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De Manguinhos a Paris: cabeleireiro vence racismo, homofobia e pobreza

Amadeu Marins - Arquivo Pessoal
Amadeu Marins
Imagem: Arquivo Pessoal

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

01/06/2020 04h00

Se a Cinderela fosse cabeleireira, a história dela talvez fosse parecida com a de Amadeu Marins. Criado em uma comunidade do Rio, negro, gay e órfão, viu o sonho de jogar handebol profissionalmente ser destruído por problemas no joelho e encontrou o seu dom como colorista de cabelo. Hoje, trabalha no salão David Mallet, um dos mais importantes do mundo, que atende estrelas como Kate Winslet, Julianne Moore e Penélope Cruz.

Aos 27 anos, Amadeu viu sua vida mudar completamente em cinco anos e tem uma história de filme para contar. Venceu a pobreza, a homofobia e o racismo —ele é o único negro e latino da equipe— e foi o primeiro colorista a ser contratado diretamente como profissional na história do Mallet, onde geralmente todos começam como assistentes.

Conheça a história do cabeleireiro que saiu de uma comunidade no Rio para uma carreira estrelada em um salão de luxo de Paris.

*

"Eu fui criado na favela de Manguinhos, na zona norte do Rio, até os 6 anos de idade, quando perdi a minha mãe. Aí, passei a ser criado pela minha madrinha, uma amiga da minha mãe, em Pilares, também na zona norte. Quando eu tinha 8 anos, meu pai morreu, por problemas com álcool e drogas.

Na família em que eu cresci, todo mundo era branco. Eu recebi uma criação muito rígida, minha madrinha me criou dizendo que eu tinha sempre que ser o melhor dos melhores por ser negro. Tive uma vida muito humilde, passei muita necessidade. Já ficamos meses sem luz, sem água, já dormi muitas vezes com fome.

E eu sempre fui gay, sendo que, nos anos 2000, como uma criança gay, eu escutei muita coisa ruim, comentários homofóbicos, principalmente do meu padrasto, que dizia que preferia ter filho bandido do que filho 'viado'. A minha madrinha era mais tranquila.

O esporte deu e tirou

Até que eu comecei a jogar handebol e o esporte me possibilitou uma vida melhor, diferente. Eu, que sempre tinha estudado em escola pública, ganhei bolsa por conta do esporte em colégios particulares do Rio. Saí de casa com 14 anos e fui morar nos alojamentos. Em algumas escolas de classe média, fui confrontado com outras realidades, como aluno negro e gay. Conheci cidades diferentes do Brasil por conta do esporte.

Amadeu Marins - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Quando eu fiz 18 anos, eu tive uma concussão nos dois joelhos. Sentia muita dor e continuei treinando mesmo machucado. Atleta de alto nível sofre muito e eu precisava de uma cirurgia que os clubes não tinham dinheiro para pagar. Precisei parar de jogar.

Trabalho em (muitos) shoppings

Parei de treinar e fui trabalhar em shopping, como lojista, com 17 para 18 anos. Comecei no Norte Shopping, fui para o Nova América, depois Shopping Tijuca, Plaza Shopping, em Niterói e, Rio Sul, na zona sul. Eu entrei na loja Melissa como estoquista e saí de lá como gerente. Lá, eu tive esse contato com a moda, comecei a estudar, se tinha workshop, eu fazia.

Na verdade, sempre gostei de moda. Quando pequeno, eu via desfile na TVE. Fiquei quatro anos trabalhando em shopping. Nesse período, tentei fazer um curso técnico em Administração, tentei um Técnico em Segurança do Trabalho e não me identificava com nada daquilo, mas eu amava a rotina de trabalhar no shopping, sempre peguei amizade fácil, conhecia todo mundo.

Quando tudo mudou

Um dia, aos 22 anos, uma amiga falou que queria assistir a uma palestra sobre cabelo no Instituto L'oréal da Tijuca e eu resolvi ir com ela. Chegando lá, eu me apaixonei pela profissão. Sério, à primeira vista. Saí de lá matriculado no curso de cabeleireiro. A amiga que foi comigo saiu para fumar um cigarro e nunca mais voltou.

Nesse momento, eu estava em um relacionamento sério, e morava com a família do meu namorado, e a mãe dele me ajudou a financiar boa parte do meu curso, que era caro. Sou muito grato a ela por isso. O curso teve fases que era em período integral, então eu larguei o trabalho no shopping para me dedicar ao curso, que era das 8h às 17h.

A minha ex-sogra fazia salgados e eu ia vender para os meus amigos do shopping durante o intervalo do curso, e também para o pessoal que fazia o curso comigo. Eu pagava a mensalidade vendendo salgados e assim completei minha primeira formação como cabeleireiro, depois de um ano.

Amadeu Martins - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Cortar cabelo nunca foi o que eu gostava, eu sempre amei trabalhar com cor. No final do meu curso, fui trabalhar de assistente de colorista em um grande salão da Tijuca. Aprendi muito.

