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Sem venda por pandemia, livro de violência obstétrica ganha apoio nas redes

Abusos físicos e psicológicos da mulher no momento do parto é tema da publicação de jornalista; livro viralizou no Twitter - Irina_Qiwi/Getty Images/iStockphoto
Abusos físicos e psicológicos da mulher no momento do parto é tema da publicação de jornalista; livro viralizou no Twitter Imagem: Irina_Qiwi/Getty Images/iStockphoto

Nathália Geraldo

De Universa

15/05/2020 15h41

Desde que mulheres passaram a falar mais sobre a violência obstétrica que sofreram, a questão entrou em pauta e virou até tema de documentário. A então estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Tocantins Caira Kelle da Silva Lima também se interessou pelo tema e, em meados do ano passado, escreveu como trabalho de conclusão de curso um livro-reportagem sobre as dores de quem foi violentada durante o parto. Nota dez pela banca, o livro foi impresso por ela, depois de uma confusão com a editora original da publicação.

Caira se viu com quase 500 livros encalhados em sua casa. Até que na noite de quinta-feira, 14, decidiu fazer uma publicação no Twitter sobre eles — e muita gente resolveu apoiar a escritora pela rede social.

Livro sobre violência obstétrica

Ilustração do livro "A dor mais doída", da jornalista Caira Lima - Divulgação
Ilustração do livro "A dor mais doída", da jornalista Caira Lima
Imagem: Divulgação

Caira conta que o livro, que se chama "A dor mais doída", traz relatos de quatro mulheres de gerações diferentes a respeito do que vivenciaram no momento em que davam à luz. É revisitando os traumas das personagens, que a jornalista constrói a reportagem — uma forma que encontrou de "devolver à sociedade" sua contribuição, por ter feito o curso de Jornalismo em uma faculdade pública.

"Sou de São Félix do Xingu, no interior do Pará, e mudei para Palmas para fazer faculdade. Queria que meu trabalho fosse algo que servisse à sociedade. Minha tia que é assistente social milita pelo parto humanizado, então, escolhi falar sobre isso", explica Caira para Universa.

A visibilidade para o tema é, de fato, necessária: segundo a pesquisa "Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado", realizada em 2010, pela Fundação Perseu Abramo e Sesc, uma a cada quatro mulheres sofre alguma forma de violência —física ou psicológica— na hora do parto (foram entrevistadas 2.365 mulheres). A violência pode até ganhar outras camadas, associada a preconceitos de gênero, gordofobia, entre outros.

"Elas dividiram comigo histórias de violência psicológica. Uma delas disse que ouviu que até uma vaca conseguia parir, e ela não conseguia porque não queria ter o filho", diz a escritora. "São relatos em que elas lembram coisas que falaram para elas muitos anos antes de me darem entrevista".

Venda pela internet para driblar o isolamento

Com o livro aprovado e incentivo da banca examinadora, Caira resolveu buscar uma editora para lançar o material. "Fiz uma vaquinha de R$ 500, dei entrada na editora. Eles disseram que conforme eu vendesse, eu pagaria o que restava; só que eu combinei um lançamento e o livro não foi impresso. Então, como eu já tinha vendido alguns livros, resolvi pegar meu décimo terceiro do ano passado e mandar para a gráfica de maneira independente".

Os exemplares impressos por Caira seriam vendidos em eventos — que foram cancelados por conta da pandemia. Foi quando um amigo sugeriu que ela divulgasse pelo Twitter. "A [youtuber] Bruna Vieira e a [cartunista] Laerte compartilharam a publicação, e acho que agora consegui vender todos. Eles têm até ilustrações, que foram feitas pelo meu tio em um distrito perto da minha cidade de origem. Elas chegaram a mim porque meu pai pegou, tirou fotos e uma amiga minha digitalizou o material".

O "A dor mais doída" custa R$ 30, além do frete. A entrega é para qualquer lugar do Brasil e o contato pode ser feito com Caira pelo seu perfil no Twitter.

Violência contra a mulher