o tempo da instalação das UPPs [Unidade de Polícia Pacificadora] e a violência começou a aumentar muito. Além disso, eu trabalhava na área de enfermagem, em 2009, resolvi voltar à faculdade para fazer Direito. Eu estudava e trabalhava.

Em 2011, mandei eles para morar com o pai; eles tinham 7 e 9 anos. Eu pensava na perspectiva que eles teriam: sempre foram grandes, vão estar no meio da rua, de chinelo e com uma camiseta no ombro, a polícia vai parar. Eles estão lá até hoje, jogam basquete e estudam. Nosso contato é virtual, e pretendo ir visitá-los neste ano".

Nos Estados Unidos, observei as relações raciais

"Enquanto eu morava lá, em Oklahoma, observei como era o negro americano. Lá, do racismo não é velado. É declarado. A grande maioria é branca, e tudo é separado. Meu ex-marido me explicava, porque para mim todo mundo era bom. A única coisa que tinha integração era a educação, porque houve medidas afirmativas.

Meus filhos hoje têm 17 e 19 anos e jogam basquete, o esporte vem desde a barriga.

Eles dão sorte porque têm biotipo de atleta, então, o esporte os protege [do racismo]. Tem aquela cultura de ser 'nosso atleta', que teve um investimento de dinheiro. Então a sociedade acaba protegendo.

Pelas mães dos que foram mortos

"Eu dei meu grito de liberdade em 2018; mas, ontem, eu gritei pelas mães de Ágatha, da Marielle...É um grito de quem o filho levou uma chibatada, um grito da senzala. E é questão de empatia. Todas as mães sofrem, independentemente da cor da pele. Você não sente empatia por uma menina que fazia balé, estudava inglês e foi morta [caso de Ágatha]? A gente perdeu uma criança. Deveriam ter mais mães dizendo: 'Basta'. Tenho sobrinhas netas, e sinto medo de que isso aconteça com elas.

Aliás, acho que o Estado antes de vir com a política de segurança dentro das comunidades, deve vir com as medidas públicas: saúde, saneamento básico, educação, emprego, estímulo e desenvolvimento da população. Aí, ele vem com a segurança pública. Se não vier com essas políticas em primeiro plano, ele não tem legitimidade para entrar com a polícia".

Caso de racismo enquanto advogava

"No caso da audiência em Caxias, eu não percebi que estava sofrendo racismo, sabia? Depois que fui analisar, pessoas me disseram para ler algumas coisas e eu percebi por esse ângulo. Mas já na faculdade, sofria com ações para não me estimular a estudar; no estágio, não era diferente: os procuradores, advogados brancos tratavam bem quem servia o café, e me tratavam mal. Depois, uma colega me disse que eles não viam a gente como pertencente àquela bolha deles".

Sobre a absolvição

"No dia seguinte o desembargador mandou investigar, todos deram depoimentos, inclusive eu. Ele já disse que não houve improbidade administrativa nem desvio de conduta dos policiais e da juíza leiga. Só que quem apura não pode julgar, porque fica contaminado.

A OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] tentou recorrer no Conselho Nacional de Justiça, CNJ, mas não conseguiu. Estou esperando um processo que a juíza moveu contra a Rede Globo, pedindo direito de resposta, porque quero pedir para entrar como terceira parte interessada. Aí, quero levar o caso para a Corte Internacional e mostrar que no meu país é difícil ser negro. Mesmo que você trabalhe para o desenvolvimento do Brasil, as pessoas vão achar que você é um ser de segunda classe".

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