Uma amiga do salão me levou para um curso da Wella Professional. Fiz tantos cursos lá que depois de um tempo me chamaram para trabalhar. Eu passei a ser a pessoa que mostrava como funcionavam os produtos, fui a todos os Senac do Rio representando a marca. Fiquei um ano fazendo isso. Depois ministrei cursos nos centros técnicos da marca. Foi uma experiência incrível.

Nesse período, surgiu um curso em São Paulo que era caríssimo —custava R$ 2.500 por dois dias. Pedi dinheiro emprestado, fiz cabelo em troca de passagem e dormi na rodoviária do Tietê. Nenhum trauma por isso. Lá, fiz amizades.

Depois, saí da Wella e fui trabalhar no Fil Hair & Experience, em Ipanema, na zona sul do Rio. Lá era muito diferente da minha experiência em salão, na Tijuca. O Fil era um salão de luxo. Mas eu continuei atendendo os mesmos clientes de antes. Meu trabalho passou a ter uma pegada cool, eu tinha clientes pretas, trans, as antigas clientes da Tijuca, do Complexo do Alemão. Isso transformava o salão em alternativo, cheio de gente estilosa. Eu fazia preços diferenciados para que esse público fosse para lá.

Como os diretores acreditavam muito no meu potencial, eles investiram na minha formação profissional e pagaram dois cursos internacionais. Um na Dessange, em Paris, e outra na Toni and Guy, em Londres. Passei um mês fazendo cursos. Eu sempre tive o sonho de morar fora, desde quando era atleta. Quando eu estive em Paris, me senti muito conectado aquele lugar. Tive muito destaque nos cursos internacionais, ganhei cartas de recomendação para se eu um dia eu quisesse trabalhar na Europa. Era um sonho.

Planos internacionais

Pouco tempo depois de voltar para o Brasil, saí do Fil. Fui para o Crystal Hair, um dos salões mais clássicos do Rio. Queria abrir agenda em outros lugares, então comecei a ir uma vez por mês a São Paulo, Porto Alegre, Salvador, e o salão me permitia essas brechas na agenda.

Então comecei a querer ir para fora do país e descobri um visto de trabalho que se chama férias de trabalho, para a França. Comecei a juntar dinheiro, mas meu trabalho estava bombando no Brasil e todos me diziam que eu estava doido em querer sair do país naquele momento.

Uma vez, perguntei para um colega do Crystal qual era o melhor salão do mundo, e ele falou do David Mallet, disse que era um dos maiores do mundo, que ditava tendência. Guardei aquele nome e fiz contato com ele por Instagram. Ele passou a me seguir, a gente comentava no perfil um do outro, eu falei da vontade de trabalhar com ele, ele pediu que eu mandasse um currículo. Mas não passou disso.

Consegui o visto, juntei uma grana e fiz uma viagem para a Europa em março de 2019. Preparei um currículo legal e entreguei em um monte de salão, fiz entrevistas, e fui contratado.

Meu emprego começaria lá em julho. Voltei para o Brasil, para arrumar minha vida, e, bem nesse meio tempo, conheci meu namorado. Falei para ele que iria me mudar, ele gostou da ideia e viemos juntos para a Europa. Comecei em uma rede de salões chamada Jean Marc Joubert e tive uma recepção muito positiva.

Lógico que tive que mudar muito o estilo, já que a brasileira gosta de um cabelo mais vibrante, e aqui, a mulher quer um cabelo mais sutil. Eu trabalhei também em Londres no Foster, um lugar super cool. Minha carreira estava acontecendo.

Quando eu cheguei em Paris, o David Mallet continuava em contato comigo pelo Instagram e viu que eu estava morando em Paris, mas nada aconteceu. Até que, depois que algumas clientes me chamaram, eu abri uma agenda em Nova York, no salão de uns amigos, para passar um fim de semana atendendo lá. O David estava lá justamente nesse fim de semana e a gente conversou lá em Nova York. Ele me chamou para trabalhar na equipe dele.

Eu queria muito isso, mas não imaginava que poderia ser tão rápido, sabe? Trabalho aqui desde janeiro deste ano. Estou contando minha história sentado aqui dentro. É um salão de luxo de grande nível. Princesas do Oriente Médio fazem o cabelo aqui, dão gorjeta em farelo de ouro. Uma coloração simples varia de 200 euros [cerca de R$ 1.2000] a 1.000 euros [R$ 5.920]. Os assistentes aqui andam de Chanel. O salão tem uma estética com bichos empalhados, é muito diferente de qualquer outra coisa.

Agora, com a reabertura do salão depois da pandemia, as duas primeiras semanas ficaram bem cheias. Tudo mudou, a gente tem que usar óculos, viseira e máscara e a equipe está trabalhando dividida em dois turnos, para o salão não encher.

Eu ainda quero conquistar mais. O David Mallet sempre leva dois profissionais para atender na unidade do Soho, em Nova York, e agora quero ser um dos assistentes a ir com ele para lá."

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