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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


"Limites bioéticos estão sendo rompidos", alerta geneticista sobre Covid

A pesquisadora Nilza Maria Diniz  - Arquivo Pessoal
A pesquisadora Nilza Maria Diniz Imagem: Arquivo Pessoal

Janaina Garcia

Colaboração para Universa

17/05/2020 04h00Atualizada em 18/05/2020 15h55

Ao tratar da pandemia de coronavírus, a bióloga geneticista e bioeticista Nilza Maria Diniz prefere apontar como fator de maior preocupação os "comportamentos de risco", em vez dos chamados "grupos de risco". A referência dela vem dos casos de Aids que explodiram pelo mundo na década de 1980, quando a doença era associada a grupos como homossexuais, quando, na realidade, o comportamento de não prevenção era fator mais relevante para a disseminação do vírus HIV.

Entre os comportamentos de risco que ela aponta, está o não uso de máscaras pela população - um dos pontos que são debatidos por um comitê internacional de pesquisadores atentos aos aspectos de ética e bioética da Covid-19, do qual Nilza faz parte.

Aos 57 anos, a paulistana que vive há mais de duas décadas em Londrina, no interior do Paraná, é a única representante do Brasil no WeCope (World Emergency Covid19 Pandemic Ethics Committee ou Comitê Mundial Emergencial de Ética para a Pandemia da Covid-19), que reúne pesquisadores de todos os continentes - entre os quais, nomes ligados à Nasa, à Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e ao Parlamento Europeu.

Para Universa, a professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) fala dos trabalhos no comitê, para o qual foi convidada em janeiro - dois meses antes de a OMS (Organização Mundial da Saúde) elevar o alerta e qualificar Covid-19 como uma pandemia. Ela cita alguns debates, como o que trata da difícil escolha, nos hospitais, sobre quem vai ter direito ao respirador em eventual cenário de colapso.

"É uma escolha de Sofia dolorida, e isso não pode carregar ainda mais o sistema de saúde. Será necessário que as unidades hospitalares tenham comissões emergenciais de Covid para dar suporte a essas escolhas", diz.

A base do WeCope são pesquisadores do Eubios Ethics Institute, vinculado à American University of Sovereign Nations. A equipe de PhDs com quem ela atua, nas discussões feitas remotamente, se propõe a realizar debates, estudos e artigos científicos sobre as questões morais, na perspectiva da ética e da bioética, da covid-19. A maior parte dos pesquisadores são mulheres.

Um dos principais pontos em discussão no comitê, que encaminha suas sugestões para universidades e governos, é sobre o uso da máscara como forma de proteção do indivíduo. Ela diz que alguns governos omitiram a recomendação no início da pandemia. "O imperativo ético é este: se o governo é o representante das pessoas, tem que ter responsabilidade social e dar toda a informação sobre o uso do que possa protegê-las. É preocupante que o Brasil tenha tomado esse rumo."

Leia, a seguir, trechos da entrevista com a pesquisadora.

Universa: Qual é a principal questão ética sobre a pandemia neste momento?

Nilza Maria Diniz:
Acredito que é o fato de muitos governos ainda não se empenharem em entender que economia não está apartada da saúde. Se não tiver trabalhadores, porque eles adoecem ou morrem, não tem economia. As pessoas têm que dominar seu ímpeto de explorar os outros - e fazer um mea culpa em relação a isso que perpasse também a redução do consumismo.

O vírus não quer saber se você é rico ou pobre, patrão ou empregado: ele só quer saber de encontrar a sua célula. Ele não vai negociar sobre quem infectar - e por essa razão não posso concordar com a ideia de que exista uma 'guerra contra o vírus', como está mais ou menos incorporado no discurso social. Quando há uma guerra, há a possibilidade de um acordo, de um bom termo pela paz. Com o coronavírus, não tem acordo. O que temos são medidas de contenção. Como na Aids, que também não foi erradicada, o problema não são os grupos de risco, mas os comportamentos de risco.

O mundo aguarda a descoberta de uma vacina contra o coronavírus. Qual a perspectiva?

Esse é um vírus sistêmico, com vários tipos de sintoma e um "sucesso" incrível quanto à contaminação: todos estamos expostos. Até mesmo jovens, mesmo que sem comorbidades. Temos em torno de 120 vacinas sendo pesquisadas em todos os países com laboratórios. Mesmo que uma vacina leve no mínimo um ano e quatro meses para ficar pronta, são cinco ou seis anos até se chegar, de fato, a uma vacina bastante confiável.

Nós, geneticistas e também os virologistas, sabemos já desde a década de 1990 que haveria uma pandemia —porque, como acabamos invadindo o espaço de animais, entramos em contato com os vírus que os infectaram [o coronavírus, por exemplo, foi detectado primeiramente em morcegos]. Só não sabíamos quando. Devo dizer que não tem como não achar bonito ver a ciência acontecendo em tempo real. Porque uma característica própria dela é refutar-se o tempo todo - e, nesta pandemia, essa duplicação do conhecimento acontece a cada 4 horas, porque temos mesmo uma força-tarefa mundial direcionada à solução da questão. Já são mais de 10 mil trabalhos sobre a pandemia desde o começo do ano.

A senhora disse que há 120 projetos de vacina no mundo. Esse trabalho deveria estar sendo feito em conjunto, de forma global?

Certamente.

Acho uma vergonha que tenhamos vários laboratórios atuando isoladamente, sob a mesma perspectiva, quando o ideal seria que tivéssemos vários laboratórios se juntando em torno disso.

