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"Sinto que vou morrer aqui": ela deu à luz em coma com Covid e não resistiu

Dayane Galvão, que contraiu Covid-19 grávida e teve que fazer uma cesárea em coma, morreu da doença - Arquivo Pessoal
Dayane Galvão, que contraiu Covid-19 grávida e teve que fazer uma cesárea em coma, morreu da doença Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

25/05/2020 04h00

Grávida de 29 semanas, Dayane Galvão, de 25 anos, não teve oportunidade de conhecer a filha Ágatha após o parto. Infectada com o novo coronavírus, ela ficou 24 dias internada e deu à luz em coma. Acordou e conseguiu ler uma carta do marido, Antonio Carlos Filho, 27, dizendo que a menina estava bem. O quadro de Dayane então se agravou e ela morreu no último dia 12 de maio.

Neste depoimento, Antonio conta como tem lidado com a perda da esposa, as visitas que têm feito à filha no hospital e a expectativa de levá-la logo para casa:

"Eu e a Dayane nos conhecemos desde criança, éramos amigos. Ela foi morar duas vezes no Rio de Janeiro e, na segunda que vez que voltou para Fundão, no Espírito Santo, em 2018, nós nos reaproximamos, começamos a namorar e nos casamos.

Comentei com ela que meu sonho era ser pai. Minha esposa já tinha dois filhos de outro relacionamento, um menino de 11 e uma menina de 6, que moravam com a gente na casa do meu pai. Ela concordou em aumentar a família e, em pouco tempo, engravidou da Ágatha.

Foi uma alegria quando ela me contou: 'Estou grávida, você vai ser papai'.

Dayane e marido - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Dayane e o marido, Antonio
Imagem: Arquivo Pessoal

Ela fez o pré-natal certinho, não teve nenhum problema ao longo da gravidez. Eu a acompanhava em alguns ultrassons quando conseguia folga no trabalho. Fiquei emocionado a primeira vez que ouvi o coração da Ágatha bater.

Dayane tinha medo de pegar o vírus por causa da bebê

A Dayane estava na metade da gestação quando começaram a surgir os primeiros casos da Covid-19. Ela tomava todos os cuidados, evitava sair de casa e só saía mesmo em caso de necessidade, com máscara e luva, para ir às consultas, fazer os ultrassons e comprar o enxoval. Quando chegava, tomava banho e colocava a roupa para lavar. Ela comentava que morria de medo de pegar o vírus por causa da bebê.

No meio de abril, eu tive alguns sintomas: febre, dor de cabeça e um pouco de tosse. Dois dias depois, Dayane apresentou os mesmos sintomas, mas ela teve uma febre muito alta. Eu colocava a mão nela e parecia que ela estava pegando fogo.

Dayane grávida - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Nós dois fomos ao pronto-socorro. O médico falou que possivelmente estávamos com uma virose, que tinha bastante gente na região com esse quadro. Tomamos medicação e eu melhorei, mas quando chegamos em casa ela piorou. Além da febre, ela começou a tossir muito e a sentir cansaço. Ela passava a maior parte do tempo deitada.

No dia 19 de abril, eu a levei em outro hospital. Ela foi examinada e os médicos suspeitaram que ela estava com coronavírus. Fizeram o exame, mas o resultado sairia em dez dias. Nesse mesmo dia ela foi encaminhada para um outro hospital, na Serra, e fez outros dois exames de corona: um teste rápido e outro que também ia demorar para sair.

Ela ficou em observação por alguns dias. Como eu também estava com suspeita de ter o vírus, me informaram que não poderia ficar de acompanhante. Com ela internada e eu em casa, nós nos comunicávamos por videoconferência. A gente conversava, brincava, eu perguntava como estava a bebê e ela dizia que estava bem, que estava se mexendo bastante.

'Estou sentindo que vou morrer aqui'

Passados dois dias, minha esposa teve um quadro inicial de pneumonia e o resultado do teste rápido deu negativo. Foi quando ela colocou na cabeça que queria ir para casa. Ela me ligou e disse: 'Eu não estou com coronavírus, o que eu vou ficar fazendo aqui? Eu trato a pneumonia em casa. Eu quero ir embora, estou sentindo que vou morrer aqui'. Ela chorava com medo de perder a bebê.

Nesse dia eu estava no estacionamento do hospital, tinha ido buscar o boletim médico dela. Ela deixou o hospital mesmo sem receber alta. Eu tentei convencê-la a voltar, falei que ela estava grávida, que ela tinha que pensar na Ágatha.

Ela estava com muito medo, parecia que estava adivinhando que ia morrer.

