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Em aldeia do Pará, médica diz que conter Covid entre indígenas é desafio

A médica Ismênia Cruz - Michele Crispim/Arquivo Pessoal
A médica Ismênia Cruz Imagem: Michele Crispim/Arquivo Pessoal

Tereza Novaes

Colaboração para Universa

28/05/2020 04h00Atualizada em 28/05/2020 18h09

Para chegar ao seu posto de trabalho, a médica Ismênia Cruz, 30, já teve até que encarar uma tempestade durante um voo de monomotor sobre a floresta amazônica. "A gente não enxergava nada e o piloto disse que teríamos que ir para uma cidade próxima. Morri de medo, mas, no final, a chuva passou e conseguimos pousar na aldeia e em pleno sol", lembra.

Contratada do programa Mais Médicos há 1 ano e meio, Ismênia atua dentro de aldeias no sudeste do Pará e enfrenta agora um desafio tão ou mais assustador que aquela viagem de avião: o avanço da Covid-19 pelo país. "Somos todos um só nesta pandemia, a mesma preocupação que tenho com a minha família é a que tenho com meus pacientes e comigo", diz. "A diferença é a infraestrutura. Meus pais estão com a minha avó em isolamento total na cidade onde nasci, São Domingos do Araguaia, no Pará. Eles têm plano de saúde, embora o sistema privado também esteja sobrecarregado."

Ismênia conversou com a reportagem de Universa por meio da precária internet da aldeia onde está há 14 dias —o nome da comunidade será preservado. São cerca de 500 moradores e nenhum caso da doença foi confirmado. A médica alterna 15 dias de trabalho com 15 dias de folga. Depois que ela partir para o recesso, nesta sexta-feira, eles só poderão contar com a ajuda remota de Ismênia, pelo telefone —mas não raro ela estende sua estada ou retorna para atender emergências.

Ismênia na aldeia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Ismênia em atendimento na aldeia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Durante os dias em que fica nessa aldeia, sua casa é o posto de saúde, localizado a cerca de 150 metros do centro da comunidade, que conta com uma cama, um luxo que não existe em todos os alojamentos nos quais se hospeda.

"Na maioria das vezes, atendo ao ar livre ou na casa de alguém. Poucos lugares têm posto de saúde. Médico de saúde indígena trabalha com atenção primária à saúde e é generalista, atendo recém-nascido, grávida, idoso, diabético, hipertenso", relata.

Depois de concluir o curso na Universidade Federal do Pará, a médica se mudou para o Rio de Janeiro, onde descobriu sua vocação. "Fui em 2015, sem emprego nem experiência, só tinha um ano de formada. Consegui uma oportunidade no programa Consultório na Rua, que atende a população mais carente com equipes multidisciplinares. Foi a experiência mais transformadora que tive dentro da medicina. Todos os dias via muita miséria, muito sofrimento, tive que me adaptar, foi a oportunidade que a vida me deu para aprender a trabalhar meu distanciamento sem perder a empatia e a ternura pelo paciente."

O que viveu nas ruas da Lapa carioca fez Ismênia perceber o que deseja da medicina: cuidar de pessoas. Antes, a sua indecisão sobre qual especialidade seguir era motivo de grande sofrimento. "Sempre que você diz que é médico, a pergunta seguinte é: qual sua especialidade? E isso acabava comigo, porque eu não tinha."

"Na época, eu era imatura, enxergava como algo que me tornava menor", relembra. Depois de muita terapia e muitos pacientes atendidos, ela passou a se considerar "especialista em gente". Atualmente, ela cursa especialização em Saúde Indígena na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Ismênia no posto de saúde da aldeia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ismênia no posto de saúde da aldeia
Imagem: Arquivo Pessoal

Sobre o avanço do coronavírus pela região Norte, ela diz: "Compartilho dos mesmos anseios de outros médicos que trabalham no SUS. A questão da atenção secundária [ambulatórios] e terciária [hospitais de alta complexidade], de como o sistema está sobrecarregado. Meu medo é perder meus pacientes antes de eles terem atendimento hospitalar."

"Também temo o início da transmissão comunitária. Nesta aldeia, já tivemos casos suspeitos que foram descartados, mas não sabemos até quando vamos conseguir impedir o vírus de entrar aqui", diz. Ela também dá expediente em outras 30 aldeias: em algumas já houve registro da doença, mas sem mortes.

Assim como em outras comunidades do país, a maior dificuldade agora é manter o distanciamento social. "É difícil fazer quem por algum motivo saiu para a cidade se isolar por sete dias em casa na volta. Porque eles vivem em comunidade, eles são uma grande família e a vida deles é estar junto. Isso me causa muita angústia."

Já existe um plano de ação traçado para um possível agravamento do problema. Já há um comitê de controle de epidemiológico e equipes de resposta rápida, compostas por médicos, enfermeiros e técnicos. A primeira avaliação é feita por Ismênia.

Ismênia em atendimento - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Preventivamente, a médica está trabalhando paramentada o tempo todo no clima quente e úmido da Amazônia. Até por isso, o contato com os indígenas ficou mais difícil.

"Também não tenho tido tempo de sentar com os mais velhos, como costumo fazer, para conversar. Percebi que o uso das plantas medicinais aumentou entre eles. O que dá para sentir é a preocupação. Eles estão com medo e ansiosos."

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