O comitê já produziu algum documento?

Uma de nossas prioridades é compilar nossas conclusões em relatórios e documentos que acabam enviados a universidades e governos. Trabalhamos agora na responsabilidade pela triagem e acesso a leitos.

É razoável escolher que o mais jovem vá para o respirador, como já acontece no Rio? Sinceramente, não há ainda um consenso.

Por outro lado, estamos já quase chegando a um consenso, dentro do comitê, de que não há meios para um médico definir isso: já é demais para esse profissional e para o sistema a carga física e emocional de ter de tratar o paciente em uma situação de pandemia, e muitas vezes, em situações precárias. É uma 'escolha de Sofia' dolorida, e isso não pode carregar ainda mais o sistema de saúde. Será necessário que as unidades hospitalares tenham comissões emergenciais de Covid para dar suporte a essas escolhas.

O primeiro relatório foi sobre o uso de máscaras. Quais as conclusões?

Há uma crítica duríssima ao fato de alguns governos terem omitido a efetividade de que as pessoas usassem a máscara desde o início da pandemia. Porque o imperativo ético é este: se o governo é o representante das pessoas, tem que ter responsabilidade social e dar toda a informação sobre o uso do que possa proteger seus cidadãos. É preocupante que o Brasil, por exemplo, tenha tomado esse rumo - ainda que, no começo, se tenha argumentado, com razão, que as pessoas não comprassem as máscaras hospitalares para que não faltasse suprimento no país às equipes de saúde.

Qual sua avaliação sobre as máscaras caseiras?

Sou a favor. Máscaras de tecido, especialmente as de tricoline, impõem uma barreira física tanto para saída quanto para entrada de gotículas. Por sinal, esse aspecto [risco de assintomáticos contaminarem outros] é tema de outro documento em elaboração pelo comitê: o que trata da autonomia individual e da responsabilidade social das pessoas. É uma forma de dizer: saiba que seus comportamentos de risco têm impacto para um monte de gente.

De novo, o exemplo da Aids: nas décadas passadas, era comum ouvir que os homossexuais eram o grupo de risco. No entanto, muitas mulheres acabaram contaminadas porque seus parceiros fixos tinham relações extraconjugais e não se protegiam, tampouco as protegiam, depois. Com a pandemia, os comportamentos de risco também precisam ser mitigados: tem que usar a máscara, é ela a barreira de contenção, ainda que não seja 100% eficaz.

Diante de uma crise como essa, com centenas de milhares de mortos e a corrida por uma descoberta que trate ou cure, estamos rompendo limites bioéticos?

Infelizmente, limites bioéticos já estão, sim, sendo rompidos. Por exemplo, médicos já receitaram anti-inflamatório como possível solução para a Covid sem qualquer protocolo analisado pelas autoridades competentes, sendo que temos mais de 200 medicamentos em testes pelo mundo - sem contar as vacinas.

No Brasil, houve estudo feito de forma muito equivocada sobre o uso de hidroxicloroquina — com relato de consequências sérias para os pacientes: de arritmias a mortes.

As afirmativas sobre cloroquina e a hidroxicloroquina só terão maior valor se forem baseadas em protocolos validados pelo sistema CEP [Comitê de Ética em Pesquisa; ligada às universidades]-CONEP [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, ligada ao Conselho Nacional de Saúde], no qual há hoje uma força-tarefa com respostas bastante rápidas por conta da pandemia. É esse sistema que avalia os aspectos éticos das pesquisas que envolvem seres humanos. Portanto, não há motivos para que alguns médicos façam testes sem respaldo moral e sem parecer da Conep - e sabemos que há profissionais que não estão observando isso.

Como a senhora vê o cenário brasileiro de combate ao coronavírus hoje?

Com pouco otimismo, neste momento, porque temos observado um avanço do vírus dos grandes centros para o interior, onde a capacidade hospitalar é mais restrita. E se houver um relaxamento da quarentena nas cidades maiores, por menor que seja, as pessoas vão viajar para o interior.

Penso que essa consciência sobre a conduta moral mais adequada frente ao problema foi muito prejudicada porque existe uma confusão entre governadores, que estão tendo um comportamento republicano sobre a doença, e o presidente, que tem manifestado um discurso "soberanista".

Esse não ajuste dos discursos impediu que a curva de contaminados fosse achatada aqui mais cedo.

Além disso, não há respaldo moral algum no fato de alguém morrer porque não teve assistência médica após os comportamentos de risco coletivos renegarem medidas que estavam às mãos de quaisquer um de nós. Tem que se adotar isso para diminuir o número de pessoas que precisarão de atendimento, de UTIs e de respiradores. Mesmo porque, se isso acontecer, vão morrer também muitos profissionais de saúde. As simulações que temos visto sobre isso são estarrecedoras.

Que comportamentos de risco a senhora tem evitado?

Minha mãe tem 83 anos e Alzheimer, vive na cidade de São Paulo, não a vejo há três meses. A ética pressupõe que eu, sob hipótese alguma, a visite agora. Não temos alternativas se quisermos que isso acabe logo.

Eu militei no movimento estudantil quando fazia faculdade na USP em Ribeirão Preto, no começo da década de 1980. Ver hoje as pessoas nas ruas defendendo autoritarismo e o direito de se aglomerar, quando não temos ainda remédio nem vacina para lidar com uma pandemia, dá uma sensação terrível de fracasso. É uma tristeza.

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