Eu estava de moto, mas arrumei um carro com um conhecido, que foi nos buscar. No caminho, a Dayane começou a passar mal, a tossir e a ter muita falta de ar. Nós voltamos para aquele primeiro hospital que o médico tinha falado da virose. A equipe já estava sabendo do caso dela e a orientou a voltar para o hospital em que ela estava internada. Ela concordou, recebeu oxigênio e o Samu foi buscá-la.

Ela entrou na ambulância, me deu tchau e falou: 'Amor, vai para casa descansar'. Foi a última vez que eu vi minha esposa com vida.

Isso aconteceu no dia 22 de abril, a Dayane estava com 29 semanas de gestação.

Dois dias depois, os médicos me chamaram para falar que o caso dela era muito grave, que o pulmão dela estava debilitado e que eles iriam fazer uma cesárea de emergência. Segundo eles, havia o risco das duas não sobreviverem. Eu entrei em desespero, não queria perdê-las.

Em coma induzido, fizeram o parto

Os médicos colocaram a Dayane em coma induzido e fizeram o parto. A Ágatha nasceu no dia 24 de abril pesando 1,2 quilo. Como ela era prematura, foi para a UTI neonatal e precisou da ajuda de aparelhos para respirar. Depois do nascimento, a Dayane melhorou, a tiraram do coma e contaram da cesárea.

Mandei uma carta para ela contando que a nossa filha estava bem, para ela não se preocupar, ser forte e se recuperar. Junto com a carta, enviei uma foto nossa, com os outros dois filhos dela. Ela chorou bastante.

Alguns dias depois do parto, saiu o resultado daquele outro exame e foi confirmado que ela estava com coronavírus. Ela estava bem, mas teve uma piora na respiração e foi sedada novamente. Não cheguei a fazer o teste, mas cumpri a quarentena em casa e, quando acabou, fui conhecer a Ágatha.

Fiquei emocionado quando vi minha filha, ela tem os olhos da mãe. Sentia um misto de felicidade e tristeza por tudo que estava acontecendo.

Não podia fazer nada além de rezar, ter fé, confiar em Deus e na equipe.

Acreditei até o fim que a Dayane ia se curar, mas no dia 12 de maio ela não resistiu. Eu estava na UTI visitando a minha filha quando ela faleceu, mas só fui saber na hora em que fui pegar o boletim dela.

A médica me chamou e quando ela iniciou a frase 'nós tentamos de tudo...' eu já comecei a tremer. Meu olho encheu de lágrima e eu pensei: 'Minha esposa faleceu'.

Meu mundo desabou, mas Ágatha me dá força

Na hora que ela terminou de falar, meu mundo desabou. Infelizmente a Dayane não teve a oportunidade de ver a filha pessoalmente, nem por foto e nem por vídeo. O enterro dela não teve velório e foi com caixão fechado. Eu, alguns amigos e familiares fizemos uma oração e nos despedimos. Eu só chorava.

Fizeram o teste de coronavírus na Ágatha e graças a Deus ela não foi infectada. O quadro dela está estável, ela está respirando sozinha e em processo de ganhar peso.

Durante as visitas, eu falo para ela que a mãe dela a amava muito. Eu digo que ela foi morar com o papai do céu, que vai cuidar dela de lá e eu aqui da Terra. Eu vou fazer de tudo pela minha filha, jamais vou abandoná-la.

Registrei minha filha como Ágatha Letícia Vitória Galvão Bruno, porque o nascimento dela representa uma vitória dada as circunstâncias em que nasceu. É ela quem me dá força, alegria e motivação para viver. Se não fosse por ela, nem sei como estaria. Está sendo muito difícil lidar com tudo isso. Meu sonho é poder trazê-la para casa e começar a construir a casa própria em que eu e a Dayane tínhamos planejado morar.

Inicialmente vou voltar para a casa do meu pai e os dois filhos da minha esposa vão ficar com o pai deles. Tenho recebido o apoio da minha família e dos meus amigos, que estão fazendo uma vaquinha online para arrecadar dinheiro para os gastos com a minha filha. Como eu preciso trabalhar, minhas cunhadas vão me ajudar nos cuidados com ela.

Sinto muita falta da Dayane. Sou apaixonado pela minha esposa, que mudou a minha vida e só me fez bem. Vou sempre preservar a memória dela para a Ágatha, contar como a mãe era uma pessoa trabalhadora, carinhosa, alegre e atenciosa. A Dayane realizou meu sonho de ser pai, vou honrar esse compromisso com a minha filha."

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